AMAI OS INIMIGOS

   ANTNIO CARLOS, UM AMIGO SEMPRE
              PRESENTE...
 POR VERA LUCIA MARINZECK DE CARVALHO

O    esprito   Antnio    Carlos,   um   estudioso
companheiro que ora vive no Plano Espiritual,
querido por muitos, considerado talentoso por
tantos, tem deixado seus fs curiosos para saber
quem ele  ou quem foi.
Nosso amigo no gosta de cultuar nomes, acha
que eles valem apenas para sermos denominados
por um determinado perodo.
Mas, apesar dessa observao, falemos um pouco
de Antnio Carlos ( assim que o conhecemos
hoje). Em sua ltima passagem pelo Plano Fsico,
Antnio Carlos exerceu a Medicina e desencarnou
nos primeiros decnios do sculo XX. Nos seus
primeiros tempos no Plano Espiritual tambm se
dedicou  Medicina. Depois, ao recordar-se do
passado, compreendeu que tinha de realizar algo
de bom para a literatura. No passado, junto
comigo, havamos ambos nos equivocado,
escrevendo      livros    confusos     e  passando
informaes errneas.
Temos Antnio Carlos e eu, uma afinidade muito
grande, pois j estivemos juntos por diversas
vezes,    tanto    no   Plano    Fsico  como    na
Espiritualidade.
Para escrevermos o primeiro livro, treinamos nove
anos consecutivos. Antes da edio da primeira
obra e, posteriormente, das demais j editadas,
cada livro  reescrito cinco vezes, em mdia, alm
de passar por vrias revises.
Antnio Carlos sempre me pediu para sentir sua
vibrao e que sempre o distinguisse assim, j que
a aparncia, como o nome, no  nada.
Vejo-o sempre desta maneira:  alto, forte,
aparentam sessenta anos, cabelos ralos, finos,
repartidos de lado. Traos fortes, olhar bondoso.
Nunca o vi rir, mas sorri muito, aquele sorriso
carinhoso com os lbios fechados.
Fiz    a   ele   algumas     perguntas,    as    que
costumeiramente me so feitas, e que eu tambm
no sabia. Obtive as seguintes respostas, que,
agora, transcrevo aos amigos.
-- Voc pretende escrever um livro sobre sua
ltima encarnao?
-- Minha ltima passagem pelo Plano Fsico foi
muito simples. J pensei nisso, mas ainda no
achei uma maneira interessante de escrev-la.
Reencarnei em uma famlia de classe mdia, fui
presbiteriano. Estudei com facilidades e exerci a
Medicina com amor. Talvez venha narr-la, mas
temo que no fique do agrado dos nossos queridos
leitores.
-- Quais so seus planos para o futuro?
-- Tenho alguns romances que quero passar para
a Vera, minha companheira de trabalho. Tudo que
comea tem um final. E fazendo, fazendo que, um
dia, poderemos, ela e eu, dizer: "Pronto! Est
feito!" Tenho planos, sim, quando a mdium Vera
desencarnar, pararei com esta atividade e irei
reencarnar, pois tenho algo muito importante para
fazer no Plano Fsico. Trabalhar com a literatura foi
e  muito importante, reparei o que fiz de errado e
muito aprendi. Fao este trabalho s com esta
mdium, pois temos motivos, histrias e vivncias
juntos.
-- Voc se chama mesmo Antnio Carlos?
-- Claro! Sou conhecido assim, se amigos me
chamam. Por que no chamar?
-- Qual foi sua maior alegria nestes anos
dedicados  literatura?
-- Foi ter visto os livros de a menina Patrcia terem
sido aceitos e consolado tantas pessoas. Patrcia 
outro afeto ligado  mdium Vera, por muitas
encarnaes, e que, no Plano Espiritual,
trabalharam e estudaram juntas para que
pudessem escrever os livros. Coordenar este
trabalho foi  maior alegria. Estavam programados
quatro livros. Terminada sua tarefa. Patrcia foi
fazer o que planejara. Amigos, os desencarnados
tambm sonham, fazem planos, e nossa querida
amiga foi realizar o seu. Hoje, ela trabalha e
estuda na Espiritualidade e no vem mais ao Plano
Fsico.
-- Algumas palavras aos nossos leitores...
-- Que aprendamos a amar de forma verdadeira, a
ns mesmos e ao prximo, para termos paz e
harmonia. Meu abrao carinhoso e fraterno a
todos.
Setembro de 2001

                      A Ilha

-- Tortugo, onde est a Ruga? - indagou Noel
passando a mo na cabea de uma de suas
tartarugas. -- Voc gosta de um carinho, no ?
Noel sorriu, era uma pessoa diferente dos
habitantes da regio. Louro, olhos azuis, barba
longa, alto, forte e considerado sbio pelos
vizinhos que tinham poucos conhecimentos e
estudos. Mesmo no sendo muito social, era
querido, porque estava sempre os ajudando com
conselhos e resolvendo os problemas daquela
gente simples.
Pegou uma folha de alface para dar ao
animalzinho. Moravam com ele na ilha duas
bonitas tartarugas.
-- Coma, Tortugo! Ser que voc  mesmo
macho? Se no for, me desculpe, no quero
ofend-lo. Man me disse que voc . Quando
voltar  civilizao, vou pesquisar para ver se suas
caractersticas so de macho. No faz diferena 
maneira como eu o chamo, no  amigo? Voc no
entende,  o que .
Segurou a folha e a tartaruga comia devagar. Noel
sentiu, de novo, a mozinha suave e invisvel em
cima da sua.
--  voc, meu filho? Gabriel? Voc quer que eu
decida? Que volte e enfrente a vida! Voc tem
razo, j fugi por muito tempo. Devo retornar!
Andou pela margem, olhou o horizonte. Estava
clareando e Noel no cansava de olhar para o
firmamento.
-- A natureza  bonita demais! No existe cor mais
linda que o azul do firmamento! - sorriu. -- No
devo mais falar sozinho e nem rir. Estranharo,
quando eu voltar.
A ilha era pequena, fluvial, o rio que a cercava era
grande, com muita gua limpa e muitos peixes. As
rvores eram lindas, a floresta nativa margeava o
caudaloso rio. Noel gostava de admir-la e
tambm os animais silvestres e at selvagens.
Havia por toda a regio muitas cobras, aprendeu
rpido distinguir as venenosas e conhecer todos os
peixes. Pescava pouco, s quando queria com-
los.
-- Aprendi a cozinhar, fao peixes de diversas
maneiras, l no farei mais, no terei tempo! -
balbuciou.
A ilha ficava bem no meio do rio, tinha algumas
rvores nativas e outras frutferas. Em um
frondoso jequitib fez um balano, gostava de ficar
balanando.
"Desfrutar da natureza  muito bom, pena que
muitos abusam," pensou.
Estava ali h quase cinco anos, amava o lugar.
Tinha tudo que precisava. Uma casinha de um
cmodo s, onde tinha o fogo  lenha, um
lampio, uma cama e alguns livros.
Foi cuidar da horta, tinha plantado diversas
rvores e muitas verduras. Tirava seu sustento do
rio e da horta. De seis em seis meses, recebia um
envelope com algum dinheiro e comprava caf,
acar e algumas roupas. Vinha pelo correio que
era entregue para os pescadores na vila do outro
lado do rio, na margem direita.
-- Noel! Noel!
Ele ouviu cham-lo, largou a enxada, caminhou
para a margem e viu Severino, um pescador que
morava na vila.
-- Noel veio avis-lo que o envelope pardo chegou
e tambm ver se voc me arruma erva-cidreira.
Rosa, minha mulher, quer fazer um ch. Ser que
voc no me d uns tomates?
-- Voc precisa plantar Severino!  to fcil e
prazeroso cuidar de uma horta! Vou pegar o que
me pede e obrigado pelo aviso.
O envelope era carta de Drcio, certamente ele
mandara o que lhe pedira. Severino pegou a erva
e os tomates, agradeceu e foi embora. Noel ficou
pensando:
"No tenho porque adiar mais. Vou buscar hoje o
envelope. Tenho d de deixar tudo, ou melhor,
receio.  isto, tenho medo. Aqui est muito
cmodo. Ser que  covardia ou comodismo fugir
dos problemas?"
Ali ele tinha paz e tentava resolver problemas
alheios, ele no os tinha no naquela ilha. Por no
v-los, sentia no ter.
"Vou acabar de carpir este pedao e irei  vila."
Meia hora depois, pegou sua canoa e remou
devagar, cadenciado rumo  outra margem. A vila
no era longe, ele gastava, para chegar l, uns
trinta minutos quando remava mais depressa, mas
Noel gostava de ir devagar apreciando as guas,
os peixes e as margens. Para ir ao povoado tinha
que remar contra a correnteza, mas o rio no tinha
pressa, suas guas vinham vagarosamente. Na
volta, muitas vezes Noel deitava na canoa e ficava
olhando para cima, vendo as aves, as nuvens, e a
canoa vinha devagar como o rio.
-- Como  bom no ter pressa! - exclamava
sempre. Gostava de sua canoa, quando viera,
comprara essa e j a reformara muitas vezes e
pintava-a sempre de vermelho e azul.
No avistava a ilha da vila, o povoado era
pequeno, com duas ruas empoeiradas, as casas
eram simples, os moradores quase todos morenos,
curtidos do sol que reinava sempre, ali era vero o
ano todo.
Chegou, todos o cumprimentaram alegres, as
crianas o cercaram.
-- Noel, que bom v-lo! - falou Marquinho, um
garoto esperto que o visitava sempre.
Todos o chamavam s pelo nome. Ele pediu, logo
que os conheceu que no o chamassem de senhor.
Estava cansado deste tratamento e agora teria
certamente de ouvi-lo de novo.
-- Noel, venha ver minha Neuzinha, ela est com
dor de barriga - falou Jovino.
Ele foi no era mdico, mas seus poucos
conhecimentos       nessa    rea    eram    muitos,
comparado com os deles. Por ali no havia
mdicos ou hospitais, s na cidade mais prxima,
que ficava distante. Ali usavam muito ervas chs,
remdios caseiros. Noel no recusava atender
ningum, tentava sempre ajudar e quando
percebia que poderia ser algo mais grave,
orientava-os e auxiliava-os a ir para a cidade.
-- Que tem Neuzinha? Onde di? - perguntou ele.
-- Aqui, Papai Noel! - respondeu a garota.
Noel sorriu, desde pequeno ouvia isto, quando
criana se chateava, adolescente quis mudar seu
nome, depois se acostumou. Sua me o consolava
dizendo que ele tinha o nome de um compositor
famoso. Noel Rosa, mas isto no o consolava
muito, no gostava do seu nome.
Ele concordou com a garota, com a barba longa
loura, parecia mesmo o Papai Noel, s que sem
filhos. Tinha tido o Gabriel, que partiu to cedo.
Lembrava muito dele, recordou que um dia seu
filho sentou no seu colo e lhe disse:
"Paizinho, voc tem o nome do Papai Noel. E, para
ser um, s falta a barba."
Agora no faltava, tinha a barba. Ser que foi por
isto que a deixou crescer? Ou por que no gostava
de fazer a barba? Comodismo? Ou para ficar
parecido mesmo com o famoso e lendrio
velhinho?
Novamente sentiu a mozinha, a suave, quente e
macia mo sobre a sua que passou pela barriga da
menina.
-- D a ela ch para vermes! Neuzinha, voc vai
sarar da dor! - exclamou ele.
Eles confiavam e a garota ficaria boa como
acontecia sempre. Sorriu com os agradecimentos.
Foi at a casa do Sr. Benedito, que era o lder da
vila e pegou o envelope e voltou para a ilha. Todos
olharam curiosos, tinham muita vontade de saber
o que ele recebia periodicamente, mas, como ele
no respondia, no perguntavam mais.
Quando quis sumir, afastar-se da cidade, de todo o
fez mesmo. Consultou o mapa do Brasil. O pas era
grandes demais, muitos rios, apontou um, viu que
tinha algumas ilhas, resolveu ir para uma delas.
Colocou numa maleta s o que achava essencial,
algum dinheiro e partiu. No comeo a populao
ribeirinha olhou-o com desconfiana, com o tempo
foi aceito, e agora eram amigos. No abriu o
envelope, chegou  ilha, deixou-o em cima da
cama. Fez seu almoo e s depois que se
alimentou foi que abriu a carta. Era de Drcio, seu
grande amigo e a nica pessoa que sabia onde ele
estava.
Havia o dinheiro que pediu e o bilhete:
"Noel, me alegrei muito com a notcia de seu
retomo. Quero mesmo lhe passar o cargo para me
dedicar  poltica. Ser um prazer enorme t-lo
conosco novamente. Venha o mais rpido possvel.
Abraos, Drcio."
Olhou o dinheiro.
-- Que coisa! Mudou de novo! No conheo esta
cdula! Acho que  mais que suficiente!
As maritacas faziam barulho, Noel levantou-se e
foi dar quirera de milho a elas. Muitas aves vinham
na ilhas acostumadas a receber alimentos e ele
tinha o casal de tartaruga. Iludia-se achando que
elas lhe pertenciam; eram s vizinhos, os animais
ali eram livres. Olhou tudo com carinho, despedia.
Resolveu deitar um pouco e ir ao dia seguinte 
vila e comunicar a todos que iria partir. Sentiu a
presena do filho.
"Estou fazendo que voc queiras! Ser que l irei
sentir voc, meu garoto?"
"Sim, meu pai, no o deixarei!"
Sentiu a resposta e o beijo no rosto. Suspirou
sentindo muita paz.
-- Que vou levar? - perguntou a si mesmo e
respondeu: -- Uma troca de roupa, as outras vou
dar para o pessoal da vila. Vou levar estes livros!
So minha riqueza!
Eram nove livros que mudaram sua forma de
pensar. Lembrava bem do dia em que ganhou os
livros, foi numa tarde que teve uma tempestade
forte, um barco grande a motor se perdeu com uns
turistas e ele os acolheu na ilha. Eram trs homens
que saram para pescar. Afastaram-se do hotel e
no sabiam retornar, Noel lhes deu alimentos e
ficaram conversando, eles estranharam por
encontrar     ali    sozinho    uma      pessoa    de
conhecimentos. A tempestade passou e Noel
ofereceu-se para gui-los at o hotel.
"Irei com vocs no barco, amarro minha canoa
nele, levo-os e volto."
"Vou aceitar, se no chego hoje, minha famlia que
ficou na pousada ir apavorar," disse um deles.
Quando chegaram ao hotel, quiseram lhe pagar o
favor. Noel recusou. Ento um dos homens lhe deu
um embrulho, achou que era roupa, ia recusar,
quando o ofertante falou:
"So livros, gostar de l-los, eles mudaram minha
vida para melhor, creio que o ajudaro tambm."
Gostava de ler, mas fazia tempo que no lia nada,
s vezes lia algumas notcias dos jornais na vila
porque eles lhe pediam para explic-las. E, por
elas, tinha a impresso que a humanidade estava
ficando cada vez mais confusa. Chegou  noite na
ilha; no outro dia, logo que clareou, pegou os livros
e examinou-os. Eram de um escritor francs, Allan
Kardec, sua coleo e mais dois de estudos sobre
o Espiritismo. Noel comeou a ler. Depois de l-los,
voltou a reler estudando-os. Comeou ento a ver
os fatos de outra maneira, a vida de outro modo.
Numa noite, sonhou com o filho Gabriel, que havia
falecido. Ele o beijou, abraou e falou:
"Paizinho, amo-o!"
"Eu tambm o amo!"- respondeu.
"Amai, pois os inimigos!"- exclamou o filho.
Acordou e teve a certeza de ter se encontrado com
seu garoto. E passou ento a senti-lo. Escutava
sua vozinha, sentia sua mo.
Numa tarde, o sol estava muito forte. Noel deitou-
se um pouco, orou e seu esprito afastou-se do
corpo. Assustou-se, mas ao ver o filho tranqilizou-
se. Ficou de p e olhou seu corpo deitado.
Estranhou, estava com trinta anos e parecia ter
muito mais com aquela barba at o peito. Olhou
para Gabriel, estava como desencarnara, rosado,
olhos azuis, lbios vermelhos, este lhe sorriu com
carinho e falou:
"Oi, papai!"
"Foi voc que fez isto?"- perguntou Noel.
"Ajudei-o. Voc saiu do seu corpo consciente."
"Sonho?"
"No  sonho. Somos espritos e vestimos algumas
roupagens. Isto , meu esprito reveste o
perisprito, cpia do corpo fsico que usava, vivo
assim, porque estou desencarnado. Voc se
afastou com seu perisprito do seu corpo carnal
que est a deitado. V este cordo? Est preso a
ele, isto , est encarnado. Encontramo-nos
sempre e conversamos, quando seu corpo dorme,
e que recorda como sonho. Saindo assim,
consciente, lembrar de nossa conversa e poder
meditar sobre o que dialogamos."
"Li sobre isto, mas sentir  diferente. Estamos
iguais e quero lhe dar um abrao. Senti-lo!"
Abraaram-se com carinho.
"Papai, quero lhe falar. A morte do corpo no
acaba conosco. Continuamos vivos, com nossa
individualidade e sentimentos. Continuo amando
voc. Foi to bom voc ter ganhado estes livros,
conversar comigo e no ter medo." - falou Gabriel.
"Voc quer me pedir algo?"- perguntou Noel.
"Como sabe?"
"Todas as vezes que me pedia algo colocava as
mos para trs, nas costas."
Gabriel riu. Era uma criana de rara beleza quando
no fsico e continuou lindo por estar equilibrado,
harmonizado. Respondeu calmamente.
"Quero, papai, que volte! Precisa cuidar do que
Deus lhe confiou."
"Drcio no est fazendo?" - indagou Noel.
"Ele no  dono!"- respondeu Gabriel.
"Aqui tenho paz!"- exclamou Noel suspirando.
"Aprender a ter paz  conquista nossa, quem o faz
consegue independente do Lugar em que esteja," -
respondeu Gabriel.
"Meu filho, acho que ser um retorno difcil para
mim."
"Quer s facilidades? Cad aquele homem que
enfrentava tudo?" - indagou o garoto.
"Enfrentava, disse bem, agora no sei."
"Pois eu sei. Conseguir."
" isto mesmo que quer?" - perguntou Noel.
" o que precisa ser feito" - respondeu o filho.
Gabriel colocou-o de novo junto ao corpo. Noel
pulou, abriu os olhos e no viu mais o filho, ficou
pensando por horas neste encontro e resolveu
voltar. Escreveu a Drcio pedindo que enviasse
dinheiro para o regresso.
-- Foi por isto que resolvi regressar! - exclamou
levantando-se da cama. Abriu o envelope de novo
e l estava o dinheiro. Vivera sem ele, ou quase
sem, ultimamente usara para beneficiar algum.
-- Antes achava que ningum vivia sem dinheiro,
sempre tive muito, mas agora penso diferente.
Voltando, terei de lidar com a moeda. Que irei
encontrar? Drcio me foi fiel? Devo estar
preparado para tudo.
Andou pela ilha, olhava com carinho cada pedao,
despedindo-se. Talvez no regressasse mais ali, e
se voltasse no seria a mesma coisa. Tudo muda.
-- Este tomateiro que agora est carregado de
frutos, morrer e secar em meses. Tudo modifica.
Uns resistem mais, outros menos, e tudo se
transforma. As pessoas tambm, fatos as fazem
mudar, umas para melhor, outras para pior, o
tempo deixa marcas. Se estivermos pertos, vendo
as modificaes dirias, no as notamos, ou no
nos chocam. Se estivermos longe, ao rev-las e
notamos estas mudanas de uma s vez,
estranhamos e podem doer. Dizem que o que os
olhos no vem o corao no sente. Ao retornar,
almejamos ver tudo como deixamos, mas isto no
 possvel, as transformaes existem e a
decepo machuca. Sei que no vou encontrar as
coisas, pessoas como as deixei, e nem se voltar
aqui, depois de um perodo, no encontrarei como
est.
As tartarugas viviam soltas, eram acostumadas a
ser alimentadas, teriam que procurar alimentos e
ainda bem que ali os tinham em abundncia.
-- Se no chover, vocs minhas plantinhas
sensveis morrero de sede perto de tanta gua! -
exclamou Noel suspirando e olhando a horta bem-
cuidada. -- Vou hoje ou amanh me despedir do
pessoal da vila? - indagou a si mesmo. -- Vou hoje,
agora! - decidiu. -- Ainda bem que no tenho
cachorro! Gosto tanto desse animal! S tive o Bob!
O pobrezinho morreu de velho - falou e foi para a
margem do rio.
Entrou na canoa e remou cadenciado. Chegou,
amarrou-a e caminhou para o nico bar ali
existente, naquela hora era bem freqentado
pelos moradores locais. Todos pararam e olharam-
no estranhando o fato de ele vir duas vezes no
mesmo dia  vila.
-- Aconteceu alguma coisa, Noel? Voc est bem?
-perguntou Severino.
-- Queria conversar com vocs, por isto vim aqui -
respondeu Noel. Resolveu falar logo de uma vez:
-- Vou embora! Volto para a minha cidade.
Amanh cedo partirei.
Silncio. Ningum, por momentos, atreveu-se a
falar; continuaram parados, olhando-o, at que
Man perguntou:
-- Por qu? Voc no gosta daqui?
-- Amo este Lugar, aqui encontrei a paz to
sonhada. Porm, fugir do mundo, da civilizao,
no resolve nossos problemas, nos iludimos que
no os temos por no v-los. Ignor-los  iludir-se.
E no podemos viver na iluso a vida toda. Temos
que resolver o que ficou pendente.
Noel falou de cabea baixa, s para si, porque, ao
olhar para eles, os viu pasmos, sorriu e continuou
a falar:
-- Amigos, tenho o que fazer na minha cidade
natal, fiquei longe por muito tempo e devo voltar.
-- Voc tem famlia? - perguntou Benedito.
-- No!
-- Por que ento? - indagou Benedito novamente.
Noel pensou em responder, "tenho inimigos", mas
tinha afetos tambm, amigos, estava voltando por
tudo e respondeu:
-- Volto para resolver uns problemas.
--  foragido da polcia? - quis saber Pedro.
-- No! - Noel respondeu e entendeu que, por no
revelar nada do seu passado a eles, seus amigos
pensavam muitas coisas a seu respeito. Achando
que lhes devia uma explicao, falou:
-- Nada fiz de errado, a polcia no me procura.
Sou uma pessoa normal, s que no tenho famlia,
meus pais faleceram, era filho nico e tinha um
filho que morreu num acidente. Desgostoso, quis
me afastar da cidade e vim para c. Gosto da vida
aqui, mas preciso retornar para cuidar de alguns
bens materiais que deixei um amigo tomando
conta. Agora ele quer ser poltico e eu preciso
voltar.
-- Voc acha que ir encontrar estes bens? Ter
ainda alguma coisa? - perguntou Severino.
-- No sei, por isto estou voltando - respondeu
Noel.
-- Se seu amigo quer ser poltico,  melhor ficar
atento. Poltico no tem boa fama - alertou
Benedito.
-- Existem pessoas honestas na poltica, se tivesse
mais, nosso pas seria melhor - manifestou Man.
-- Pessoas boas no se sentem bem junto de
outras que agem errado - disse Pedro.
-- Os maus s vezes se sobressaem pela timidez
dos bons - opinou Noel. -- Muitas vezes os bons
acham melhor deixar para l, no se envolver. No
deveria ser assim.
-- Tudo j comea na eleio, a maioria joga sujo e
os bons acham que no vale  pena, que no
precisam disto - comentou Pedro.
--  pena! Poderia ter mais patriotas na poltica e
fazer deste pas um Lugar melhor para todos! -
expressou Noel.
-- Sempre achei que voc tinha um segredo. Foi,
ento, a desiluso de ter o filho morto que o fez
abandonar tudo e vir para c? Eu at o entendo,
tive dois filhos que morreram, sofri e estou aqui, a
vida continua. Por que no teve outros? -
perguntou Severino.
Noel no respondeu, resolveu mudar de assunto e
falar de sua partida.
-- Vou embora amanh cedo. Pedro, quero alugar
seus dois cavalos.
-- No alugo para amigos, empresto. Mas por que
dois? Vai levar muita coisa? - perguntou Pedro.
-- No,  que quero que um dos garotos v comigo
 cidade e traga os cavalos de volta.
-- Devemos muito a voc, Noel, melhorou nossa
vida, aprendemos com voc a negociar, a
entender nossos direitos e vamos sentir sua falta.
 um prazer lhe emprestar os cavalos - disse
Pedro.
-- Temos a escola porque voc a conseguiu, e
sempre est conosco quando precisamos. Voc
volta? - perguntou Man.
-- Talvez! - respondeu Noel. -- Vou trazer meus
pertences e dar a voc. Sebastio; como voc quer
casar, pode ajudar, no  muita coisa. Minhas
roupas deixo aqui, vocs repartem. Gostaria de
lhes pedir um favor: se ficar muito tempo sem
chover, que um de vocs v l  ilha e ge
minhas plantas.
-- Podemos pegar os frutos? - pediu Nelson.
-- Claro!
Conversaram por mais alguns minutos e Noel
voltou  ilha. Estava triste e chorou. Afastar-se do
mundo  fcil, viver sem as tentaes, sem
conviver  bem mais tranqilo. Viver no mundo
convivendo com o prximo, no se corromper e
no ser apegado a nada que se julga ser seu  que
 difcil. Para viver em sociedade tem que ser
corajoso. Porm, ningum faz nada por nossa
morada, a Terra, sem participar, sem conviver com
os outros moradores desta casa.
"Que Deus me ajude!" - suspirou.
Dormiu, acordou de madrugada e arrumou tudo
para partir. Colocou suas roupas num saco para
deixar no bar, os outros pertences, em outro para
dar ao Sebastio, colocou tudo na canoa e partiu
sem olhar para trs. No queria ver a ilha pela
ltima vez. Levava no colo uma linda flor, uma
orqudea lils. Quando chegou  margem, Pedro
estava esperando-o, ajudou com os sacos.
-- Ramon ir  cidade com voc. Boa viagem.
Noel, e volte amigo!
Deixou os sacos no bar e foi  escola. Maria Ins
estava l. Ele entrou. A escola era um salo com
carteiras novas e boas, uma lousa grande,
estantes com livros, uma cozinha para merenda e
dois banheiros. Construda com a doao dele, fora
um grande presente para os moradores da vila.
-- Bom dia. Noel! - falou Maria Ins.
-- Vim me despedir de voc. Trouxe-lhe esta flor! -
exclamou Noel.
--  linda! Obrigada! Voc vai mesmo embora?
No volta?
-- Acho que no volto mais. Maria Ins quero que
voc seja muito feliz! - respondeu Noel.
-- Eu tambm lhe desejo felicidades! - disse a
professora baixinho.
Noel a olhou. Maria Ins era morena, olhos negros
expressivos e sinceros, cabelos longos castanho-
escuros, no tinha muito estudo, mas era
esforada e sabia ensinar, era a professora da
escola da vila. Todos gostavam muito dela. Ele
sabia que ela gostava dele, os pescadores haviam
insinuado, ele nunca a motivou. O nico gesto seu
de carinho para com ela era aquele, da despedida,
em que lhe trouxera a flor. Queria realmente que
ela fosse feliz e temeu que ela o esperasse.
-- Maria Ins, voc  uma pessoa especial, admiro-
a pelo que faz pelo que , tenho-a como amiga,
mas  s isto. No viva de iluso! Estou partindo e
no volto mais!
-- Os sentimentos bons nos ajudam a viver -
respondeu Maria Ins. -- No se preocupe comigo,
vou estar bem, aqui  onde sempre morei e
morarei, gosto da escola e dos meus alunos.
-- Que Deus a abenoe, Maria Ins. Adeus!
-- Adeus!
Noel saiu e escutou um soluo, sentiu vontade de
voltar e acalentar a moa, mas seria pior. No
fizera nada para que ela o amasse, era um amor
platnico e ela o esqueceria.
"Por que s vezes, mesmo sem querer, fazemos
outras pessoas sofrerem?" - pensou e suspirou
triste.
Alguns amigos nem foram pescar para que
pudessem se despedir dele. Abraou um por um,
montou no cavalo e partiu.

                Lembranas

Noel nem olhou para trs, esforou-se para no
chorar e pensou:
"Estou ficando choro!"
A estrada era empoeirada e os cavalos trotavam
cadenciados. Ramon tentou conversar, mas Noel
no estava a fim, o garoto comeou, ento, a
cantar, depois ficou quieto. Chegaram  cidade,
no era grande, mas tinha escolas, mdicos, um
pequeno hospital e um terminal de nibus.
-- Vamos parar aqui, Ramon!
Noel desceu do cavalo, pegou sua sacola e deu
dinheiro a Ramon.
-- No quero. Noel! O Sr Pedro disse que no era
para pegar dinheiro seu, que voc no lhe devia
nada.
-- Sei disto, Ramon, este  para voc.
-- Obrigado! Adeus!
Noel andou pela cidade, foi ao terminal de nibus
e conferiu o horrio, o nibus para a capital do
estado sairia dentro de duas horas, comprou a
passagem. Estava ansioso e andou pelas ruas
prximas  pequena rodoviria. Depois que
perguntou as horas para duas pessoas, resolveu
comprar um relgio, mas no achou ali por perto e
no quis ir longe. Tomou caf num bar, voltou para
o ponto de nibus. Este estava no horrio. Quando
partiu foi que sentiu que realmente estava indo
embora.
Abriu o Evangelho no seu captulo preferido e leu:
"Se perdoardes aos homens as faltas que
cometem contra vs, vosso Pai celeste tambm
perdoar vossos pecados; mas se no perdoardes
aos homens quando vos ofendem, vosso Pai
tambm no perdoar vossos pecados." Mateus,
6:14 e 15.
Como o nibus balanava muito, fechou o livro e
se ps a pensar, a recordar.
Fora um garoto feliz, mimado pela me, gostava
de estudar. Era adolescente quando os pais
comearam a brigar discutir, e quase sempre,
aps as discusses, seu genitor ia para a fbrica
onde fizera um apartamento, e l, segundo sua
me, era um local em que recebia suas amantes.
Foi uma decepo enorme quando, uma tarde, viu
o pai com uma garota no apartamento. Tinha ido
l numa tentativa de lev-lo para casa e
encontrou-o com uma moa. Saiu sem ser visto e
chorou sentido, no disse nada  me. Sempre
havia estudado com vontade, amava aprender e
formou-se engenheiro mecnico. Estudou numa
cidade vizinha da que morava. Estava todos os
finais de semana em casa e seus pais continuavam
a brigar. Gostava muito de ir  fbrica de tecidos,
era grande, limpa e segura. Os empregados
gostavam muito de seu pai, que era bom patro.
Estava ainda estudando quando sua me o
chamou para uma conversa, e pelo tom era sria.
"Noel, meu filho, estou doente, ou estamos
doentes, seu pai e eu. Ari sempre me traiu, soube,
sei e sou covarde, no tive coragem de abandon-
lo. Acho que sou uma pessoa que ama uma vez s.
E mesmo sabendo tudo que ele me faz, ainda o
amo. Ari, nestas suas aventuras, contagiou-se com
uma doena e me transmitiu. Estamos tratando,
mas acho que no vamos sarar. Ainda mais que
seu pai tambm tem uma doena grave no
corao.  muito triste saber que ele, ao meu trair,
contagiou-se com este mal e me passou."
Nem quis acreditar, mas era verdade. Seu pai
organizou os negcios, passou todos os bens em
seu nome, nas suas frias e nos finais de semana
aprendeu tudo, o pai o ensinou com pacincia. O
que o consolava era que os pais agora estavam
unidos, no brigavam e tratavam-se com carinho.
Sofreram com a doena. Na sua formatura, seu pai
foi de cadeira de rodas e teve que sair antes do
final, por se sentir mal. Tornou-se apto ao servio
da fbrica, admirou o trabalho do pai, embora seu
genitor fosse farrista, tendo vrias amantes, era
generoso com os empregados e dava grandes
somas de dinheiro para instituies filantrpicas.
Seguiu o ritmo de trabalho de seu pai. Drcio, filho
de um empregado antigo e de confiana, que era
um jovem advogado, esforado e inteligente,
passou a ser seu secretrio e ajudava-o em tudo.
Conhecia Drcio desde garoto, naquela cidade de
porte mdio todos se conheciam. Ficaram amigos.
Seu pai sofreu muito, a me, embora doente,
cuidou dele com carinho. Ari desencarnou
deixando todos tristes. A me, Mara, deixou de
Lutar pela vida e ele, ento, desdobrou-se em
cuidados.
"Viva por mim, mame! Preciso da senhora!"
"No se sinta necessitado de ningum, meu filho.
Seja auto-suficiente. Cuida de voc! Acredito que
s o corpo morre, o meu est irremediavelmente
irrecupervel. Do outro lado da vida, iremos sarar,
seu pai e eu. No quero que sofra por ns, por
mim, no quero que guarde Luto. Voc  to
jovem e est tendo muitas responsabilidades. Seja
justo, honesto e bom."
Sentira muito a morte da me. Trabalhava
bastante, no queria falhar e distraa-se com o
trabalho. E Drcio mostrou ser bom empregado e
honesto.
E havia Luciana, a doce e meiga L, a
namoradinha de adolescncia. Era a namorada
companheira, compreensiva, que no brigava com
ele nem quando saa com outras garotas. Estava
ao seu lado nos momentos difceis, ajudando-o na
doena de seus pais, entendendo quando no ia
aos encontros para ficar trabalhando.
-- Se tivesse me casado com ela, teria sido
diferente! - falou Noel baixinho, e um homem que
sentara ao seu lado no nibus perguntou:
-- Que disse senhor? O nibus  diferente?
-- Falei que a viagem est diferente, est boa -
respondeu Noel, pensando que teria de ter
cuidado para no falar mais sozinho.
-- Vou descer na prxima cidade. E o senhor, para
onde vai? - indagou o homem querendo conversar
-- Para a capital. Vou dormir, estou cansado! -
falou Noel fechando os olhos e continuou a
recordar.
Se tivesse casado com Luciana, no teria dado
certo, ela o amava, mas ele no. Queria-a bem,
era s isto, achava-a uma excelente pessoa, mas
talvez isto no fosse suficiente. Ela merecia mais,
ser amada. "E corao vazio pode ser preenchido",
era o que dizia a empregada de sua casa e
tambm dava palpite: "Luciana  boa, mas muito
mole e passiva, talvez, se o tratasse diferente voc
no agiria assim. Voc a quer bem, mas se
aparecer algum especial, ela ser trocada." E
apareceu.
Mudou para a cidade um gerente de banco e nas
frias a sobrinha dele foi visit-lo. Ele a havia visto
num barzinho. Ndia era linda, loura, de olhos
esverdeados, alta, magra, lbios bem desenhados.
Os moos da cidade se encantaram com ela e ele
tambm. No outro dia, encontrou com ela no
banco, foram apresentados e ele a convidou para
tomar sorvete. Ela aceitou e ficaram conversando,
passaram uma tarde agradvel.
A noite conversou com Drcio, e lembrava-se bem
do que este dissera:
"Noel, estou interessado em Ndia, vou paquer-la
e pretendo namor-la."
"Eu tambm estou interessado nela." - fora a
resposta dele.
"E Luciana?" - perguntou Drcio espantado.
"Espero que L no seja problema, no estou
casado."
"Acho que j perdi, Ndia  muito bonita, mas me
pareceu interesseira" - opinou Drcio.
Ele no havia importado com o comentrio do
amigo, deveria ser despeito, nunca pensou que
algum pudesse ter interesse no que ele tinha e
no nele.
No outro dia, telefonou para Ndia e ela lhe disse:
"Noel, fiquei sabendo que voc tem namorada,
no    acho     certo   sair  com    voc     sendo
comprometido. Vou desligar e, por favor, no ligue
mais!"
Desligou e no atendeu o outro telefonema que
ele fez em seguida. Ele havia pensado nela a tarde
toda. A noite encontrou-se com Luciana, esta
ficara sabendo que no dia anterior estivera com a
outra na sorveteria. Discutiram e ele aproveitou
para terminarem o namoro. Luciana achou que era
uma briguinha  toa e ele s pensou em dizer a
Ndia que estava livre e foi o que fez, quando
chegou a casa. Telefonou a ela, falou que havia
terminado o namoro e Ndia respondeu:
"Vem aqui agora, estou esperando-o."
Foi e passaram a se encontrar todos os dias e, no
final das frias dela, estavam apaixonados. Ndia
estudava, cursava o segundo ano de Letras.
Luciana o procurou e ele no a deixou falar, disse-
lhe que estava amando Ndia e que era grato por
ela ter sido boa com ele, mas que no a amava.
Ficara triste por fazer Luciana sofrer, mas estava
to empolgado com a nova namorada que no
conseguia pensar em mais nada. Foi v-la na
cidade em que morava, conheceu seus pais, eram
pessoas      simples    que    tinham   dificuldades
financeiras, e firmou o namoro. Quando no ia v-
la, era ela quem vinha para a casa de seus tios e,
assim, encontravam-se sempre. A moa fazia de
tudo para agrad-lo e ele achou que encontrara
sua cara-metade. Meses depois ficaram noivos.
"Noel - disse-lhe Drcio --, estou com vontade de
namorar Luciana. Que voc acha?"
"Ela  uma pessoa tima. Voc gosta dela?"
"Gosto h muito tempo, mas a L s via voc.
Agora acho que tenho chance."
"Luciana e eu estvamos acostumados um com o
outro, no nos amvamos. Acho que daro um par
perfeito" - ele havia incentivando o amigo.
Reformou a casa em que morara com seus pais,
mobiliou-a ao gosto de Ndia. Percebeu que ela
gostava de Luxo, no viu nisto algo negativo. Ela
parou de estudar, marcaram a data do casamento.
Foi uma cerimnia bonita o enlace dos dois e ele
estava muito feliz. No casamento deles, Drcio j
namorava Luciana e pareciam felizes.
Passou a viajar muito, Ndia gostava, queria
conhecer Lugares, viajaram at para o exterior,
chegaram a ficar meses fora. Na sua ausncia,
Drcio ficava cuidando de tudo com muita
eficincia.
Quando Ndia ficou grvida, ele ficou radiante. Ela
reclamava muito da gravidez, ele era paciente e
aguardava ansioso o nascimento do nen. Nasceu
Gabriel, um garoto lindo, louro, de olhos azuis. Foi
ento que se decepcionou um pouco com a
esposa. Ela no era boa me, queria continuar
viajando, saindo de casa e largando a criana com
babs. Discutiram, embora a continuasse amando
demais, os defeitos dela comearam a incomod-
lo. Ndia era vaidosa, ambiciosa, gostava de se
exibir. Ele queria outros filhos, ela no. Drcio
casou-se com Luciana, seu amigo estava feliz.
Ndia reclamava cada vez mais e era raro o dia
que no discutiam. Ele amava demais o filho,
garoto inteligente, sensvel e muito apegado a ele.
Uma tarde, estando ele e Drcio a ss, o amigo
havia indagado:
"Noel, voc est bem? Voc e Ndia esto bem?"
"Brigamos s vezes, mas tudo certo. Por qu?"
Olhou para Drcio e sentiu que ele queria lhe dizer
algo, j fazia algum tempo que sentia isto do
amigo, que queria lhe falar e no tinha coragem.
Resolveu esclarecer
"Drcio, meu amigo, fale logo o que tem para me
dizer! Por favor!"
"Noel, voc lembra o Carlos, aquele que tem uma
loja esportiva?"
"Sei bem quem  Carlos, fomos amigos quando
jovens, mas no afinamos, ele era arrogante e
uma vez brigamos por causa da Luciana. Tome
cuidado, Drcio, ele j quis namorar a L" - havia
respondido, tentando sorrir.
"Tome cuidado voc. Noel, ele quer namorar a
Ndia!"- exclamou Drcio falando depressa.
"Pronto, disse! Desculpe-me, meu amigo, mas
todos comentam pela cidade. Carlos tem
paquerado sua esposa e at a tem visitado na sua
casa, em sua ausncia."
Ele se lembrava de que havia sentado na poltrona,
tomara gua da jarra que ficava em sua
escrivaninha, ficara alheio por momentos, depois
disse baixinho:
"Conte-me tudo que sabe Drcio!"
No tinha muito que contar. Carlos e Ndia
estavam se encontrando e todos sabiam.
Foi para casa, encontrou Ndia sozinha, a bab
fora passear com Gabriel, que fizera trs anos na
semana anterior.
"Ndia, o que est acontecendo? Disseram-me que
voc tem se encontrado com Carlos" - ele havia
dito com a esperana de que ela desmentisse,
negasse e dissesse que o amava.
"Nosso casamento foi um fracasso, um equvoco.
Quero a separao!" - respondeu ela friamente.
Noel sentiu que ia desfalecer, esforou-se para
parecer natural.
"Voc e Carlos..."
"Estamos namorando, amo ele, quero ficar com
Carlos."
"O Gabriel fica comigo" - fora sua resposta.
"Nunca! Sou a me e tenho direito. Fico com o
meu filho!"
"Nosso!"
"Nosso! Por isto ter que sustent-lo!" - gritou
Ndia exaltada.
Ele tinha ido para o quarto como um autmato,
pegou uma mala, colocou umas roupas dentro e
foi para a fbrica. Pediu para limparem o
apartamento onde seu pai ficava quando brigava
com sua me e ficou l.
Foi um perodo difcil para ele, que sofreu muito.
S ento compreendeu que Ndia nunca o amara,
casara com ele pelo dinheiro. Ele era a pessoa
mais rica da cidade e foi fcil para ela conquist-lo.
Nunca havia negado nada  esposa, que gastava
muito com roupas, jias. Ele tambm ajudava
todos da famlia dela, dava mesada generosa aos
sogros. Sentiu muito ao descobrir que nunca fora
amado.
A notcia foi  principal fofoca por semanas na
cidade. Ser trado no  fcil. Por aonde ia, parecia
que todos comentavam que l estava o trado, o
marido enganado.
Ia sempre ver o filho, a bab levava Gabriel at a
fbrica ou na pracinha perto da casa que fora dos
pais dele, onde Ndia continuava morando.
Ndia queria dinheiro, ele no quis dar nada. S ia
pagar a bab e dar roupas para Gabriel. Parou de
mandar dinheiro  famlia dela.
Discutiam todas as vezes que se encontravam, ela
queria a separao, ele no se negava a dar s
que Ndia queria dinheiro, bens, queria sair
financeiramente bem do casamento, ele no
queria dar nada e almejava a guarda do filho.
Cinco meses se passaram sem que entrassem num
acordo. Discutiam muito quando se encontravam
ou mesmo pelo telefone. Carlos foi morar com
Ndia. Ele havia sofrido muito, a casa que fora dos
seus pais agora era ninho de amor da ex-esposa
com outro homem. Ele ainda amava Ndia e a
aceitaria de volta, se ela o quisesse, mas a ex-
esposa parecia mesmo apaixonada por Carlos.
Consolava-se com o filho, Gabriel no entendia a
situao e pedia para o pai voltar para casa.
Ndia telefonou um dia para ele e pediu para se
encontrar com ele no escritrio de um advogado.
Ele foi e pela primeira vez a viu como ela era na
realidade: fria, calculista, queria falar de dinheiro.
"Quero a separao. Noel, e a metade de seus
bens."
"Metade?" - ele havia perguntado espantado.
"Somos casados, ou fomos, quero o que tenho
direito!"
"No  bem assim, Ndia. No vou lhe dar metade,
nunca! Posso at lhe dar alguma coisa em troca da
guarda de Gabriel."
"Quero o que tenho direito!" - exclamou ela alto.
Discutiram e foram embora sem entrar num
acordo. Resolveu que no daria nada a ela, no
separaria e que queria Gabriel. Resolveu consultar
num       escritrio   de     advocacia      que    lhe
recomendaram como sendo o melhor da capital.
A dor da desiluso foi muita e sofreu.
E, a, houve o acidente.
Carlos saiu com o carro da garagem e atropelou
Gabriel que, no se sabe o porqu, estava
embaixo do veculo. O garoto foi socorrido e
desencarnou no hospital. Noel havia sentido tanta
dor, que algo pareceu arrebentar-lhe dentro do
peito.
Drcio organizou tudo. Estava no velrio quando
Ndia chegou chorando.
"No chore! Voc nunca foi boa me! Nunca
cuidou dele, a bab foi muito mais me que voc.
Morreu assassinado pelo seu amante! Amante!"
Drcio o havia acalmado, afastando-o da sala.
"No vou tolerar ver Ndia junto do caixo, Drcio,
no vou."
"Ela  a me, Noel! Acalme-se, por favor!"
Ao voltar ao velrio, Drcio no saiu de seu lado,
confortando-o,      consolando-o.     Todos       o
cumprimentavam e poucas pessoas deram os
psames a Ndia. Ele quis dizer muitas ofensas a
ela, gritar seu dio, Drcio o conteve. Num
momento que no havia muitas pessoas ele havia
dito:
"Satisfeita, Ndia? No quis deixar nosso filho
comigo e vocs dois o mataram."
"Foi um acidente!" - exclamou ela.
"Que este assassino no venha aqui, seno mato
ele!" - exclamava com tanto dio que Ndia
estremeceu.
Soube que Carlos saiu da garagem, atropelou
Gabriel e foi embora. A bab que viu tudo gritou e
um vizinho o levou para o hospital.
Aps o enterro, ele havia ido para seu
apartamento na fbrica e ficou sozinho. Sentou-se
na cama, sofria muito e as lgrimas comearam a
rolar pelo seu rosto. Sentiu-se abraado e pensou
na sua me:
"Mame, onde est a senhora? Sinto sua falta! J
perdi muito, todos que amava, a senhora, papai e
agora Gabriel, a morte me ronda, mas no me
leva! Queria tanto que estivesse aqui ao meu
lado!".
Pareceu que ouvia os pais brigarem. Ficou tonto,
sentiu tudo rodar, foi como na juventude, quando
presenciava suas brigas. Lembranas destas
discusses vieram fortes, sentiu que os dois
estavam ali com ele, gritando um com o outro, no
entendeu bem que falavam s que se ofendiam;
pareceu que a me acusava o pai, tanto por ter
morrido e por no poder estar ao lado dele e por
mais coisas. Levantou-se, deu murros na cmoda,
chutou os mveis e gritou:
"Pra! Pelo amor de Deus, parem com isto!"
Silncio. Tudo voltou  quietude, s escutou seus
soluos. Sentou na cama novamente. Sentiu
fraqueza, no havia se alimentado naquele dia e
estava sem fome, chorou por horas. Tomou uma
deciso: iria embora. Resolveu viajar, pensou em ir
 Europa, desistiu, queria ficar sozinho e optou por
uma ilha. De uma coisa teve certeza: odiava Ndia
e Carlos, agora eram seus inimigos, daria a eles
uma pequena amostra de seu rancor, agora, de
imediato, e iria planejar uma grande vingana.
Porque tudo que se planeja com calma se executa
melhor. Quando conseguiu dormir, j era tarde,
teve um sono agitado, acordou, percebeu que nem
havia trocado de roupas, tomou banho, caf se ps
a trabalhar freneticamente, a organizar tudo.
"Que est fazendo. Noel? Trabalhando to cedo?
Posso saber que se passa?" - indagara Drcio.
"Pode e deve, porque ser voc que far tudo de
agora em diante. Vou viajar passar um bom tempo
fora, no tenho data para voltar e voc vai cuidar
de tudo."
"Acho que ser muito bom voc viajar. Cuidarei de
tudo enquanto estiver fora. Amanh est marcada
a visita daquele advogado da capital, ele vem para
acertar sua separao. Devo cancelar?" - indagara
Drcio.
"No! Vou receb-lo, tem muitas coisas para ele
fazer".
"Que devo fazer na sua ausncia?" - quis saber
Drcio.
"Vou fazer uma procurao dando-lhe todos os
poderes para resolver tudo na fbrica, ela ficar
sob sua responsabilidade."
"Noel, no quero fofocar, mas devo lhe dizer tudo
que fiquei sabendo. Carlos tem judiado do seu
cachorro e Ndia est grvida."
"Queria tanto outro filho... e ela, no. Acho que j
planejava a separao e que me traa h um bom
tempo. Odeio os dois e vou vingar. Eles recebero
de volta todo o mal que me fizeram. Ndia deve
ter casado comigo por interesse, sempre me
enganou. Se ela queria o meu dinheiro, no vai
ter. Vou fazer o seguinte: no pague mais a gua e
nem a energia da casa e deixe que cortem por
falta de pagamento. Faa um contrato da casa,
como se eu alugasse aquela moradia da fbrica, e
mobiliada. Este contrato deve ser da data do meu
casamento. E que no pago o aluguel h meses.
Pea despejo por falta de pagamento. A locao
deve ser bem cara. Ou eles pagam ou sero
despejados, e lembre-se: todos os utenslios
domsticos pertencem  fbrica. Ento Carlos tem
judiado de Bob? Meu velho co  um animal
educado, bonzinho. Vou agora busc-lo."
"Noel, Carlos deu depoimento, disse que no viu
Gabriel, que tudo foi acidente" - falou Drcio.
"Acho que foi, mas isto no diminuiu meu dio".
Tinha ido at sua antiga casa, sentiu um aperto ao
ver a garagem. Tocou a campainha, a empregada,
a ex-bab de Gabriel, atendeu, ficou branca e
comeou a tremer ao v-lo. Disse apressada:
"Sr. Noel, no tive culpa! Dona Ndia me mandou
fazer o almoo, descuidei de Gabriel um segundo
e..."
"Quero o Bob, me traga aqui e j! - ordenou,
interrompendo-a.
A bab tratou de fazer o que ele pedia, entrou e
voltou rpida com Bob na coleira. Pegou o
cachorro, que pulou nele, abanando o rabo
contente. Virou-se para a moa e falou:
"No acho que tenha culpa, se achasse, voc iria,
sem dvida, se arrepender muito. No vou lhe
pagar mais seu ordenado."
Saiu, entrou no carro, colocou Bob no banco de
trs e voltou  fbrica, foi s quando chegou que
abraou Bob e chorou. O co pareceu que
entendia a tristeza do dono, ficou quieto, de vez
em quando lhe lambia a mo.
Entrou na fbrica com Bob, encontrou Luciana no
escritrio.
"Noel, vim ver se voc est precisando de mim.
Bob! Cachorro esperto! Como est voc?"
"Fiquei sabendo que Carlos estava maltratando
Bob, fui busc-lo."
"Ele no me esqueceu!" - exclamou Luciana. Bob
pulou nela lambendo suas mos.
"Ele j est velho. No sei o que farei com ele, mas
com Ndia meu cachorro no fica."
"Drcio me falou que voc vai viajar. Acho que  o
melhor que tem a fazer. Fico com Bob, o levo para
casa. Drcio e eu cuidaremos dele."
Nisto Drcio entrou no escritrio e confirmou:
"Noel, deixe Bob conosco, gostamos de cachorro,
cuidaremos bem dele."
"No sei nem como agradecer-lhes. Confio Bob a
vocs."
E Luciana o havia levado.
Parou de pensar e ficou olhando a paisagem pela
janela. Noel acabou por dormir, o barulho
montono do nibus lhe deu sono.
Sonhou com Ndia, que viajavam de navio. Ela
estava muito bonita, encontravam-se na piscina,
dia claro, muito calor Ndia pulou na gua,
chamou para que mergulhasse e lhe jogou gua. O
nibus deu um solavanco. Noel acordou assustado,
pulou. Um garoto que sentara ao seu lado riu
gostoso.
-- Puxa o senhor se assustou! No aconteceu
nada, acho que foi um buraco na pista, tem muitos
por aqui.
Noel riu tambm. Lembrou do sonho. Fora
orgulhoso no passado, achava que era impossvel
no ser amado, amava e tinha a certeza de que
era tambm. No compreendera que Ndia era
interesseira, talvez ela at tenha tentado am-lo.
Mas corao vazio pode ser preenchido e ela
encontrou Carlos. Foi feliz com ela, no podia
negar. No incio do casamento passaram bons
momentos      juntos,  fizeram  muitas    viagens
agradveis. Suspirou.
-- Desculpe-me se ri do senhor,  que foi
engraado o pulo que deu o susto que levou. No
quer comer? Aceita uma bolacha? - ofereceu o
garoto rindo.
-- Obrigado, no quero!
-- No estou com fome, mame comprou muita
coisa para que comesse na viagem. Pode pegar! -
o garoto falou gentilmente.
Noel pegou uma bala, agradeceu e o menino se
ps a conversar. Escutou paciente, de vez em
quando dava uma opinio. O garoto desceu logo e
Noel ficou sozinho no banco, adormeceu de novo,
estava cansado e ansioso para chegar logo.

                  A Viagem

Noel acordou quando chegou ao seu destino,
estava com fome, mas foi primeiro, verificar os
horrios de nibus. Teria que ir at a capital do
seu Estado e depois tomar outro para sua cidade.
Ficou decepcionado, s poderia continuar viajando
no outro dia pela manh. Comprou a passagem.
"No tenho porque ficar aborrecido" pensou, "este
meio de transporte atende a um nmero de
passageiros e as horas de sadas devem ser
conforme o movimento. Faria este mesmo
percurso na metade do tempo, se fosse de carro.
Eu, que nunca antes precisei preocupar-me com
horrios para viajar."
Olhou a rodoviria, era grande e muito
movimentada.
"So muitas pessoas vindo e indo e creio que
muitos tm problemas. Sempre h motivos para
viajar, passeios, negcios, h partidas tristes e
retornos alegres", pensou e suspirou.
Passou  sua frente uma senhora, com duas
malas, carregando um nen e puxando um menino
pequeno. Noel ia oferecer ajuda quando um
senhor se aproximou e o menino gritou: "Papai!".
Ele arrepiou-se.
-- Como  bom ser chamado assim! Vou ter que
ficar num hotel! - exclamou baixinho.
Uma senhora o olhou. Noel sorriu e resolveu se
esforar para no falar mais sozinho.
"Vou procurar um bom hotel, tomar banho, trocar
de roupas e jantar. No, irei comer primeiro, estou
com fome", resolveu.
Entrou num restaurante de boa aparncia, o
garom que o atendeu falou educadamente:
-- Senhor, este restaurante  caro, quero dizer, a
comida  tima e custa mais. Talvez o senhor
prefira ir a outro, logo ali na esquina tem um mais
popular.
Noel olhou-se num espelho grande na parede,
estava com a roupa simples demais e, com aquela
barba longa, no tinha aparncia de quem tem
dinheiro para uma refeio melhor. Respondeu
calmamente:
-- Pago adiantado. Aqui est. D?
-- Claro, senhor, desculpe-me!
-- Tudo bem.
Comeu com apetite.
"Se eu for procurar um bom hotel com esta
aparncia, no me aceitaro e acho que no devo
chegar  minha cidade assim", pensou.
Saiu do restaurante e entrou numa barbearia, a
primeira que viu, cortou o cabelo, raspou a barba.
Depois foi numa loja de roupas masculinas e
comprou cala e camisa. Saiu vestido com elas.
Deu suas roupas velhas para um mendigo, entrou
numa relojoaria, comprou um relgio e foi para um
hotel. Hospedou-se sem problema.
"Como a aparncia abre portas", pensou. "No
teria conseguido hospedar-me aqui horas antes,
com aquela barba e roupas simples, agora, bem
vestido, no tive nem que pagar antecipado."
No outro dia foi logo cedo para a Rodoviria e logo
estava a caminho. A viagem era longa, Noel
sentou-se ao lado da janela e ficou olhando o
caminho percorrido, viu as favelas na periferia,
teve d ao ver aqueles barracos e que certamente
era um espao pequeno para muitas pessoas.
Ficou por muito tempo observando a rodovia, o
campo, lavouras, o gado. Foram muitas as pessoas
que sentaram ao seu lado, conversou com
algumas, mas preferiu ficar mais quieto. O nibus
fez muitas paradas, Noel desceu, comeu pouco,
tomou mais lquido, estava muito calor e a viagem
foi cansativa e novamente se ps a recordar.
Drcio, seu amigo, era uma pessoa boa,
agradvel, otimista, alegre, alto, de olhos
expressivos.
"Acho que Drcio nasceu para ser poltico!",
pensou.
Lembrou que ele, no dia seguinte, j tinha
providenciado o que lhe pedira e falou:
"Noel, fiz tudo que me recomendou a ordem de
despejo j foi providenciada."
"Eles no tero como pagar e s lhes restar
mudar de l, da casa em que vivi com meus pais.
Voc, Drcio, no quer morar l?"
"No, temos a nossa casa,  menor e bem mais
simples, mas gostamos dela. Agradeo Noel" -
havia respondido Drcio.
"Quando eles mudarem, quero que mande algum
conferir, quero se possvel, um oficial de justia
para que no levem nada. Traga os mveis e os
eletrodomsticos para a nossa lojinha, aqui na
fbrica, e venda-os bem barato. No quero nada
daquilo. E tudo que pertenceu ao Gabriel, voc
manda para o orfanato."
Tinha uma lojinha na fbrica, na qual vendiam
tecidos com defeitos e os funcionrios podiam
trazer tudo que quisessem para negociar.
O dia havia passado rpido. Noel queria organizar
tudo. Quando o advogado da capital chegou, ele o
recebeu a ss.
"Desculpa-me, veio para uma coisa e vou lhe pedir
que faa outra. Vou viajar e quero deixar uma
procurao ao meu advogado e empregado
Drcio, para que ele administre todos os meus
bens, e pretendo fazer um testamento."
Ficaram horas conversando.
"Vou demorar dias para fazer isto tudo" - disse o
advogado.
"Tem que ser rpido. O pago dobrado para que
faa o mais depressa possvel."
E o ambicioso profissional tratou de ser rpido.
Drcio ficou observando e lhe falou, aconselhando:
"Noel, voc j se vingou o bastante!"
"Isto  pouco, Drcio! Se Ndia casou comigo por
interesse,  justo que no receba nada. S no vou
me vingar da bab, porque ela me disse, e eu
acreditei que na hora do acidente ela estava na
cozinha fazendo outra coisa e eu a pagava para
cuidar do Gabriel. No vou acus-la, mas a Carlos
sim. O advogado ir fazer uma denncia,
certamente no dar em nada, no ir ser
condenado, mas lhe dar preocupaes, ter que
se defender gastar com advogados. No quero que
continuem morando naquela casa, que desfrutem
do conforto, dos mveis caros que Ndia escolheu
e que eu comprei s para agrad-la. Eles no
merecem a minha clemncia, judiaram at do
coitado do Bob, meu cachorro que eu sempre quis
bem e que est velho."
Fora contra a sua vontade que teve que ficar mais
uns dias, queria viajar, sair da cidade logo. No
saiu da fbrica, no atendeu telefonemas e
impediu a entrada de Ndia na fbrica.
Triplicou o ordenado de Drcio.
"Noel, no faa isto,  muito dinheiro!" - havia
exclamado amigo.
"J vi muitos reclamarem por ganhar pouco, mas 
o primeiro que encontro que o faz por ganhar
muito.  justo e  o que quero!"
Chamou a secretria e deu a ordem:
"Dona Alzira, quero que compre alguns materiais
esportivos, como bolas, raquetes, camisetas e
coloque na nossa lojinha para vender a preo de
custo. Quero que compre esta quantia por ms,
durante cinco meses."
"Onde compro?" - perguntou a secretria.
"Em fbricas, de representantes, pesquise. Dona
Alzira, e faa boa compra!"
"Noel, voc vai levar Carlos  falncia" - havia dito
Drcio.
"Ele merece isto e muito mais, Ndia gasta muito
dinheiro e ela sentir em viver com menos.
Depois, meu amigo, eu gastava tanto com ela, e
isto que estou fazendo  metade do que Ndia
pagava em roupas e cabeleireiro."
Reuniu os empregados e fez um discurso de
despedida e uma vingancinha a mais ao se fazer
de vtima.
"Meus amigos, funcionrios, alguns aqui me viram
nascer, crescer, somos uma famlia. Vou viajar,
ficarei um bom tempo fora. Deixo, para cuidar de
tudo, Drcio e vocs. E, para isto, por aumentar
suas responsabilidades, tero aumento de salrio."
Ele havia feito uma pausa, todos se alegraram, o
aumento era timo, e depois continuou: "Vocs,
meus companheiros, sabem o que aconteceu
comigo. No pensem que no me envergonho de
falar, sim, envergonho-me, mas com amigos o
desejo de desabafar  maior. Fui trado, meu filho,
morto. Acidente ou assassinato? Sofri muito, estou
sofrendo demais! Mas Deus ir me fazer justia,
porque tenho amigos para me defender."
E continuou o discurso falando a eles que Ndia
casou por interesse, que a bab que ele pagava
para cuidar do filho, a mando da ex-esposa, fazia
no momento do acidente, outro trabalho. Que eles,
a ex-mulher e o amante, queriam tudo que era
dele, que herdou do pai, e que ficou sabendo que
se isto acontecesse que a primeira coisa que
fariam era despedir todos os empregados. E falou
por tempo comovendo todos, porque, como bom
patro, era amado e respeitado. Foram muitos os
empregados que choraram.
Ao voltar para o escritrio, Drcio havia indagado:
"Voc acha que Carlos matou seu filho?"
"No. Gabriel era para eles a galinha dos ovos de
ouro, pelo meu filho, os dois iam me tirar muito
dinheiro. Morariam naquela manso s minhas
custas e, para no ter muitas brigas, ia ceder em
muitas coisas. Ndia ficaria bem com a separao,
o que agora no ir acontecer. Vou viajar e comigo
ausente no haver separao e ela no poder
casar com Carlos. No tendo filhos, Ndia no ter
penso. Daqui a pouco, o advogado vir e eu
assinarei meu testamento. Infelizmente sou
casado com ela, que continuar por enquanto
sendo minha esposa, depois, quando voltar,
decidirei o que fazer."
"Noel, eles j receberam a intimao e tero que
desocupar a casa por falta de pagamento. Carlos
at consultou um advogado. Fiz bem feito, ou
pagam tudo de uma vez ou tero que mudar e,
sem os mveis, s podero levar as roupas
ntimas. Ontem Luciana e eu fomos  missa de
stimo dia de Gabriel, a igreja estava lotada, foi
uma pena voc no ter ido. Ndia e Carlos
estavam l e foram tratados com desprezo, os
habitantes da cidade acham os dois culpados e
fofocam, esto sentindo a maledicncia. E, depois
do que voc disse aos empregados, no duvido
que seja tratados como criminosos. Pode se sentir
vingado!"
"Pois no me sinto! Ndia destruiu minha vida e eu
vou acabar com eles. Uma boa vingana requer
planejamento, meu dio me sustentar e eu vou
saber me vingar. Ainda no fiz nada".
"No deixe a mgoa lhe destruir, meu amigo. Voc
 jovem, bonito, inteligente, pode construir outra
famlia, ter outros filhos e saber com certeza
escolher melhor a prxima esposa".
"Posso at fazer isto um dia, agora no."
"Mandou fazer um testamento. Por qu? - indagou
Drcio."
"Se eu morresse, Ndia herdaria tudo por ser
minha esposa e por no ter parentes prximos.
Separando-me dela, terei que lhe dar muito
dinheiro. No quero nem uma coisa e nem a outra.
Planejamos o advogado e eu, e fizemos um
testamento bem feito. No quero morrer, mas, se
isto vier acontecer, ela ter uma surpresa. E, se eu
vier a casar novamente, anulo este e fao outro."
"Tenta ficar bem. Noel, no quero que sofra!"
"Obrigado, Drcio, mas  impossvel no sofrer,
amava Gabriel, ele era tudo para mim. Ndia e
Carlos me destruram!" - exclamara com raiva.
O advogado fez o testamento muito bem feito, a
fbrica de tecidos, bem como o terreno em sua
volta, com a sua morte, seria uma fundao e os
empregados, os donos, com a presidncia de
Drcio. Para Ndia ficaria a casa em que moravam
e dois apartamentos.
Com tudo em ordem, havia marcado sua partida
para o dia seguinte. Foi despedir-se de Bob.
Luciana o recebeu com carinho. Seu cachorro
estava limpo e Noel o achou feliz.
"Levei-o no veterinrio, ele est bem" - falou
Luciana.
"Obrigado, L!"
"Cuidaremos bem dele, fique descansado."
"Ficarei, sei que Bob ser muito bem cuidado.
Obrigado e seja muito feliz com Drcio. Vocs so
timos e se merecem." Abraou-os e despediu-se.
Um empregado o levou de carro at a capital, ele
alugou um avio que o levou prximo  ilha e foi
de barco at ela. Havia comprado tudo que
precisava para ficar l e fez  cabana. Os
habitantes da regio estranharam sua presena,
mas como eram hospitaleiros, conversaram com
ele e com o tempo tornaram-se amigos.
E de Drcio recebia as notcias da fbrica, de
amigos e de Ndia. Carlos e ela tiveram que
mudar deixando tudo. A ex-esposa ficou furiosa ao
saber que os mveis e eletrodomsticos foram
vendidos a preo barato. A casa foi alugada e eles
foram morar num apartamento pequeno. Carlos
no ajudava a famlia dela, e estes ficaram contra
eles. E que Ndia no saa mais de casa por ser
desprezada at pelas colegas que se tornaram ex-
amigas. Carlos quase faliu, porque os clientes
sumiram de sua loja. Com o tempo, foi voltando ao
normal, Ndia teve dois filhos, dois meninos.
Drcio e Luciana tiveram um casal de filhos e Bob
morreu de velhice. E a fbrica estava bem, dando
bom lucro. Drcio se alegrou com a notcia de sua
volta, era vereador e queria ser candidato a
prefeito.
"Drcio prefeito!", pensou rindo.
Noel olhou para os lados, ningum prestou
ateno, os passageiros estavam sonolentos. A
viagem estava cansativa e ele consultou o relgio
vrias vezes.
"Ficarei escravo do horrio de novo.  o preo que
pago com a volta."
Chegou ao seu destino s vinte e trs horas e foi
para um hotel, o que achou de melhor ali perto da
Rodoviria. Estava muito cansado e queria dormir,
tomou um demorado banho e achou delicioso
esticar as pernas. Dormiu logo e acordou s dez
horas no outro dia. Aps o desjejum, foi 
Rodoviria, no teve que esperar muito: s treze
horas estava no nibus rumo  sua cidade natal.
Sentia-se ansioso, mudara anos na ilha o
modificaram para melhor. No comeo pensou em
se vingar. Planejou muitas vinganas, pensou em
seqestrar um filho deles e sumir com o garoto,
foram muitas as maldades em que pensou com
detalhes, planejou. Mas o dio foi passando e as
idias de vingana tambm. Foi muito bom ler os
livros espritas, a Doutrina de Allan Kardec o fez
compreender os ensinamentos de Jesus. E sentir a
presena de Gabriel, seu filho, contribuiu para sua
mudana. Voltava diferente, Ndia e Carlos no
precisariam temer, ele no os prejudicaria.
Sentiu a mozinha do filho sobre a sua.
"Filhinho meu, amo voc!" - pensou e prestou
ateno para no falar.
" isto que voc quer, no ? Que no tenha mais
inimigos. No quero mais me vingar Perdoei!"
A sensao da mozinha sobre a sua sumiu, no
sentiu mais o filho, mas tinha a certeza de que
Gabriel o acompanhava. Olhou pela janela,
conhecia toda a regio, viajara muito e usava
sempre aquela estrada. Ia desde garoto  capital
com os pais ou com a me, depois de mocinho ia
at sozinho com o motorista da fbrica, quando
tirou a habilitao o fazia s ou com amigos.
Conhecia cada metro da rodovia e estava tudo
igual. Avistou um stio, aquelas terras foram de
seu pai, quando ele era criana. Aprendera a
cavalgar quando ainda era menino e cavalgava
por toda a redondeza. Viu saudoso, a casa em que
junto de seus pais passava os finais de semana.
Sentiu muitas saudades de seus genitores.
"Onde estaro eles? Estaro bem?" - indagou a si
mesmo em pensamento.
Lembrou que um dia, ao sentir Gabriel, perguntou
a ele sobre seus pais e o filho respondeu:
"Esto juntos e aprendendo a viver sem o corpo
fsico."
Noel suspirou: "Queria que mame estivesse
comigo, que passasse as mos sobre meus
cabelos, me beijasse e dissesse: "Isto passa, filho,
tudo passa!"
E ele sabia que passava. Os momentos difceis nos
do a impresso de demorar mais, os felizes, de
voar. S no passa a tranqilidade do bem
realizado.
Viajar de nibus lhe dava uma sensao diferente,
podia olhar para os lados, observar tudo e
recordar. O nibus dava voltas. Chegaram 
cidade, o corao de Noel disparou, olhava tudo.
-- Tudo muda a cidade tambm! - exclamou.
Um senhor que estava ao seu lado falou:
-- Voc tem razo. Esta cidade cresceu muito e
est bem bonita. Faz tempo que no vem aqui?
-- Uns cinco anos - respondeu.
-- Vai encontrar muitas coisas diferentes! -
expressou o senhor.
O veculo parou. Noel desceu, seu corao
continuava disparado. Nunca tinha estado na
Rodoviria de sua cidade, achou-a limpa e
movimentada. Estava emocionado, teve que
respirar compassado e esforou para se
tranqilizar. Ficou parado por minutos ali perto do
nibus, sentindo-se mais calmo, observou tudo.
Viu um antigo colega de escola, que passou por
ele apressado, no o reconheceu, no lhe prestou
ateno. Lembrou que teve uma briga com ele,
agrediram-se, isto porque o chamara de Papai
Noel.
"At hoje no entendo o porqu de meus pais
terem me dado este nome. Falavam que foi
porque mame no ficava grvida e, numa
brincadeira, dissera que ia pedir para o Papai Noel
um filho de presente e, por coincidncia, ficara
grvida e como o meu pai havia dito que gostava
do nome Noel, quando nasci, colocaram o nome do
lendrio velhinho que s traz alegrias. Vou parar
de pensar, chega de recordar. Se ficar aqui parado
vou chamar ateno. Vou telefonar para o Drcio
vir me buscar. Se pegar um txi dificilmente entro
na fbrica, se for empregado novo no me
conhece e, se for antigo, estranhar e poder
duvidar que seja o dono. Telefonar? Vou comprar
ficha."
Mas foi primeiro ao banheiro. Estava to ansioso
que tremia. Logo em seguida, telefonou ao amigo.
-- Drcio, estou aqui na Rodoviria. D para me
buscar?
-- Estarei a em minutos, me espera.
Ficou na calada, esperou por dez minutos, que
lhe pareceram horas.
"No posso esquecer que vou estranhar, terei que
adaptar-me novamente. Vou amar tudo. Vou ficar
alegre por estar em casa. No devo ficar ansioso,
mas estou, quero rever a fbrica."
Avistou Drcio, este desceu de um carro
importado, estava muito elegante, bem vestido.
"Est como sempre, eu que estou vestido com
simplicidade."
-- Noel! Noel! - gritou Drcio correndo ao seu
encontro.
-- Drcio! Abraaram-se.
-- Seja bem-vindo, amigo!

                 O Regresso

Gostou do carro de Drcio, entrou, observou e
comentou:
-- Lindo seu carro!  novo?
-- No conhece este modelo? Acho meu amigo,
que vai precisar se informar sobre os ltimos
acontecimentos e novidades. Naquela ilha no tem
nada disto - respondeu Drcio rindo.
-- No esquea que combinamos nada de falar
onde estive. O perodo que fiquei afastado foi
muito importante para mim. Leva-me para a
fbrica.
-- Noel, voc tem certeza de que no quer ficar
hospedado em casa? Luciana e eu teremos muito
prazer em receb-lo. Voc no conhece meus dois
filhos, o garoto  esperto como eu, e a menina 
linda como a me.
-- Irei logo conhec-los, visitar vocs. Drcio, voc
 feliz com a L? - perguntou Noel.
-- Sou amo minha esposa, combinamos muito e
vivemos bem - respondeu Drcio.
-- Estou ansioso para rever a fbrica e quero
mesmo ficar no meu antigo apartamento.
Chegaram. Noel se emocionou.
-- Quero amar sem apego! - exclamou.
-- Como ? - indagou Drcio.
-- Gostar de tudo sem ser possudo, amar sem
ficar preso ao que se ama - respondeu Noel.
Drcio riu, no entendeu e pensou:
"Tomara que Noel no esteja desequilibrado ou
fantico."
O vigia veio abrir o porto, reconhecendo o carro
de Drcio, olhou examinando o acompanhante.
-- Boa noite, Joo! Este  seu patro, o senhor
Noel - falou Drcio.
O vigia nem conseguiu responder o cumprimento,
abriu rapidamente o porto. Entraram no ptio.
-- No falei para ningum que voc ia chegar s a
L sabe. Ser uma boa surpresa! - exclamou
Drcio rindo.
Noel desceu, andou pelo ptio observando tudo.
-- Tive que fazer algumas modificaes, o
progresso exigiu, ampliamos, temos mquinas
novas, modernas. Mas seu apartamento est como
deixou.
Abriu  porta do apartamento, o primeiro objeto
que Noel viu foi um porta-retrato grande com a
foto do filho. Olhou demoradamente a fotografia.
-- Boa-noite, Drcio. Obrigado por tudo.
-- Quer que v embora? Pensei que fssemos
conversar - disse Drcio.
-- Amanh conversaremos. Se no importa, quero
ficar sozinho.
-- Boa-noite! Se precisar de alguma coisa, me
telefone. Amanh cedo estarei aqui - falou Drcio
e saiu.
Quando escutou o barulho do carro se afastando,
Noel examinou o quarto. Suas roupas estavam no
armrio limpas e passadas. Abriu uma gaveta e l
estava seu relgio carssimo, folhado a ouro e uma
chave, pegou-a e abriu uma gaveta, ali estavam
vrios documentos.
"Parece tudo em ordem. Como se tivesse ido viajar
ontem!" - observou.
Abriu a sacola que trouxera, pegou seus livros e os
colocou na cmoda perto da foto do filho. Sentou
na cama e fez uma orao agradecendo a boa
viagem e pedindo a Deus que permitisse que bons
espritos o orientassem.
No estava com sono, saiu para andar pela
fbrica, o guarda aproximou:
-- Quer que eu o acompanhe senhor Noel? O
senhor no me conhece, no trabalhava aqui
quando foi embora. Sou filho do Manuel, meu pai
ainda trabalha aqui, faz vinte e cinco anos. Lembra
dele? Ele no tem o dedo polegar da mo direita
e...
-- Claro que me lembro e alegro-me que ele ainda
esteja aqui conosco. Obrigado, Joo, no preciso
de nada, s quero ver a fbrica, vou acender
algumas Luzes e depois apagarei. Volte para seu
posto, prefiro andar por a sozinho.
Joo sorriu e voltou para perto do porto. Noel foi
andando devagar. De cada Lugar da fbrica tinha
uma lembrana.
"Olhe, meu filho, esta mquina  um fenmeno!"
Pareceu que escutava seu pai lhe falando com
carinho.
"No quero recordar, s olhar, tenho lembrado
muito. O passado passou, quero viver o presente e
fazer planos para o futuro."
Percorreu a fbrica toda, s no foi ao escritrio.
Foi deitar tarde e demorou a dormir. Acordou com
o barulho dos primeiros empregados chegando,
trocou rpido a roupa, colocando uma das suas
antigas que estava no armrio e foi para o
escritrio.
-- Drcio, manda algum me trazer um caf.
Depois rene todos os empregados no ptio.
E logo depois estava Noel na frente dos
empregados.
-- Noel, aumentou bastante o quadro dos nossos
funcionrios - falou Drcio.
-- A fbrica progrediu com sua administrao! 
exclamou Noel.
Noel se lembrou do seu discurso de despedida,
quando falara com rancor e dio, resolveu ser
breve neste.
-- Companheiros de trabalho!  um grato prazer
rever muitos de vocs e conhecer os novos
funcionrios. Fiquei muito tempo ausente e volto
encontrando tudo bem. Quero agradece-lhes.
Muito obrigado!
-- Vai falar s isto? - indagou Drcio. -- Que
discurso rpido!
Noel foi abraar os empregados antigos, conhecia
alguns desde menino. Depois foi ao escritrio.
Drcio veio junto e perguntou:
-- Por onde quer comear, Noel? Que quer ver
primeiro?
-- A contabilidade - respondeu ele.
Passou o dia vendo papis, almoou na cantina da
fbrica. A noitinha estava cansado.
-- Vamos parar Drcio, desacostumei-me deste
trabalho, fecho os olhos e vejo papis e mais
papis. Voc, meu amigo, cuidou muito bem de
tudo. Obrigado!
-- Pelo salrio que recebo tinha mais que fazer
bem feito. Eu que agradeo pela confiana Noel.
Por quatro dias Noel ficou na fbrica sem sair de
l, verificou tudo. No comeo teve um pouquinho
de medo de encontrar alguma irregularidade.
Depois, alegrou-se, pois Drcio era realmente
muito honesto, fiel e competente.
Tomou suas refeies na cantina, pediu que
fizessem bastante salada de verduras e legumes
frescos, e trs vezes por semana peixes. Nesses
anos no comera carne a no ser peixes e decidira
no se alimentar mais de carnes. Pediu 
secretria para pegar na Biblioteca Municipal livros
sobre animais, que tivessem pesquisas sobre
tartarugas. Achou logo o que queria. Man tinha
razo, Tortugo era macho. Sentiu saudades do
casal de tartaruga, das aves, da ilha. Ia dormir
cedo, s vinte horas j estava na cama e
levantava-se de madrugada, s cinco horas j
tinha tomado banho, se barbeado e ia para a
cozinha fazer o seu caf. Sabia que ia demorar um
pouco para acordar mais tarde e no ter sono to
cedo.
"Terei que mudar meus hbitos!"
Continuou fazendo suas oraes ao levantar e 
noite, quando lia textos do Evangelho.
No quinto dia, domingo, foi visitar Drcio e
almoar com eles. Moravam numa casa bonita,
Luciana o abraou emocionada.
-- Quis ir  fbrica lhe dar as boas-vindas, mas
preferi no incomodar.  muito bom rev-lo!
Luciana estava muito bonita e o casal de filhos
deles era lindo e educado. Foi muito gostoso para
Noel passar o dia com os amigos.
-- Ento, Drcio, voc quer entrar para a poltica? -
perguntou Noel.
-- J entrei amigo, sou vereador e candidato a
prefeito - respondeu Drcio.
-- Noel, eu admiro o idealismo de Drcio e tenho
apoiado. Para ser poltico tem que gostar.
Preferiria que meu esposo no se envolvesse na
poltica, que no fosse candidato - falou Luciana.
-- L est chateada porque tem tido muitos
falatrios - expressou Drcio.
-- Calunias isto sim! - exclamou Luciana. -- Esto
falando que Drcio o roubou, desviou dinheiro da
fbrica e que tudo ia ser descoberto quando voc
chegasse.
-- J tive que mostrar meu holerite, public-lo at
no jornal. A falaram que ganho bem demais, que
fui eu quem determinei meu salrio. Isto  triste!
Desejo fazer muitas coisas boas para esta cidade -
falou Drcio, empolgando-se.
-- Somos econmicos, com o ordenado de Drcio
compramos esta casa e uma chcara. Tambm
tenho meu salrio, embora pequeno, d para
minhas despesas particulares. Leciono no perodo
da tarde - comentou Luciana.
-- No se preocupem com estes falatrios. Eu
desmentirei - tranqilizou-os Noel.
-- Far isto? - indagou Drcio.
-- Vamos marcar uma entrevista e, se possvel,
para amanh. Falarei com o pessoal do jornal,
rdio e tambm irei aos seus comcios -
comprometeu-se Noel.
-- Viva! J ganhei! Obrigado, Noel! - exclamou
Drcio, abraando-o.
-- Obrigado a voc, Drcio. Amigo  um tesouro
precioso e eu o tenho.  com orgulho que digo que
chamo voc de amigo!
E deu a entrevista elogiando Drcio, falou de sua
competncia, honestidade e ainda lhe agradeceu.
Os reprteres queriam saber onde ele esteve o
que fez no perodo em que esteve ausente. Noel
respondia sem dar detalhes.
-- Em muitos lugares.
-- Que lugar mais gostou? - quis saber uma moa.
-- De uma ilha.
-- A Grcia.
Noel sorriu.
-- Muitas mulheres? Alguma especial? - perguntou
um rapaz.
-- Sim, uma muito especial. Quero dizer aos meus
amigos que foi muito proveitosa esta viagem,
aprendi muito, amadureci, encontrei a paz e sou
feliz.
Eles queriam saber mais da viagem. Noel voltava
ao assunto: Drcio. E tudo deu certo. Foi um
sucesso e com resultado positivo para a campanha
do amigo.
Na tera-feira saiu para passear na cidade.
Abraou amigos e conhecidos. Muitas coisas
modificaram. Ali fizeram uma praa, asfaltaram
ruas, etc. Andou a p pelo centro. Viu de longe a
loja esportiva de Carlos.
Quando voltou  fbrica, indagou Drcio:
-- Voc vai me abandonar? Deixar o emprego?
-- Voc no precisa de mim aqui, Noel. Vou me
licenciar para trabalhar na campanha. No ir se
importar, no ? Se no ganhar, volto; se for
eleito, quero me dedicar  prefeitura e for o
melhor prefeito que esta cidade j teve.
-- Drcio, como esto Ndia e Carlos?
-- Vivem juntos, ele ainda tem a loja de roupas
esportivas, Ndia trabalha com ele. Tm dois
filhos, Samuel e Vinicius. Samuel  muito parecido
com Gabriel.
-- Samuel era um dos nomes que tnhamos
escolhido quando Ndia estava grvida. Optamos
por Gabriel e resolvemos deixar Samuel para o
prximo. Eles so felizes?
-- No sei. Carlos teve muitas dificuldades
financeiras depois da tragdia. Quase toda a
cidade ficou contra eles. Ndia at foi agredida na
rua. Voc ainda pensa em se vingar dele?
-- No. Quero viver em paz. Sofri, passou, esqueci
e no guardo mgoas.
-- Ainda bem. Vingana  uma faca sem cabo,
pode ferir o outro, mas corta quem a segura.
Ningum  feliz quando guarda mgoa - falou
Drcio.
-- Vou pegar meu carro e passear por a. Ele est
em ordem? - indagou Noel.
-- Antes de voc voltar, mandei-o para uma
reviso, est em ordem e com o tanque cheio -
respondeu Drcio.
Fazia tempo que Noel no dirigia; entrou no carro
e ficou minutos olhando-o, tinha histria aquele
veculo. Todos, tudo o tem. Lembrou de quando o
comprou, os comentrios, passeios, mas no
queria recordar. Dirigiu sem dificuldades e foi ao
cemitrio. Gabriel fora enterrado com os avs,
num tmulo bonito de mrmore. Encontrou-o
limpo e com flores. Noel se emocionou:
-- Restos mortais!  s isto que tem aqui!
Falou alto, verificou rpido olhando para os lados,
no viu ningum, no queria que o escutassem
falar sozinho.
Orou por minutos e voltou para o carro. Foi a
muitos Lugares, reviu a cidade toda e voltou 
fbrica.
-- Obrigado, Drcio, por ter cuidado do tmulo de
meus familiares, encontrei-o limpo e com flores.
-- No fui eu, Noel. Sinceramente, no me lembrei
de fazer isto.
-- Ento, quem cuida dele? - perguntou Noel
curioso.
-- Ndia - respondeu Drcio.
"Ndia!", pensou Noel. "Por que estranho? Gabriel
era tambm filho dela, como me deveria am-lo.
Nunca pensei que minha ex-esposa sofreu por ele,
que sentiu sua desencarnao. Sofri e s vi meu
sofrimento, ela deve ter sofrido tambm."
-- O remorso!
-- Que disse Drcio?
-- Noel, voc no escutou que falei? Estava
distrado? Falei que o senhor Ramon sentiu muito
no ter comprado naquela poca o terreno do
fundo da fbrica. Ele me disse que sente remorso -
disse Drcio.
"Remorso!", pensou Noel. "Alm de ter sofrido
como eu, Ndia deve ter tido remorso, e esta dor 
bem pior, dolorida. Tem o 'talvez', o 'se' para
atorment-la. Deve pensar: 'Se no tivesse pedido
 bab para fazer o almoo, ela teria olhado
Gabriel. Talvez se eu tivesse ficado com ele, meu
filho no teria ido  garagem sozinho. Se no
tivesse me envolvido com outro, etc. Ser que
Ndia sentiu tudo isto? Ser que sofreu com
remorso? No devo mais pensar nela."
-- Terreno? Que tem o terreno? - perguntou Noel.
-- Voc notou Noel, que a fbrica est num Lugar
privilegiado? A cidade cresceu por estes lados. O
terreno no fundo  grande. O outro candidato a
prefeito tem planos, se ganhar, de desapropri-lo e
fazer um loteamento. Ele est dizendo, agora, que
sou candidato a seu mando, para impedir que isto
acontea.
-- Acho que Luciana tem razo!  muito falatrio!
Que calunia! - exclamou Noel.
Mudaram de assunto, tinham muito que resolver
no escritrio. Drcio estava treinando um jovem
advogado para ser secretrio de Noel.
-- Marcos est conosco h doze anos. Comeou
como Office boy,  filho de um empregado antigo.
 inteligente, esforado, custeou seus estudos
trabalhando, formou-se no ano passado. Acredito
que seja de confiana.
-- Quero lhe dar uma misso, chame-o aqui para
conversar comigo - pediu Noel.
Quando ele chegou, Drcio ia se retirar. Noel
disse:
-- Fique, Drcio, embora seja confidencial, quero
que voc escute. Marcos quero que voc v a
certo lugar para mim.  uma vila, um lugarejo
distante, onde a maioria dos habitantes  de
pescadores. Voc far o seguinte...
Deu todas as ordens para Marcos e finalizou:
-- Deve partir na segunda-feira e exijo segredo.
Prepare-se para viajar. V de avio.
Marcos saiu e Drcio o indagou:
-- Por que isto? No  tarefa de o governo fazer
isto?
-- No quero falar mal dos polticos, no depois
que voc se tornou um - disse Noel sorrindo. -- Eu
tentei, escrevi para o governador, telefonei e
nada, ningum se interessou, ento, fao eu.
-- Centro Esprita envolvido nisto? Voc  esprita?
- perguntou Drcio.
-- Sou - respondeu Noel. -- Conheci a Doutrina
Esprita por uns livros e me encantei com seus
ensinamentos raciocinados, coerentes e justos.
Tenho amigos l naquela vila, quero lhes dar mais
conforto. Marcos ir l, comprar um terreno,
deixar tudo pago e o material entregue para que
eles mesmos faam um posto de sade. Pagar
at o salrio deles. Eu enviarei todo ms dinheiro
para que o Centro Esprita da cidade vizinha pague
um mdico para ir at l atend-los uma vez por
semana. E tambm dinheiro para que comprem os
remdios,     porque     no   basta    o    mdico
diagnosticar, precisam de remdios. Marcos
tambm ir comprar materiais escolares para a
pequena escola. Daqui a trs meses, ele voltar
para supervisionar; quero este posto de sade
pronto logo. Drcio, se eu morrer, quero que
continue enviando todo ms esta quantia para o
Centro Esprita para que eles paguem este
profissional.
-- Que  isto? Pensando em morrer? - indagou
Drcio.
-- No, estou pensando em viver. A vida continua
meu caro amigo. Vivemos em fases, ora l, ora
aqui. No se preocupe, no penso em
desencarnar, isto : ter meu corpo fsico morto. Foi
s um pedido.
Sentiu saudades dos amigos de l, eram pessoas
simples e desinteresseiras e pensou muito em
Maria Ins, de seu jeito meigo, tranqilo. "Ser que
a jovem professora iria gostar de viver aqui?"
Foi jantar num restaurante com Drcio e comeu
saladas, arroz e feijo.
-- Voc no vai mais comer carnes? - perguntou o
amigo.
-- No pretendo. Alimentar-se de verduras,
legumes e frutas faz muito bem  sade. Nestes
anos s me alimentei assim e estou sadio, at para
os dentes faz bem, fui hoje ao dentista e s tinha
duas pequenas cries - respondeu Noel.
Saiu do restaurante, deu uma volta de carro e de
repente, viu um Centro Esprita. Estava aberto e
umas pessoas estavam chegando. Noel parou,
desceu e pensou:
"Deve ter alguma atividade, vou entrar."
O local era simples, um salo. Noel entrou e
sentou-se no canto direito. Era dia de palestra e
passes. Uma senhora iniciou com uma linda orao
e o orador convidado falou sobre o perdo. Leu um
texto de O Evangelho Segundo o Espiritismo, o
captulo 12: "Amai os Vossos Inimigos", que Noel
conhecia muito bem e do qual gostava muito.
Prestou muita ateno ao que o palestrante falava.
Estava emocionado. Eis alguns trechos:
-- Aprendemos que devemos perdoar sempre e
tambm pedir perdo. Temos que viver como
cristos, e, como tal, no precisar pedir perdo por
no ofender ningum. Feliz aquele que j vivencia
este conceito: 'No tenho necessidade de pedir
perdo porque no ofendi, no maltratei nada fiz
de mal a um irmo. E que nenhum mal venha nos
ofender. Compreendendo, amando, perdoamos
sem mesmo nos pedir perdo. Podemos at ser
prejudicados, mas no derrotados pelo mal. Vocs
j notaram que quando nos sentimos ofendidos 
porque quase sempre recebemos golpe no nosso
orgulho? O orgulho to difcil de ser vencido. Ao
sermos ofendidos, pensamos: Isto  desaforo!
Devo reagir! No merecia isto! E, s vezes,
pensamos em nos vingar. E, quando conseguimos
perdoar, no devemos achar que somos vtimas.
Coitadinho de mim! Sou vtima!  que temos a
tendncia de ver s que o recebemos, o que nos
fizeram. E eu? O que eu fiz? Ser que no tenho
necessidade tambm de perdo? No ofendi?
Revidei o desaforo? Quando ainda no vencemos o
orgulho  que sentimos necessidade de que nos
peam perdo. Perdoar sim, pedir perdo tambm,
e viver sem necessitar dos dois  aquele que
compreendeu os ensinos do Mestre Jesus e que
caminha a passos largos para o progresso.
Quando terminou. Noel ficou para conversar com
algumas pessoas que conhecia, ficou sabendo dos
horrios de atendimento da casa. Despediu-se
deles com carinho e decidiu que iria freqentar as
reunies daquele grupo. Foi para seu apartamento
na fbrica e se ps a pensar na palestra.
Sempre se achou vtima. E o palestrante tinha
razo, seu orgulho o fizera sentir os desaforos. No
quis dar a separao para Ndia, queria-os longe
da casa que fora de seus pais, achou que era
desaforo eles serem felizes enquanto ele sofria. E
como teve pena dele mesmo. Era a vtima, e como
usou disto. Depois, achou-se importante porque
perdoou. Tinha que aprender a amar de modo
certo e verdadeiro como Jesus nos ensinou. E amar
 no precisar perdoar, no se fazer de vtima e
compreender o errado. E este amar  extensivo a
todos. Porque somos todos irmos, filhos de Deus,
nosso Pai Amoroso.
E comeou a ir a todas as reunies de estudo e
palestras.
Marcos chegou eufrico da viagem por ter feito o
que Noel pediu e por ter dado tudo certo.
-- Senhor Noel, o pessoal gostou demais e, quando
disse que era presente do Papai Noel, eles riram. A
professora at chorou. Perguntaram pelo senhor.
Ficaram contentes ao saber que est bem, eles lhe
querem muito. No seria mais fcil o senhor dar
uma quantia de dinheiro para cada um deles?
-- Marcos, ao ajudar algum  sbio faz-lo do
melhor modo possvel. Talvez acontecessem
algumas desavenas se eles recebessem dinheiro
sem ter estrutura para gastar. Poderiam brigar por
achar que um merecia mais do que outro e
ofender algum se me esquecesse dele. Despertar
a cobia em um deles ou de pessoas de fora e
haver roubos. Outro, achando que com o dinheiro
deveria sair dali, ir para a cidade grande, etc. E em
vez de lhes dar felicidade, daria dificuldades. Um
posto de sade e um mdico para atend-los 
para todos, a escola com mais materiais  para a
educao de todas as crianas e at dos adultos.
-- Tem razo, senhor Noel. Quem  acostumado a
ter pouco pode se embaraar com muito.
-- No seria muito para ns, mas para eles sim 
falou Noel.
Voltou a pensar em Maria Ins. Sentiu saudades
dela, dos amigos da vila. J estava mais
acostumado, devido s reunies do Centro Esprita
estava dormindo mais tarde e j no acordava to
cedo.
Foi no sbado a um encontro de polticos. O salo
estava lotado, muitas pessoas, mulheres, e Noel se
viu alvo da festa. Foi paquerado por muitas
solteiras e at por algumas casadas. Isto o
entristeceu.
"Isto porque sou rico! Consideram-me bom
partido!" - pensou aborrecido.
Logo que foi possvel, despediu-se e dirigiu-se para
a fbrica, ainda continuava morando l. Drcio o
aconselhou que se mudasse para uma casa, mas
preferiu ficar ali. Foi direto para seu apartamento.
Quando chegou, sentou-se na cama e pensou em
Maria Ins.
"Ela, sim, me ama e nem sabe que sou rico, se
souber o que eu tenho, achar que sou o homem
mais rico do mundo. Ser que voc, minha doce
Maria Ins, iria se acostumar nesta cidade? Seria
feliz?   No    saberia      se   vestir,   at   seus
conhecimentos       de     professora    aqui   seriam
considerados pequenos, quase semi-analfabeta.
No, no acho que seria feliz. Estaria longe dos
familiares, do rio que ama, da escola a que tanto
se dedica. Faria amigos? No saberia conversar,
seria alvo de piadas e sentiria. E talvez s eu no
lhe bastasse. S eu? No seria amada e sentiria
falta de amor. Com meu trabalho no teria tempo
de me dedicar muito a ela. Mas poderamos ter
filhos, que seriam morenos como ela. Quero ter
outros filhos."
"Papai!"
"Gabriel! Que bom senti-lo, ouvi-lo!"
"Posso dar minha opinio?" - falou Gabriel.
"Claro que sim!" - exclamou Noel.
"Deixe Maria Ins na vila. Ela  feliz. Ama voc,
sim, mas esquecer. Por que isto agora? Quando
estava l, nunca ligou para ela, no deu motivos
para que alimentasse este afeto."
"Acho que quero ser amado!" - expressou Noel
suspirando.
"H tantas formas de amar! Se quer casar
novamente, porque no espera mais um pouco?
Deixe acontecer. Voc no amando Maria Ins,
no poder faz-la feliz."
"Acho que no vou confiar em mais ningum."
"S porque foi cobiado na festa? Papai, voc 
muito bonito, inteligente e agradvel" - falou
Gabriel sorrindo.
"Rico!"
"Acho que no  numa festa como desta noite que
achar uma pessoa afim. No tenha pressa. Boa
noite!" Sentiu o beijo no rosto.
-- Sou mdium - falou Noel -- e devo trabalhar
para o bem com a mediunidade. Recebo tanto
podendo sentir meu filho, j  tempo de fazer
algum bem a outros com esta faculdade. E, para
fazer bem feito, com segurana, devo aprender. E
vou ter estes conhecimentos!
Noel sorriu ao escutar sua prpria voz. Tinha
parado de falar sozinho, mas s vezes ainda o
fazia. Resolveu no procurar Maria Ins, ela era
uma flor, delicada, jia preciosa que ali seria vista
como uma simples folhagem, uma bijuteria. Quem
no sabe ver pela alma, deixa de sentir, desfrutar
de muitas coisas, do carinho de pessoas autnticas
e bondosas. E a meiga professorinha deveria,
merecia ser amada. E, estava decidido, nem ela e
nem outra por enquanto.
Noel dormiu tranqilo. Mas logo acordou com o
guarda chamando-o.
-- Senhor Noel, telefone.
Assustou-se, pulou da cama. No tinha telefone no
seu apartamento.
-- Quem ? - perguntou Noel.
-- No quis dizer, s falou que  urgente -
respondeu o guarda.
Foi ao escritrio, atendeu, era uma mulher.
-- Sou Natalia, conversei com voc na festa.
Queria estar com voc mais um pouco, desfrutar
de sua presena. Est sozinho? No quer
companhia?
-- Voc me acordou! Desculpa-me, mas no quero
companhia. Boa-noite!
Desligou. O guarda estava ao seu lado, deu um
sorriso.
-- Joo - disse Noel --, no deixe nenhuma mulher
entrar aqui e no me chame mais se for voz
feminina ao telefone. Para me acordar, s se for
urgente ou o Drcio. Entendeu? Transmita esta
ordem para os outros guardas. No sei quem 
esta Natlia. Que coisa! Boa noite!
Resmungou e voltou a dormir
Comearam os telefonemas de mulheres atrs de
Noel e ele deu ordem  secretria: que s
passasse as ligaes se fossem de negcios e
identificadas. No queria, por enquanto, envolver-
se com ningum e, quando o fizesse, seria mais
cuidadoso. Nada de pessoas interesseiras.
                 Na Represa

Drcio afastou-se do trabalho e passou a dedicar-
se s  sua campanha. E os seus adversrios
usaram o terreno da fbrica para difam-lo. Noel
sentiu pelo amigo e chamou-o para conversar.
-- Drcio, estou aborrecido com esta calunia.
-- Confesso que eu tambm, gostaria de ter
adversrios honestos - disse Drcio triste.
-- Chamei-o aqui, porque vou fazer o que seus
adversrios querem. Vou doar este terreno! -
exclamou Noel.
-- O qu? Voc ficou louco? - perguntou Drcio
assustado.
-- Vou fazer o seguinte: deixarei uma boa rea em
volta da fbrica para o caso de aument-la no
futuro. Nos fundos  direita, voc, como prefeito,
abrir ruas, far esgotos, etc.; e os lotes sero
vendidos a preos irrisrios para os empregados
da fbrica, certamente que eles pagaro pelas
benfeitorias que a prefeitura fizer. A parte
esquerda voc far a mesma coisa com convnio
com algum banco e a populao comprar. Ser
um     excelente   bairro.   S    que    voc  se
comprometer em construir uma creche grande,
uma escola de um quarteiro com quadras de
esportes. E um terreno ser para o meu grupo
esprita.
-- Muito bem! S que teremos problemas. Noel.
-- Quais? - perguntou o dono da fbrica.
-- O que voc, meu amigo, ganhar com isto? -
indagou Drcio.
-- Ficarei com alguns terrenos sem pagar as
benfeitorias - respondeu Noel.
--  justo! Como isto ser feito?
-- Faremos um acordo. Se voc ganhar, o contrato
ter valor, assinaremos com testemunhas, firma
reconhecida, etc.
-- O problema maior: voc, meu caro Noel, 
casado. Esqueceu disto? No pode fazer isto sem a
assinatura de Ndia - falou Drcio.
-- Faa o contrato, Drcio, e me avise quando
estiver pronto.
-- Se  para ser urgente, ser. Amanh estar
pronto.
De fato, no outro dia, logo pela manh, Drcio veio
lhe mostrar.
-- Drcio, quero que esta quadra seja de Ndia.
Pergunte ao cartrio se podem me ceder por
minutos uma sala deles. Marque um horrio 
tarde. Vou marcar um encontro com Ndia l.
Espero que ela assine.
-- Noel, ainda tem tempo para pensar. No tem d
de se desfazer desta rea? Devo ganhar as
eleies, mas, se no fizer, no tem importncia.
-- Drcio, voc j notou que a fbrica est bem
centralizada? Claro que j! Este terreno em volta
est impedindo a cidade de crescer deste lado. E
estamos pagando muito imposto por isto. Vou
ganhar mais tendo estes lotes do que vendendo o
terreno todo. Fazendo isto, ser bom para os
empregados e para a populao.
-- Obrigado, Noel! - exclamou Drcio comovido.
Com o horrio marcado no cartrio. Noel telefonou
para Ndia. Quando se identificou, notou que a voz
dela tremeu.
-- Ndia - disse Noel educadamente -- , quero,
preciso conversar com voc num lugar neutro. Por
favor, esteja s 15 horas no cartrio.
-- Irei - respondeu Ndia.
Antes das 15 horas. Noel estava l e como Ndia
atrasou, achou que ela no iria. Fazia quatro
meses e meio que regressara e ainda no a tinha
visto.      Ndia   veio,    estendeu    a     mo
cumprimentando-o e desculpou-se pelo atraso.
Noel a conduziu para a sala e ficaram a ss. Olhou-
a, por momentos nem um dos dois falou. Noel
achou-a linda. Estava como antes, pareceu-lhe que
os anos no passaram para ela, com os cabelos
bem penteados, vestia-se com simplicidade e
estava muito elegante. Ndia o olhou:
-- Quer falar comigo. Noel?
A mesma voz. Noel sentiu que o afeto que nutria
por ela no acabara como pensara. Talvez no a
amasse com a paixo de antes, mas poderia am-
la novamente. Olhou-a nos olhos, estavam
diferentes, no eram mais zombeteiros, achou-os
tristes.
-- Ndia, voltei querendo paz. Voc naquela poca
queria a separao, eu no quis, acho que
devemos oficializ-la agora, sem brigas ou
rancores.
-- Voc no me odeia mais? - perguntou Ndia.
-- No! Mgoas ficaram no passado - Noel
respondeu e resolveu ir direto ao assunto. --
Ndia, quero lotear o terreno dos fundos da fbrica
e para isto preciso de sua assinatura.
-- Assino sim. Noel, no quero nada do que  seu!
-- Obrigado, Ndia. Vou contratar um bom
advogado da capital para fazer bem rpido nossa
separao e, a, voc poder se casar com Carlos.
-- Noel, voc me amou de verdade?
-- Creio que sim - respondeu Noel em voz baixa. --
Foi uma pena no ter conseguido fazer com que
voc me amasse.
-- Como assim?
-- Voc amou Carlos.
-- Acho que me iludi, pensei na poca que amava
Carlos. Sempre amei voc, Noel. Ainda o amo! -
exclamou Ndia ofegante, suas faces ficaram
vermelhas.
Silncio. Noel pensou: "Se quisesse me vingar,
esta seria uma grande oportunidade. Nem nos
meus planos de vingana, tempos atrs, imaginei
isto. Ndia estar sendo sincera? Ou arrependeu-
se por ter perdido financeiramente? Carlos no 
pobre, mas, comparando-o comigo, sai em
desvantagem. Sou o homem mais rico da regio.
Se quisesse me vingar, seria s aceitar seu
suposto amor, faz-la trair Carlos, que receberia
de volta o que fez a mim. Faria Ndia abandon-lo
e, depois que todos soubessem, era s deix-la. E
ela no ficaria nem comigo e nem com Carlos. Mas
poderia am-la de novo. E a vingana, como disse
Drcio,  uma faca sem cabo. No quero vingar!
No estou nem tentado!"
-- Ndia, quero a separao! Amei voc, no a
amo mais. Acho que voc est iludida agora.
Cuidado para no achar que ama o que no tem.
Cautela! Carlos  seu marido e vocs tm dois
filhos. Talvez, por terem enfrentado tantas
dificuldades, o relacionamento de vocs esteja
abalado. Porm,  a Carlos que ama, pelo menos
deveria amar. E seja boa me, voc tem filhos que
merecem ter o pai junto deles.
Ndia ficou branca, falou baixinho:
-- Onde assino?
-- Vou chamar as testemunhas.
Noel chamou duas pessoas que estavam no
cartrio, pediu para testemunhar e Ndia assinou
o documento. Despediu-se friamente e foi embora.
-- Pronto, Drcio, divulgue e lembre-se, isto s
acontecer se voc for o prefeito!
A noite s comentavam isto pela cidade.
Chegaram at a perguntar a Noel, dois
empregados foram at sua sala e ele afirmou:
--  verdade! Vocs esto contentes? Todos os
funcionrios ganharo terrenos. A escolha ser por
sorteio. Tiraremos de uma caixa o nome dos
funcionrios e estes escolhero os lotes. Mas isto,
s se Drcio ganhar.
-- Vou ser cabo eleitoral dele! Ah, se vou! - falou
um deles entusiasmado.
No outro dia cedo, a secretria veio anunciar:
-- Senhor Noel, o senhor Carlos est aqui e quer
lhe falar.
-- Que Carlos?
-- O da dona Ndia.
"Que ser que ele quer? Vou receb-lo", pensou
Noel.
-- Mande entrar.
-- Quer que chame a segurana? - indagou a
secretria.
-- Claro que no!
Noel fechou a porta, Carlos entrou, respondeu o
cumprimento de cabea do dono da fbrica e
hesitou em sentar.
-- Quer falar comigo? - perguntou Noel.
-- Quero saber o que falou com Ndia, ela chorou
muito ontem - respondeu Carlos.
-- Ela no lhe contou?
-- S disse que assinou um documento para voc
lotear a rea dos fundos da fbrica e que lhe dar
a separao. O que voc quer de fato. Noel? J no
se vingou o suficiente? Voltou para nos prejudicar?
- perguntou Carlos olhando para Noel.
"Vingar o suficiente?" - Noel sentiu o impacto
destas palavras. Nunca pensara que Carlos e
Ndia se sentissem vtimas, alvo de vingana.
Respondeu tranqilamente.
-- No, Carlos, voltei para continuar minha vida no
ponto que larguei, para cuidar de tudo que me
pertence. No quero me vingar!
-- Voc j o fez bastante! No tivemos culpa de
Ndia e eu ter nos apaixonado, no temos culpa
de nada! Talvez tenhamos abusado querendo
parte de sua fortuna, da qual imaturamente
achvamos que tnhamos direito. Ndia sofreu
muito com a morte de Gabriel e eu tambm. Foi
um acidente! - Carlos falou depressa.
-- Sei disso!
-- Mas acusou-me! Voc tramou de tal forma o
ocorrido, que Ndia nem podia sair nas ruas que
era insultada, chamada de me cruel. Tive que
responder em tribunal. Quase fui  falncia. Por
isto vim aqui. Noel quero olhar nos seus olhos e
ver se h dio neles. No tenho medo de voc,
embora saiba que pode acabar comigo.
Noel se comoveu, entendeu que egoisticamente
costumamos nos lembrar do mal que recebemos e
dificilmente do que fazemos. Carlos tinha razo,
ele havia feito tudo aquilo. Ergueu o corpo na
escrivaninha, ficou mais perto de Carlos, olhou-o
nos olhos e falou: -- Carlos, no quero mais
vingana! Sinto muito por tudo. Voc e Ndia
receberam o retorno de suas aes. Feriram-me e
eu, naquele momento, revidei. Agora no faria
mais o que fiz. Perdoei-os e peo-lhes que tambm
me perdoem.
-- Est sendo sincero? - perguntou Carlos.
-- Sim, estou sendo sincero.
-- No preciso tem-lo?
-- No deve!
-- Por que Ndia chorou? - indagou Carlos.
-- No sei talvez de alvio. Espero no ter sido
porque ela assinou o documento. Deixei um
quarteiro para ela - respondeu Noel.
-- No queremos nada do que  seu. No  justo!
-- J est feito.  dela, se no quiserem, que
doem. Mas deveriam aceitar.
-- No quero incomod-lo mais. Vou embora -
disse Carlos.
Noel abriu a porta.
A secretria e dois seguranas estavam no
corredor. Ele estendeu a mo para Carlos e falou:
-- Carlos, obrigado pela visita. Foi muito bom
conversar com voc.
-- E... Obrigado!
Carlos balbuciou, apertou a mo estendida e foi
embora. Noel fechou a porta, sentou-se numa
cadeira e pensou em Carlos.
Eram um pouco parecidos, a mesma altura,
formato de nariz, modo de sorrir. Ironia? Ou uma
coincidncia infeliz?
"No sei por que, mas ele me lembra meu pai!"
Drcio lhe havia dito que uma noite Carlos brigou
com dois rapazes porque eles disseram que se
parecia com ele. Levou uma surra.
"Amo-o, papai! Amo-o muito!"
"Gabriel!" - exclamou Noel emocionado.
"Reconciliou-se!" - falou o filho.
" verdade, meu filho! Hoje foi um dia importante
para mim, ontem tambm. Tive oportunidade de
me vingar, no o fiz e me reconciliei", disse Noel.
"Voc lhe pediu perdo!"
"Gabriel, eu os fiz sofrer e no havia percebido o
tanto."
"Tchau, papai! Estou alegre por voc! Fez que o
devesse fazer."
Noel sentiu uma paz, uma alegria tranqila, riu,
teve vontade de pular e o fez pela sala.
"Vingana nenhuma me deixaria alegre!  to bom
ficar em paz! Ningum fica realmente contente,
sente-se feliz por se vingar. O que sinto neste
instante  paz que traz a felicidade verdadeira.
Vingar  muito mesquinho. Se eu tivesse
continuado a me vingar e vir em Carlos e Ndia
meus inimigos, estaria inquieto, inseguro e ferido.
Muito ferido, porque a faca sem cabo teria me
machucado bastante. No ter inimigos, rancor,
mgoas,  esvaziar o corao e dar espao a bons
sentimentos. Sou feliz!"
Sentou novamente e orou, agradeceu a Deus por
estar to bem.
Telefonou para Drcio.
-- Meu amigo, quero financiar sua campanha.
Quero que compre jogos de camisas, materiais
esportivos, como bolas, etc., para distribuir para a
garotada pobre. E no faa economia, compre
bastante.
-- No precisa. Noel, j estou eleito! Nas
pesquisas, estou estourado na frente - respondeu
Drcio.
-- Eu quero Drcio, que compre tudo na loja do
Carlos.
Drcio silenciou por segundos, depois perguntou:
-- Tem certeza?
-- Absoluta! E peo-lhe que, como prefeito,
compre todos estes materiais esportivos na loja
dele.
-- Farei j esta compra e darei  meninada pobre!
- exclamou Drcio.
Noel desligou e chamou a secretria.
-- Dona Marli, quero que faa os funcionrios
saberem que no tenho nada contra o senhor
Carlos e dona Ndia, e que  do meu agrado que
comprem na loja deles.
Ela abriu a boca, no falou nada e saiu. Naquela
noite Noel ficou, aps a palestra, conversando com
a equipe do Centro Esprita.
-- Vejo espritos, ou melhor, um deles, e
conversamos sempre. Acho que sou mdium e
quero aprender a ser til com a mediunidade -
falou ele.
-- O senhor tem bastante conhecimentos
doutrinrios - expressou uma senhora.
-- Li por muitas vezes os livros de Allan Kardec -
falou Noel.
-- O senhor  formado,  engenheiro, e isto
facilitou a compreenso deles - disse a mesma
senhora.
-- A Doutrina Esprita  para ser compreendida por
todos - falou um senhor que atualmente dirigia e
administrava aquele centro esprita.
-- Quanto mais raciocinamos, mais entendemos a
doutrina - opinou outra senhora.
-- Recomendo a todas as pessoas que querem ser
teis com a mediunidade que faam o que o
senhor est fazendo: lendo bons livros, estudando
os de Kardec e freqentando nossas aulas de
estudo - disse o dirigente.
-- O senhor  til, faz o bem,  bom administrador!
-exclamou um senhor.
-- Administrador? - perguntou Noel admirado.
-- Dos bens de Deus - respondeu o senhor. -- 
um patro justo e bom. Tenho um filho que
trabalha na sua fbrica, ele gosta muito de l, do
senhor, e est feliz, porque vai ganhar um terreno.
Tudo que  matria, senhor Noel, aqui fica, s as
nossas boas obras nos acompanham. A expresso
"Deus lhe pague" tem fora, so palavras
poderosas que trazem a quem as recebe e fazem
jus muitos benefcios. Desde que o senhor veio
aqui pela primeira vez que quero lhe dizer que 
bem-vindo entre ns e que tem muitos "Deus lhe
pague" na sua bagagem.
Noel sorriu, conversaram mais um pouco e foi
embora.     Sentou    numa     poltrona    no   seu
apartamento e ficou pensando sobre o que a
senhora lhe disse: ser administrador.
Sentiu-se     envergonhado,      no     foi   bom
administrador, para ele no fazia diferena ter ou
no bens materiais. Poderia continuar vivendo na
ilha e bem tranqilo, sem problemas. Porm,
problemas e dificuldades fazem parte de nossa
vida e no  certo fugir deles ou ignor-los como
se no existissem. Seu lugar era ali, cuidando de
uma partezinha dos bens do Pai Maior. No fazia
diferena, para ele, ser proprietrio ou no da
fbrica, mas esqueceu que ela era geradora de
empregos e para os empregados fazia diferena.
Ele no tinha o direito de abandonar tudo como
fez, achando que s ele sofria na Terra. Pensou:
"Ainda bem que Drcio tomou conta de tudo muito
bem. Era um exemplo a ser meditado. Foi honesto
administrando algo que no era dele. Sei que
Drcio poderia ter me tirado tudo, dei-lhe uma
procurao dando-lhe estes poderes. Com
lealdade, ficou em meu lugar. Tudo  de Deus e,
quando o Pai d a administrao para um de seus
filhos, este deve fazer como Drcio, ser fiel,
honesto, trabalhar e entregar, aps terminar a
tarefa do melhor modo possvel, ao seu legtimo
proprietrio. Confundi administrar com possuir. E o
bom administrador deve cuidar do que  de Deus
em benefcio de outros filhos Dele. Ter riquezas
materiais no  errado e nem no t-las significa
ser bom. O certo  saber ter ou no. Ser rico e
apegado a estes bens, achar-se dono,  correr o
risco de ficar preso a eles; se no tiver nada, for
pobre e sentir o imenso desejo de ter,  ser
prisioneiro da vontade de adquirir. Por que no
pensei nisto antes? Vou de agora em diante cuidar
do que Deus me concedeu esforar-me para fazer
bem feita esta tarefa, ser justo, honesto e bom.
Quem sabe ter, sem ficar apegado, pode
administrar fazer o bem como um legtimo
proprietrio."
Foi dormir. No outro dia, telefonou para o
advogado, o mesmo que fez seu testamento. O
profissional no podia atend-lo de imediato.
Combinaram que logo aps as eleies, ele viria
fazer seu divrcio. Noel preferiu um advogado de
outra cidade para evitar falatrios.
Marcos era competente. Noel gostou dele e pediu
que fosse novamente  vila supervisionar a
construo do posto de sade. Ele voltou dizendo
que tudo estava em ordem, logo ficaria pronto.
-- E a professora? - perguntou Noel.
-- No a vi, mas perguntei por ela a um aluno e o
garoto me disse que dona Maria Ins est bem e
contente com o material recebido.
Dias depois, Luciana entrou no escritrio com um
vaso de flores.
-- So para voc, Noel. Eu lhe devia isto desde que
chegou.
-- Obrigado, Luciana! So lindas! Vou coloc-las
aqui. Como est Drcio? As crianas?
-- Esto bem. Noel, voc no vai refazer sua vida?
Vai continuar morando aqui? - perguntou Luciana,
mudando de assunto e falando rpido.
-- Refazer minha vida? Acho que no preciso
refazer nada - respondeu Noel dando um risinho.
-- Por enquanto vou continuar morando aqui, no
sinto vontade de mudar.
-- Sei que h muitas mulheres atrs de voc -
falou Luciana.
-- Vou saber escolher melhor da prxima vez -
disse ele.
-- Noel, voc se lembra do tempo que
namoramos?       Combinvamos      tanto!    Tenho
saudades!
Noel ficou alerta, olhou bem para Luciana e sentiu
perigo, viu em seus olhos que ela o amava ou
pensava am-lo. Nisto o telefone tocou, era Marli,
que lhe perguntou algo, que respondeu. Pensou
rpido como deveria agir e falou calmamente:
-- L, ns nos conhecemos quando ramos
garotos, tivemos um namorico na adolescncia e
nos acostumamos um com o outro e isto nos levou
a namorar na juventude. No gosto de pensar no
passado. Foi bom enquanto durou. E acho que
namoramos mais do que deveramos. No nos
amvamos, eu s lhe queria bem. Voc estava
iludida quanto aos seus sentimentos, tanto que se
apaixonou por Drcio e casou-se. E foi uma tima
escolha! No poderia ter escolhido melhor. Vocs
se amam, formam um casal maravilhoso e voc 
a mulher ideal para o nosso futuro prefeito. Quero
fazer como voc L, na prxima vez que pensar
em casar, vou escolher bem, quero uma moa
solteira e sem filhos, acho-me incapaz de amar
filhos de outro.
Luciana escutou sria, abaixou os olhos e fez um
biquinho. Noel conhecia bem aquele biquinho, era
porque se sentiu magoada, e ele, aps uma
pequena pausa, continuou:
-- Obrigado, L, pelas flores, desculpa-me, mas
tenho muito que fazer e voc certamente tambm.
Abraos nas crianas.
Estendeu  mo, ela a pegou e num rpido
cumprimento saiu sem falar nada. Noel ficou triste
e pensou:
"Luciana  a companheira ideal para qualquer
homem de bem. Sei que ela me amou, perdi a
chance. Poderia ter me casado com ela e me dado
muito bem. Ser mesmo? Eu no a amava; e o
amor no faria falta? Pena! Ser que Luciana est
achando que ainda me ama? No quero achar isto.
E difcil algum no amar Drcio. Espero que tenha
jogado gua fria na sua iluso. Drcio no merece
isto, e eu nunca serei causa de desavena familiar.
No farei com ningum o que fizeram comigo. Que
Deus ajude Luciana a refletir e compreender que
ama Drcio."
Chateado, Noel fez um propsito de evitar Luciana.
Encostou-se  janela e olhou o ptio, vazio quela
hora do dia, o tempo estava chuvoso, uma
chuvinha fina caa molhando tudo. Comeou a
pensar:
"Viver no Plano Espiritual deve ser bem melhor! S
que problemas nos acompanham, se no os
resolvermos, onde quer que estejamos l esto
eles conosco. Quero desencarnar em paz, e que
este sentimento me acompanhe, porque sei que,
ao    mudar      de     plano,   no    acontecem
transformaes, continuamos o mesmo, at que
num propsito firme mudemos para melhor e esta
melhora fazemos, quando queremos, aqui ou l.
Quem desencarna com rancor, vcios, continua
com eles, como tambm com as alegrias e
virtudes. Que Deus me ajude a usar bem meu
tempo, encarnado. No quero cultivar tristezas, j
tive momentos tristes, mas muitos alegres.
Quando a gente d muita importncia aos
acontecimentos      infelizes, aumentamo-los,    e
problemas so para ser resolvidos. Se por eles
deixamos de ver, sentir as coisas boas que nos
cercam, tornamo-nos infelizes e insensatos. 
sbio aquele que sabe dar valor ao que tem mudar
para melhor, esforar-se at se tornar bom. Quero
desencarnar bem, feliz e em paz!"
Suspirou, sentou-se na sua cadeira e resmungou:
-- Acho que devo arrumar uma namorada logo,
mas no estou com vontade.
O tempo passou rpido e Drcio ganhou a eleio
com grande vantagem, com muita diferena do
segundo colocado. Noel alegrou-se pelo amigo.
Marcou uma data com o advogado, ele viria logo
para legalizar sua separao com Ndia.
Organizaram uma festa para comemorar a vitria
de Drcio. Seria no salo de festividades na
margem da represa, um local muito bonito,
prximo  cidade. A represa, nesse pedao,
formava uma praia e a extenso d'gua era
grande. Noel ia e como convidado especial, como
disse Drcio. Levantou-se cedo naquele domingo,
s estavam os guardas na fbrica. Foi para o
escritrio e ficou sentado na sua poltrona. Sentiu o
filho e o beijo.
"Papai!"
"Gabriel!"
"Meu pai, que  contrrio de inimigo?" - perguntou
o garoto.
"Amigo!" - respondeu Noel sorrindo.
"O inimigo se odeia e o amigo se..."
"Ama!" - completou Noel.
"Para fazer de um inimigo um amigo, o que 
preciso fazer?" - indagou Gabriel.
"Amar? Por que est perguntando isto, filho?"
"Voc est certo" - respondeu com sabedoria -- 
s colocar em prtica. Jesus nos recomendou amar
os inimigos e quando os amamos, os fazemos
amigos. O que se faz pelos amigos?"
"O bem" - respondeu Noel.
"Isto deve ser feito a todos" - expressou Gabriel.
"No devemos ter inimigos e viver de tal forma,
fazendo o bem para que todos vejam nosso afeto.
Que bom ter certeza que no somos inimigos e
que ningum  nosso. Mas h, infelizmente, a
possibilidade de uma pessoa colocar-se como
nosso inimigo. Perdoar, pedir perdo  o comeo,
reconciliar  o segundo passo, mas h a terceira
fase, a de fazer o bem a esta pessoa que julgamos
ser nosso desafeto, fazer algo de tal forma como
faramos a um amigo."
"Gabriel, eu estou dando esses passos. Tive
oportunidade de me vingar de Ndia e Carlos, no
fiz, tenho poder, dinheiro, poderia arruin-los e at
fazer atos piores" - expressou Noel suspirando.
"Minha me declarou-se a voc, disse-lhe que o
amava; respondeu usando o bom senso, embora
saibamos que ainda a ama."
"Voc disse 'minha me'. Esqueci disto, Gabriel,
voc sempre foi meu filho. Acho que dei mais um
passo, reconheci que eles sofreram e que eu
tambm os prejudiquei e, melhor, pedi perdo.
Podemos viver em paz!"
"Ser amigo  fazer ao outro o que gostaramos que
nos fizessem e este fazer deve ser espontneo!
Boa festa papai!" - exclamou Gabriel.
Noel se arrumou e foi para a festa. Havia muitas
pessoas num churrasco farto.  tarde o tempo
mudou, o calor era intenso e tudo indicava que ia
ter tempestade.
-- E vai! - exclamou Noel.
-- Como voc sabe que vamos ter tempestade? -
perguntou Drcio.
- Aprendi a conhecer os sinais da natureza.
Lembre-se que vivi numa ilha - respondeu Noel
sorrindo.
-- Noel, voc sente saudades de l? - quis saber
Drcio.
-- Muitas, mas no quero voltar, j me acostumei
aqui de novo. Acho que me acostumo em qualquer
lugar e me adapto facilmente; para isto,  s amar
o local em que estamos, onde temos que viver.
Noel viu Carlos e Ndia na festa, no reparou
neles, conversou com muitas pessoas. Afastou-se
do grupo e foi andando devagar  beira d'gua.
Naquela parte da represa havia muitas casas de
veraneio, moradias de frias e finais de semana. O
tempo mudou mesmo, a tempestade veio rpido,
nuvens pesadas e escuras encobriram o sol e um
vento forte comeou a soprar, os raios e troves
eram fortes. Noel gostava da natureza e
tempestades no o intimidavam, gostava da
chuva, de sentir as gotas carem sobre ele. Olhou
as casas, estava em frente  que pertencia a
Carlos. Andou mais um pouco e encontrou-se com
Ndia, que conversava aflita com um moo.
-- Que aconteceu, Ndia? - perguntou Noel
aproximando-se.
Foi o moo que respondeu:
-- O senhor Carlos est na jangada no meio da
represa com as crianas e eles no colocaram os
salva-vidas. Acho que ele no est conseguindo
voltar. Vou de barco at l, mas estou com medo,
no sei nadar. Para traz-los, tem que ir um s.
-- Eu no sei dirigir o barco - falou Ndia nervosa.
-- Eu vou! Sei nadar e dirigir barcos - decidiu Noel.
-- Eles esto l! Veja pelo binculo! - exclamou o
moo, o caseiro.
Noel pegou o binculo, localizou-os. Carlos
segurava os filhos e os trs estavam no centro da
jangada, agarrados a um mastro.
-- Que imprudncia sair de jangada! - censurou
Noel.
-- Ela  segura, eles tm costume de sair com ela,
s que no previmos a tempestade - falou Ndia.
-- Vou rpido!
Ele pegou os salva-vidas, colocou um e entrou no
barco. Este era pequeno e o motor sem muita
potncia. Rumou com dificuldades para o lugar
onde estava a jangada. Viu Ndia correr para o
local da festa para pedir ajuda e o moo, o caseiro
deles, ficar olhando pelo binculo. Noel aproximou-
se deles. Jogou a ponta de uma corda e amarrou a
outra no barco. Carlos continuava amparando os
filhos no centro da jangada. Admirou-se quando
viu Noel.
-- Passe e amarre a corda no mastro, Carlos!
Coloque os salva-vidas nos meninos e em voc.
Isto! Agora venham! Pego vocs! - gritou Noel.
Pensou em arrastar a jangada, mas o barco no
conseguiria, resolveu tir-los de l. Com medo de
cair. Noel amarrou outra corda em seu p e a
outra ponta num gancho.
-- Estou machucado Noel! Vincius quase caiu na
gua e, para segur-lo, imprensei minha perna na
extremidade entre dois paus e uma das pontas me
feriu. Acho que quebrei a perna esquerda e estou
perdendo muito sangue, no consigo mov-la.
Salva meus filhos, pelo amor de Deus!
-- Salvo todos vocs! Venha, menino! Embora Noel
tenha gritado para se fazer ouvir, falou firme e
tranqilo.
-- V, Vincius! - ordenou Carlos.
O garoto segurou a corda que Carlos havia
amarrado no mastro e foi arrastando-se. Noel
inclinou o corpo tentando manter encostado o
barco na jangada. O vento forte levantava ondas e
fazia desequilibrar as embarcaes, a chuva batia
no rosto e braos com tanta fora que doa. Era
um resgate difcil, arriscado.
-- Venha, garoto! Seguro voc! No tenha medo!
E Noel pegou o garotinho, colocou-o sentado no
fundo do barco.
-- Segure forte no banco e fique quieto - falou
Noel. Voltou a inclinar-se e gritou: -- Agora voc,
Samuel! Venha!
Noel teve medo de o barco virar, ergueu-se
novamente para pegar o garoto que, como o
irmo, se arrastou. Ao ver Samuel de perto,
estremeceu, era parecidssimo com Gabriel.
"So irmos!" - pensou.
Com dificuldades conseguiu peg-lo e o colocou
junto do outro. Os dois ficaram quietos, estavam
assustados.
-- Agora voc, Carlos! - gritou Noel.
-- No consigo! Salve meus filhos, Noel, por favor!
Deixe-me aqui! Se sair do centro da jangada, ela
ir virar!
Noel viu que o ferimento dele era grave e que
necessitava urgente de socorro, sua perna
sangrava muito. Sabia que Carlos tinha razo, a
jangada poderia virar, mas tambm poderia, com
a fora das ondas, soltar os paus, desmanchar.
Carlos sabia nadar, mas ser que conseguiria faz-
lo at a margem, com aquele ferimento? Ansiou
por salv-lo, por ajud-lo, e insistiu:
-- Venha, Carlos! Eu estou lhe pedindo! Ordeno!
Venha! Voc consegue! Eu o ajudo!
-- Leve meus filhos! A tempestade passar. Ficarei
aqui esperando!
-- Quero salvar voc, Carlos! Arraste-se rpido!
As duas embarcaes balanavam violentamente,
as ondas eram grandes, os raios e troves
estavam mais fortes. Carlos arrastou-se e, quando
deu a mo para Noel, e este o puxou, a jangada
virou e o mastro caiu sobre Noel, atingindo sua
cabea.
-- Noel! Por Deus! Noel! - gritou Carlos
desesperado.
Noel sentiu o baque, no dor. Ainda viu as ondas,
Carlos puxando-o para o fundo do barco. Viu-se
pequeno, seus pais lhe sorrindo, seu casamento e
Gabriel. Foi tudo sumindo, apagando devagar e
nada mais viu ou sentiu.

           A GRANDE MUDANA

Noel acordou, espreguiou-se e respirou fundo,
sentiu o ar puro entrar nos seus pulmes.
Lembrou-se da ilha e balbuciou:
-- Ser que estou na ilha?
Esforou-se um pouco, tentou coordenar o
pensamento. Teve a sensao de despertar num
daqueles dias em que se demora um pouco para
se inteirar da situao. Levantou a cabea e olhou
o local. Estava num quarto grande com doze leitos,
sendo cinco ocupados por homens que dormiam.
Noel os olhou, no conhecia nenhum. Pensou:
"No estou na ilha. No teria porque estar nela.
Onde ser que estou?"
As lembranas vieram. A represa, a tempestade,
as embarcaes agitadas pelo vento forte. Carlos e
os meninos.
-- Meu Deus! A tempestade! Tenho que salv-los!
- Noel falou alto, agitando-se no leito.
-- Por favor, senhor Noel, acalme-se!
-- Acalmar?! - exclamou ele falando baixo.
Noel olhou para o moo que falou, examinou-o de
cima a baixo. O atendente, assim pensou que ele
fosse, era alto, magro, negro, sorriso agradvel,
uma destas pessoas a que basta olhar para
confiar. Esperou que Noel o observasse, depois
disse com tranqilidade.
-- Bom dia, senhor Noel! Sou Breno. Como est se
sentindo?
-- No sei o que responder, estou confuso! Sinto-
me perdido. Estou sonhando? Sa do corpo?
Breno sorriu, Noel colocou a cabea no travesseiro
e as cenas da tentativa de salvamento na represa
vieram  sua mente. Passou a mo sobre a
cabea, no notou nenhum ferimento.
-- Engraado, pensei que tivesse me machucado.
Breno, por favor, me responda que aconteceu?
-- O senhor no quer repousar? - perguntou o
moo.
-- No, quero saber que aconteceu. Estava no
meio da represa, a tempestade estava forte.
Tentava salvar os garotos com Carlos. Fiz a eles o
que se faz a um amigo. E depois? No lembro
como samos de l. Consegui salv-los?
-- Sim, o senhor conseguiu salv-los - respondeu
Breno.
-- E por que estou aqui? O mastro caiu em mim.
No senti dor, acho que desmaiei. Fiquei ferido?
Responda pelo amor de Deus! Estou sonhando?
Por que ser que quando sonhamos no
indagamos se estamos. Noel ficou nervoso, falou
olhando para o moo.
-- No  melhor o senhor dormir? Descansar? -
perguntou Breno.
-- Se voc quer que eu durma  porque no estou,
ento, num sonho. No estou cansado. Se quiser
me ajudar, responda que me aflige. Onde estou?
Que aconteceu comigo?
-- O senhor est num hospital recuperando-se.
-- Por que no disse logo? Fui ferido e estou me
restabelecendo. H quantos dias estou aqui? -
perguntou Noel acalmando-se.
-- Vinte dias.
-- Tudo isto? Estive em coma? Estou achando
esquisito eu acordar disposto. Que hospital  este?
Quarto coletivo? Breno estou achando estranho.
No que me acho merecedor de um atendimento
diferente. Mas por que estaria num hospital em
quarto coletivo? Que de fato ocorreu? Ser que
desencarnei?
Noel olhou para Breno, que continuou sereno,
achou que deveria explicar:
-- Breno,  que sou esprita e falamos que, quando
o corpo fsico morre, desencarnamos, e que a vida
continua sem saltos, sem grandes transformaes.
Ser que vocs esto achando que a pancada me
desequilibrou?
-- No, senhor Noel, no achamos que
desequilibrou, est muito bem. Para tranqiliz-lo,
vou lhe dizer o que ocorreu. Desencarnou. O
mastro caiu sobre sua cabea e...
-- Desencarnei? Mas como? Por qu? - gritou Noel.
-- Isto acontece com todos os encarnados -
respondeu Breno. -- J avisei Gabriel que acordou
logo ele estar aqui.
Noel comeou a chorar e se ps a reclamar:
-- Desencarnei! No  justo! Tinha muito que fazer
na Terra! Coitadinho de mim!
Falava sem parar. Breno ficou ali o olhando. Nisto
entrou Gabriel, beijou-o no rosto. Noel, pela
primeira vez, no lhe deu ateno, e lhe disse:
-- Viu o que me aconteceu, Gabriel? Desencarnei!
Nem vi. Estava l na Terra sendo til, tentando
fazer o bem, tinha o corpo sadio, muitos planos, a
fbrica para cuidar e desencarnei!
-- Papai, acalme-se! Por favor, tenha calma!
Respeite os companheiros de quarto, eles esto
assustados!
Noel olhou para os outros, trs deles estavam
acordados      olhando-o,   um     assustado;    dois
permaneceram tranqilos, pareciam estar orando.
-- Desculpe-me - disse Noel. --  que estou
indignado! Isto no deveria ter acontecido comigo.
Tantas pessoas querem morrer e ocorre comigo.
Por qu?
-- Papai - falou Gabriel tranqilo --, por que
estranha tanto? Todos que esto no plano fsico
desencarnam isto  certo, natural, e ningum fica
encarnado para sempre. Sabia disto.
-- Saber  uma coisa, quando acontece conosco 
diferente - falou Noel choramingando.
-- Voc se arrependeu por ter salvado Carlos e os
meninos?
-- Eu os salvei? Carlos estava ferido - disse Noel.
-- Salvou-os sim! Carlos estava realmente muito
ferido, ainda est internado no hospital, teve que
se submeter a duas cirurgias, ficar bom -
respondeu Gabriel.
-- Voc ficou contente com que fiz? - perguntou
Noel.
-- Muito. Contei a todos meus amigos o seu ato
herico.
-- Mas morri! - exclamou Noel suspirando.
-- Arrependeu-se? - indagou Gabriel.
-- No! Por que desencarnei? No me responda
mais que era porque estava encarnado. Isto 
bvio!
-- Temos um tempo para ficar no aprendizado do
corpo fsico, quando ele vence, temos que voltar 
Ptria Verdadeira - respondeu o garoto.
-- Por que eu? Por que comigo? Era jovem,
considerado bonito, fazia o bem - resmungou Noel.
Silncio. Noel viu que Breno saiu do quarto e um
senhor, colega de quarto que o olhava com
simpatia, falou:
-- Deus no quer s os velhos.  um privilegiado,
desencarnou e foi socorrido sem passar pelo
Umbral e tem o filho perto. Eu, meu caro, sofri um
bocado na Zona Umbralina e tenho um filho
desencarnado que ainda est l naquele inferno.
Deveria pensar que somos sobreviventes. Sim,
sobrevivemos  morte do corpo. Isto no 
fantstico?!
O senhor reencostou-se na cama, puxou o lenol
cobrindo a cabea. Gabriel segurou a mo do pai e
falou baixinho com tom carinhoso.
-- Papai, a desencarnao no  castigo,  uma lei
que deveria ser encarada com maturidade. A vida
 nica, s mudamos de estgio.
-- A grande mudana! - exclamou Noel.
-- Estarei por perto, ajudando-o!
Noel viu que Gabriel subiu num banquinho para
olh-lo de perto e segurar sua mo.
-- Voc tem pensamentos maduros demais para
sua idade.
Gabriel riu e respondeu:
-- Sabe pelo que estudou que somos espritos com
bastante experincia, tenho aproveitado meu
tempo para aprender.
Noel voltou a chorar.
-- Que tem papai?
-- Estou com d de mim! Desencarnar no  fcil!
Rico! Bonito! Morrer para salvar uma pessoa que
j me prejudicou! Que adiantou meu ato herico?
Morri!
-- Papai! Pare com isto! J! Est entrando em
sintonia com pessoas que no entendem o que
seja realmente este processo desencarnatrio.
Muitos encarnados que o conheciam tm pensado
isto sobre o fato. Deveria escutar outros. Que tal
pensar no centro esprita e escutar os amigos de
l?
Noel pensou no centro esprita, por momentos se
tranqilizou e escutou os incentivos:
"Senhor Noel, fique bem! Desfrute da beleza da!
Que os 'obrigados', os 'Deus-lhe-pague' - o
acompanhem! Sinta-se em paz! Que Jesus esteja
ao seu lado!"
-- Que bonito e gentil! - exclamou Noel.
-- Escutamos sempre quem queremos! - falou
Gabriel. -- No que os outros comentrios sejam
ruins. Voc viveu encarnado de tal forma que
ningum o amaldioou. Por isto est aqui, numa
Colnia maravilhosa, socorrido, e se recuperar
rpido. Muitas pessoas que o conheceram acham,
erroneamente, que foi uma judiao o que lhe
aconteceu, pois era jovem, bonito, rico e boa
pessoa. Isto  comum acontecer, quase em todas
as desencarnaes existe quem pense assim,
acham sempre algo para ter d. E como seu
colega ali disse, somos todos sobreviventes. H
sobrevivncia aps a morte. Por isto, repito:
desencarnao no  castigo! S que  com ela
que recebemos de imediato o retorno de nossos
atos e vamos, por afinidades, para Lugares aos
quais fazemos jus.
Noel quis firmar seus pensamentos no centro
esprita, mas pensou em Ndia, Luciana, Drcio,
at em dona Marli, a secretria, e recomeou a
chorar.
-- Que ser deles sem mim? Farei falta!
-- Basta, papai! No pensei que ficaria com d de
si mesmo! Pode dormir! Acomode-se! Tome esta
gua e durma! Espero que acorde melhor!
Nunca Gabriel lhe falara assim. Noel obedeceu,
tomou a gua e dormiu.
Acordou disposto. Viu Breno, que lhe sorriu,
correspondeu e perguntou:
-- Posso me levantar?
-- Claro!
Levantou-se e foi para perto da janela. Olhou o
jardim florido e o cu de um azul lindo, nem na
ilha vira assim.
-- No  ruim estar desencarnado, no  mesmo? -
perguntou olhando para Breno.
--  muito bom, senhor!
-- Por que me chama de senhor? Se continuar me
chamando assim, vou tambm me referir nestes
termos a voc - disse Noel.
-- Chamarei ento de voc. Vou avisar Gabriel que
j acordou e que est bem disposto - disse Breno.
-- Espere um pouco mais para chamar Gabriel,
quero ficar aqui sozinho para pensar. No quero
mais ficar com d de mim. Que devo fazer para
que isto no acontea? - perguntou Noel.
-- O melhor  ver como  bonito aqui,
compreender que a vida continua e que ser muito
feliz na sua nova morada - respondeu o indagado.
Breno saiu e o senhor que j tinha lhe dirigido a
palavra falou:
-- Sou Francisco, por enquanto somos colegas de
quarto. No fique triste, sua situao  muito boa.
Estou aqui h cinqenta e um dias e no consigo
me levantar do leito, sinto tonturas. Breno me
disse que tenho que superar meus problemas e
aprender a viver aqui com este corpo, o perisprito,
e me livrar dos reflexos, ou seja, da impresso que
tenho ainda do meu corpo fsico que j virou p.
Meu corpo carnal morreu h nove anos; por
afinidades, fui para o Umbral, que para mim  o
inferno. Sofri muito por l. -- Como  o Umbral? -
perguntou Noel.
-- Um lugar triste e feio. Embora exista gente que
goste, h gosto para tudo. Eu no gostei. No fui
mau quando encarnado, mas era farrista, amante
do prazer, sexo, gastava muito numa noite de
orgia, mas, para dar uma esmola, queixava-me
das dificuldades existentes. Tive religio de
fachada, dizia ser religioso, achava bonito, os
ensinamentos proferidos por ela, s que no os
seguia, orava, mas sempre o fazia para pedir
favores.
-- Religies, meu amigo, so setas no caminho,
fazer como voc fez no d resultado. Voc viu as
setas, admirou-as e foi s. As setas so para
serem vistas, s que devemos passar adiante,
caminhar, e para andar devemos ter fora,
vontade e estas vm de dentro de ns - disse Noel.
-- Agora concordo com voc.  isto mesmo! S
achei bonito minha religio, no segui seus
ensinamentos. Caminhar d trabalho e  muito
fcil ver o outro fazer, de preferncia, o que cabe a
ns realizar.
-- Continue falando do Umbral - pediu Noel.
-- Voc no foi l e sabe de muita coisa.
-- Li sobre estes assuntos em livros.
-- Foi esprita?
-- Sim, fui.
-- Agora compreendo por que  to bem-
informado voc deve ter visto as setas, e
caminhado. No gostei do Umbral e dou graas mil
vezes por ser temporrio. Quando estava l, senti
fome, sede, frio, calor e muitas dores. Fiquei num
canto ftido e lamacento. Revoltei-me nos
primeiros anos, depois comecei a entender que
merecia estar ali, arrependi-me dos meus erros,
quis melhorar e, tempo depois, fui socorrido.
Compreendi uma coisa importante: que a vida 
uma      s,   continuamos      como     ramos,    a
desencarnao, por si s, no muda ningum.
Lembro sempre que, quando no fsico, tinha um
vizinho muito honesto, boa pessoa, e eu o
chamava de tolo por no aproveitar a vida como
eu fazia s que foi ele que a aproveitou bem. Ele
tambm fez sua passagem de planos, veio para c
e est muito bem, continua como sempre,
honesto, trabalhador e bom.
-- Trabalhador? - indagou Noel.
-- Claro. Aqui, meu amigo,  atividade. Breno
cuida de ns, est trabalhando. O cu de ociosos
no existe. Tenho pensado muito e no queria,
no quero estar num cu onde no se faz nada.
Sei que no momento sou necessitado e que
preciso melhorar muito, mas para mim seria
infelicidade ficar num lugar de delcias e lembrar-
se de amigos, de pessoas de quem eu gosto,
sofrendo. Tenho um filho que est no Umbral, sei
que ele, como eu, poder ser socorrido e vir para
c. Isto me consola e me incentiva a ficar bem e
querer aprender para ajudar outras pessoas a
ficarem tambm. Isto no  maravilhoso? No  a
compreenso da bondade de Deus? Agora acho
incoerente existir um lugar de felicidades onde
quem est l, sabe, v os que sofrem e no quer,
no pode fazer nada para auxili-los. Um lugar
desses no seria para os bons, mas para os
egostas. Eu no seria feliz num local assim. Se eu
no seria, imagina quem tem mais conhecimentos,
foi e  realmente bom. Meu filho e eu no fomos
to ruins para ficarmos sofrendo por muito tempo
e nem bons para merecer vir de imediato para c,
um local lindo de socorro. Definindo para voc, o
Umbral  um lugar de sofrimentos, morada
provisria de imprudentes, onde se aprende, pela
dor, o que recusaram a faz-lo pelo amor. Estou
falando muito, voc disse a Breno que queria
pensar. Pois pense, amigo, s que no fique triste.
Francisco aquietou-se, Noel voltou a olhar o
jardim, pensou em Drcio, sentiu-o triste e
preocupado com a fbrica, compreendeu que ele
pensava que fora trgica a sua morte e que era
Carlos que deveria ter morrido. Sentiu que naquele
momento o amigo estava orando por ele, uma
orao muito bonita, conhecia-a, estava na
Coletnea de Preces Espritas.
Noel emocionou-se e tentou fazer o que Gabriel
lhe recomendara: prestar ateno nas oraes que
recebia e esforar-se para no sintonizar com
aqueles que penalizavam com sua desencarnao.
E ele s tinha que agradecer no fora para o
Umbral e estava com o filho. Mas, mesmo assim,
sentiu d de si mesmo. Que lhe aconteceria agora?
Acostumaria com a nova vida? No poderia mais
voltar ao fsico, no no seu antigo corpo. Lgrimas
correram-lhe abundantes pelo rosto. Teve sono,
deitou-se e dormiu.
-- Papai! Acorde! Est muito dorminhoco!
Gabriel novamente subiu no banquinho, acordou-o
dando-lhe beijos. Noel despertou sentindo-se bem.
-- Filho! Que gostoso acordar com seus beijos!
-- Vim para lev-lo ao jardim - disse o menino.
-- Gabriel, vejo voc como desencarnou, com
quase quatro anos, mas voc tem atitudes,
conhecimentos de um adulto.
-- Papai, para viver aqui na Colnia, fazer meu
trabalho, apresento-me como um adulto; para
voc, como desencarnei, porque  assim que
pensa em mim, que me tem na memria -
respondeu Gabriel.
-- Filho, fica com o aspecto de como voc trabalha
aqui, no precisa mais ter a aparncia infantil -
disse Noel.
-- Pois assim ser.
Transformou-se, tornou-se um homem jovem,
muito bonito, continuou louro de olhos azuis.
-- Fantstico! Como fez isto? - perguntou Noel
maravilhado.
-- O perisprito  modificvel, basta aprender para
fazer isto. Tenho aproveitado bem meu tempo
para aprender e isto me deu maturidade. Quando
desencarnei, fiquei uns meses no educandrio, na
Colnia. Crianas, quando desencarnam, 
estudado cada caso. Alguns reencarnam logo,
outras vo crescendo no mesmo processo do fsico
e outros, como eu, voltam a ser como eram antes
de reencarnar.
-- Gabriel, que voc faz aqui? Onde trabalha? -
quis Noel saber.
-- Trabalho no Educandrio, cuido de crianas,
treino para quando reencarnar ser mdico-
pediatra - respondeu Gabriel.
-- Ficamos parecendo dois irmos. Por favor, filho,
continue a me chamar de pai.
-- Claro papai! Vou cham-lo sempre assim.
-- Voc nunca me chamou de senhor. Mesmo
quando quis ensin-lo, voc insistia em tratar-me
por voc.
-- Sei que no gosta que lhe chamem de senhor.
--  verdade!
-- Tome este caldo, est gostoso! - Gabriel lhe
ofereceu um prato com uma sopa muito cheirosa.
Noel alimentou-se, achou realmente o alimento
saboroso, indagou:
-- Voc se alimenta?
-- No, j aprendi a me nutrir do ar, sol, da
natureza. Mas at aprender, ter que se alimentar.
Para no sentir falta de alimento,  s ter plena
conscincia      de    que   vive   agora     como
desencarnado.
-- Muitas pessoas estranham o fato de os
desencarnados se alimentarem? - disse Noel.
-- Mesmo no existindo muitas diferenas entre os
dois planos, a maioria, ao desencarnar, sente
tanto. Imagine se fosse tudo muito diferente?
Vamos dar um passeio.
Gabriel ajudou o pai a trocar o pijama por outra
roupa, cala e camisa simples, muito limpas e
cheirosas. Saram do quarto e Gabriel foi
explicando:
-- Voc est abrigado no hospital de uma Colnia
que est no espao espiritual da regio da cidade
em que morou. Ela  de porte pequeno, muito
linda e organizada. O hospital  grande, porque h
muitos imprudentes. Esta parte, ou ala em que
est,  para os que esto bem e que logo podero
deixar o hospital.
-- Gabriel,  isto que me preocupa. Que farei aqui?
No ria de mim, estou com medo do desconhecido.
-- No, papai, no vou rir de voc. Isto acontece
muito por aqui. A pessoa sente falta do que
amava, de coisas que ficaram l, no Plano Fsico.
Houve uma mudana, deixou tudo e aqui est
vendo outros lugares, ter que conviver com
outras pessoas e pode-se sentir inseguro. Existe o
termo "adaptar", que assusta alguns, mas  isto
mesmo que deve ser feito: adaptao. Aceitar a
desencarnao  fundamental, querer melhorar 
de muita importncia. No alimente receio!
-- Quando fui para a ilha, larguei tudo e fiquei por
anos, l era diferente e me acostumei. Sabia,
porm, que poderia voltar quando quisesse e que
agora, nesta mudana, no posso voltar.
-- Por isto que muitos se referem  desencarnao
como uma mudana sem retorno. No se pode
voltar, no como encarnado no mesmo corpo; ao
fazer isto, reencarnamos, voltamos a ser feto,
crianas, convivendo com outras pessoas, noutra
existncia no fsico. Mas podemos ir a Terra, como
desencarnados, como eu fazia quando visitava
voc.
Chegaram ao jardim, Noel observou tudo
detalhadamente: havia rvores floridas, canteiros
bem cuidados, muitos bancos. Sentaram em um.
Noel encantou-se, quando perceberam, ele estava
de boca aberta. Riram.
-- Que lindo Gabriel! Como aqui  bonito!
-- Aqui  simples, papai! Quando h equilbrio
entre as pessoas, a natureza se torna mais bonita.
-- Gabriel, o que aconteceu comigo, com Carlos e
com os meninos?
-- A jangada virou, o mastro caiu sobre voc
atingindo sua cabea, teve um traumatismo srio
e seu corpo fsico morreu. Pudemos deslig-lo de
imediato e o trouxemos para c, adormecemo-lo
para que os muitos comentrios no o atingissem.
Sua desencarnao foi sentida, papai, voc deixou
muitos afetos.
-- Fiz dos inimigos, amigos! - exclamou Noel.
--  verdade! Foi muito bom ter feito isto. Vou
continuar a contar o que aconteceu. Carlos,
mesmo com muitas dores, conseguiu entrar no
barco, pegar voc e coloc-lo deitado no fundo.
Nisto uma onda maior arrebentou a jangada, os
paus se soltaram. Com esforo ele conduziu o
barco at a margem. Quando chegou e viu
pessoas  sua volta, desmaiou. Dois mdicos que
estavam na festa examinaram vocs, perceberam
que voc havia falecido e que Carlos necessitava
urgente de socorro, tentaram conter a hemorragia
e os levaram para o hospital. L foi realmente
constatado que seu corpo fsico estava morto e
Carlos foi medicado. Se tivesse retardado mais o
socorro, Carlos no teria agentado e tambm
desencarnaria. Ele ficou hospitalizado muitos dias,
passou por duas cirurgias e ficar deficiente, ter
dificuldades para andar. Os meus irmozinhos
esto bem, nada sofreram.
-- Eu que insisti com Carlos para passar para o
barco, ele temia que a jangada virasse. Quando vi
o ferimento de sua perna e o sangue que corria,
percebi que era grave e que precisava de um
socorro rpido. Gabriel ser que Carlos no ser
taxado de culpado? Para muitos, ainda ramos
inimigos - falou Noel.
-- Quase que isto aconteceu. O caseiro viu tudo,
pois ficou olhando pelo binculo. Quando Carlos
chegou  margem, havia muitas pessoas com
Ndia, pois ela foi  festa pedir ajuda s que eles
no viram o que ocorrera. Falaram muito aps
vocs serem levados ao hospital. Drcio
aproximou-se do caseiro e disse: "Moo, se voc
viu tudo, diga a verdade, s o que viu. Fale como
se estivesse na presena de Deus e no minta." E
o moo falou a verdade. Ele at sentiu vontade de
inventar, mas o que Drcio lhe falou ficou na sua
mente:      "presena      de    Deus".   E    todos
compreenderam que foi realmente um acidente.
-- Drcio, sempre honesto! Alegro-me por ele ter
feito isto. Seria injusto Carlos ser acusado de algo
que no fez.
-- Drcio  mesmo uma pessoa excepcional! -
exclamou Gabriel.
-- Meu filho, voc interferiu nas minhas decises? -
Noel quis saber.
-- No, papai, nunca o fiz. Temos o nosso livre-
arbtrio, tanto assim que somos responsveis pelo
que fazemos. Forar algum no  certo e os
espritos que tm conhecimentos, os bons, no
fazem isto. Forar  obsesso. Podemos
aconselhar e escutar quem quisermos. Encarnados
tm orientaes de outros encarnados, recebem
influncias de desencarnados e estes conselhos
podem ser bons ou maus; atendem o que
quiserem. S o aconselhei. Decidiu por si mesmo.
-- No pensei em morrer quando fui salvar Carlos
e os filhos dele. Alegro-me por t-los salvo. No
me arrependo!
-- Papai, era chegada sua hora de voltar ao Plano
Espiritual. Sabendo disto, aconselhei-o a no
buscar Maria Ins no povoado e ainda bem que me
atendeu, evitou que a meiga professora sofresse
mais. Seu retorno, sua passagem de plano, estava
prevista para este dia. Se no tivesse ido salv-los,
algo iria fazer seu corpo fsico parar suas funes -
explicou Gabriel.
-- Filho, sempre gostei de tempestades. Nunca me
assustei com raios ou troves. Desde pequeno tive
sensaes de que um raio me libertaria, no
conseguia entender o porqu de pensar assim.
Ser que no seria um raio que me libertaria do
corpo fsico? - perguntou Noel pensativo.
-- Pode ser papai. Quando nosso tempo no fsico
vence, os motivos para que a desencarnao
ocorra so muitos. A matria carnal  to frgil!
-- Que bom eu ter ido e ter feito a Carlos o que
faria a Drcio. Se tiver que mudar de plano, fiz a
minha grande mudana, realizando algo que
deveria ter feito: "Amei meu inimigo!"
-- Papai - falou Gabriel pausadamente --,
realmente podemos nos referir  passagem de
planos como mudana. Mas s mudamos mesmo
quando nos transformamos para melhor, quando,
conscientes, progredimos. Porque, meu pai,
podemos reencarnar vinte, cinqenta ou mais
vezes, mudarmos para l, voltarmos para c, mas
se no nos conscientizarmos de que isto so fatos
externos e que  em ns que devemos fazer a
grande mudana, a transformao de melhoria,
estaremos sempre sentindo esta passagem.
Alegro-me porque voc aproveitou bem esta
encarnao.
-- Acha mesmo, filho?
-- Sim, voc ps fim a um desentendimento, fez o
bem, pediu perdo com sinceridade a quem
ofendeu, tratou como amigo aquele que foi taxado
de inimigo administrou corretamente bens
materiais, alimentou-se espiritualmente com boas
leituras, oraes e aproveitou para aprender,
estudar - respondeu Gabriel.
-- No poderia ter feito tudo isto aqui?
-- No fsico encontramos problemas, conflitos,
resistncias, a iluso da matria exerce um
domnio forte, e isto tudo so provas a serem
vencidas. Podemos aprender aqui, mas  nas
dificuldades por que passamos quando encarnados
que provamos a ns mesmos que de fato
aprendemos.
Noel suspirou, estava emocionado, ficaram quietos
por momentos, Gabriel o abraou.
-- Bem-vindo, meu pai, ao Plano Espiritual. Que
seja feliz aqui conosco! - exclamou Gabriel.
Choraram emocionados. No se chora s por dor,
ns o fazemos tambm quando a paz nos invade,
quando nos sentimos bem conosco mesmos.
Lembro-me de um dia quando um amigo meu me
disse:
"Antnio Carlos, chorei de alvio por no ter
remorso!" Que choro abenoado! Assim, se todos
ns fizssemos a passagem de planos como Noel,
de bem com todos, sem inimigos, com a
conscincia tranqila, sem erros, sem remorso e
feito o que deveria ter sido feito, poderamos
chorar comovidos, porque teramos aproveitado a
oportunidade da reencarnao. Noel provou que
aprendeu e mereceu ser acolhido num lugar de
bem-aventuranas. Ele ainda, como ns, tem
muito que aprender provar que realmente
assimilou o aprendizado, vivenciar no dia-a-dia o
que tomou conhecimento e progredir sempre. Este
 o objetivo dele e deve ser o nosso.
-- Estou com sono, Gabriel. Quero voltar para o
quarto e estou disposto a me recuperar logo. Nada
mais me assusta. Vou amar estar aqui e tudo que
me for oferecido. Quero ser til e deixar de ser
dorminhoco - falou Noel.
Gabriel o acompanhou, ajudou a acomod-lo no
leito e ele sentiu o beijo no rosto.
-- Como  bom ser amado! - exclamou sorrindo.
-- O amor se conquista, recebemos quando
damos! - Gabriel falou, olhando-o com carinho.
Noel adormeceu tranqilo.

                A REVELAO

Os dias passaram rpidos. Noel, sozinho ou
acompanhado por Gabriel, conheceu quase todo o
hospital, s no foi na parte onde esto os
socorridos em estado de muito sofrimento. Ia
sempre ao jardim, conversava muito e o assunto
preferido   dos   abrigados    e    dos    recm-
desencarnados era como foi sua passagem de
plano, a saudade dos entes queridos que ficassem
na Terra e at do medo do novo modo de viver.
Noel alimentava-se duas vezes por dia e no via a
hora de no precisar faz-lo mais. Sempre gostou
de dormir e ainda o fazia muito, queria, porm,
no adormecer mais.
Numa tarde, estando no jardim, Celina sentou-se
ao seu lado e comearam a conversar, depois que
Noel contou resumido sua histria, finalizou:
-- Faz trinta e dois dias que desencarnei e j me
sinto muito bem. Estou ansioso para fazer algo de
til e participar ativamente da vida aqui. Fala-me
agora de voc. Que aconteceu, Celina, para que
mudasse de plano to jovem?
-- No existe idade certa para voltar ao Plano
Espiritual - respondeu Celina sorrindo. -- Minha
histria  melanclica! Ser, Noel, que existe uma
histria de vida sem ser triste?
-- Claro que existe! - exclamou ele. -- s vezes
achamos que nossa histria tem muita tristeza,
talvez por que temos tendncias  auto-piedade e
lembramos quase sempre dos acontecimentos que
nos causaram infelicidades. Mas quem no tem
momentos alegres para lembrar?  questo de nos
educarmos. Eu estou tentando me educar e ver
ambos os acontecimentos e dar valor aos bons,
agradveis. Contei a voc o que me ocorreu que
me deixou triste, mas falei tambm dos bons
momentos, do amor dos meus pais, de Gabriel, o
anjo de minha vida, da amizade que tive, dos dias
tranqilos que passei na ilha, do esforo que fiz
para me tornar amigo de quem um dia julguei
inimigo.
--  verdade, vou me espelhar em voc e tentar
falar dos bons e maus momentos - expressou
Celina falando pausadamente e, pela primeira vez,
esforou-se para no lembrar s das infelicidades.
-- Tive uma famlia maravilhosa, embora com
problemas, sei agora que eram dificuldades que
todos os encarnados tm. ramos pobres, entendo
que no ter tido dinheiro foi bom para mim, isto
me levou a trabalhar, a estudar para melhorar de
vida. Tive muitos amigos tambm, eles sentiram
minha desencarnao, sempre gostei de fazer
favores a eles, que retribuam.
-- Voc  desta regio? Encarnada, viveu no Plano
Fsico a que esta Colnia est vinculada? -
perguntou Noel aproveitando que Celina fez uma
pausa.
-- Nasci nesta regio, mudei para outra quando
era pequena. Uma tia minha, que  moradora
desta Colnia, me ajudou quando meu corpo fsico
morreu e me trouxe para c. Vou continuar
falando de mim. Tive uma infncia feliz,
adolescncia sem grandes problemas. J era
adulta quando conheci Lair, foi numa noite, estava
num barzinho com minhas amigas. Ele parou em
frente do bar, estava num carro novo, muito bonito
e caro. Interessamo-nos por aquele moo lindo e
alegrei-me quando ele me deu ateno.
Comeamos a namorar, Lair me disse que se
interessou por mim por causa do meu corpo
bonito. Como namorado, me dava presentes caros
e presenteava tambm a minha famlia. Meu pai
desconfiou, no gostou dele, minha me achou
que era o partido ideal para mim. Ele nos disse
que tinha um estacionamento de carros, comprava
e vendia veculos. Levou-nos para conhecer o
local.
Era em outra cidade, na capital do Estado. Para
minha me, irmos, estava tudo certo, menos para
meu pai, que dizia ter a intuio de que algo no
estava bem. Rindo, o taxamos de ciumento.
Confesso que me entusiasmei pela ostentao de
meu noivo, porm o amei. Ele queria que fssemos
morar juntos na cidade em que residia, mas meus
pais s deixariam se casssemos. Lair ento
confessou que era casado, contraiu matrimnio
muito novo, separou, e que sua ex-esposa foi para
o exterior e ele no sabia seu paradeiro para se
separar. Decidimos casar s no religioso. Foi uma
festa bonita e fiquei muito feliz. Ele fez todas as
despesas e deu para meus pais um carro novo.
Meu pai chorou ao despedir-se de mim e disse:
"Filha, nossa casa  sua, volta quando quiser."
-- Fizemos uma linda viagem - continuou Celina --
e me senti muito feliz. Fomos residir no
apartamento onde ele morava. Lair deixou que eu
o decorasse e o fiz com muito amor. Achava que
meu esposo trabalhava muito e em horrios que
estranhei. Ficava muitas noites fora. Quando
reclamei, ele justificou que estava fazendo
negcios. Para me agradar, me dava muitos
presentes. Viajava muito com ele e sempre,
nessas viagens, me deixava no hotel e passava as
noites em reunies de negcios. Eu queria ter
filhos, ele no, tinha averso at pela idia. Ele
dizia: "Celina, no quero filho, a gravidez a
engordar, se isto acontecer, no vou quer-la
mais".
Achei, na primeira vez em que ele me disse isto,
que estava brincando, fiquei muito triste ao
escut-lo repetir e por sentir que meu esposo
pensava realmente assim. Comeamos a brigar,
desconfiei que ele tivesse outra por ficar muitas
noites fora de casa. Lair estava muito nervoso e
no queria me explicar o porqu. Pediu-me para
ter calma, estava agitado porque os negcios no
estavam bem e que me amava.
Uma noite, quando chegou tarde e eu reclamei,
ele me disse que estava cheio de mim e que era
para eu ir embora, voltar para a casa dos meus
pais. Chorei muito; ofendida, no outro dia cedinho,
fui embora, voltei para junto dos meus familiares.
S que, dias depois, descobri que estava grvida.
Achando que nossa briga fora sem motivos resolvi
voltar e me entender com ele. Lair me recebeu
com carinho, disse que estava com saudades e me
queria ali, que ia resolver seus problemas e se
dedicar mais a mim. Senti-me feliz de novo. No
outro dia, pela manh, contei a ele que estava
grvida, meu esposo levou um susto e nada falou.
Naquela noite tomamos um vinho, achei que era
para comemorar. Senti sono e acordei no hospital.
Indaguei a enfermeira:
"Estou num hospital? Que fao aqui?"
"Por que est perguntando isto? Esqueceu do que
aconteceu? Voc est aqui pelo aborto que fez" -
respondeu  senhora.
"Eu abortei? Meu Deus! Perdi meu filho?" - falei
aflita colocando as mos na barriga.
"Por favor, no finja, voc no abortou, fez o
aborto! No perdeu seu filho, no o quis!" -
exclamou a enfermeira.
"Por favor, digo eu, no estou entendendo.
Responda-me: Perdi meu filho?"
"Moa, sabemos muito bem distinguir um aborto
natural de um provocado. Voc no se lembra?
Tomou um remdio para dores estomacais e os
colocou no tero. Expeliu a criana e teve uma
hemorragia e a trouxeram para c. No se
preocupe voc no corre risco de vida, mas seu
filhinho morreu. Agora descanse!"
-- Chorei muito, quietinha naquele leito do
hospital. As enfermeiras no acreditaram em mim,
no me importei com elas, senti a perda do meu
filho. Voltei para o nosso apartamento no outro
dia. Lair me esperava e na porta de entrada
estavam dois homens.
"Celina, estes so dois vigias" - explicou ele.
"Lair, quero saber que aconteceu. Por que perdi o
nen?"
"Estvamos conversando e voc desmaiou, vi que
estava sangrando, apavorei-me e a levei para o
hospital e voc teve o aborto" - falou ele
tranqilamente.
"A enfermeira me disse que eu provoquei o aborto,
que tomei remdio" - falei.
"Ela deve ter confundido, estas enfermeiras no
sabem de nada. Alegro-me que esteja bem,
porm, Celina, no quero mais filhos. Voc perdeu
este e sinto como um sinal para no tentarmos
mais. No quero filhos! Entendeu? No me
engane!"
"Lair, por que ter seguranas?"- perguntei
mudando de assunto.
"Nada de especial. No tenho agradado meus
concorrentes e porque tambm tem havido muitos
roubos por aqui e tornado um local perigoso. Por
favor, Celina, no saia do apartamento sem me
avisar e descanse o mdico lhe recomendou
repouso."
-- No tinha mesmo vontade de sair e fiquei me
recuperando, estava triste. Telefonei para casa de
meus pais, contei sobre o aborto, no falei o que
aconteceu, porque no havia entendido. Meu pai
falou comigo e me pediu:
"Por favor, filha, volta para casa!"
Eu disse a meu pai para no se preocupar comigo,
que estava bem. Lair estava muito nervoso,
esforava-se para ser carinhoso comigo. Trs dias
depois que voltei do hospital, eram dezessete
horas, escutei um barulho na lavanderia do
apartamento. Estava no quarto, fui para a sala, ia
ver o que fez o barulho, quando me defrontei com
dois homens encapuzados e armados que
atiraram, atingindo-me em vrias partes do meu
corpo; nisto a porta se abriu e os dois seguranas
entraram e tambm foram atingidos.
Apavorada, levantei e fiquei num canto da sala, vi
os dois assassinos chutarem os corpos dos
seguranas e ouvi um deles falar:
"Se no estivssemos com pressa, ia torturar esta
sem vergonha do Lair. Vamos embora daqui!"
Saram rpido pela porta da frente. Estava
encolhida, apavorada, pensei que era sorte demais
eles no terem me visto. Suspirei e olhei para o
cho e me vi deitada sangrando.
Passei a mo pelo meu corpo, no tinha ferimento,
voltei a olhar para o cho. L estavam os trs
cadveres. Desmaiei.
Desencarnamos ns trs. Quando fui atingida, o
susto, o impacto me fez levantar e o fiz com meu
perisprito. Sa do corpo fsico, senti tanto medo e
fiquei to confusa que adormeci. Entendi isto
depois de um tempo que estava aqui. Acordei e
estava deitada num leito aqui, no hospital. Foi esta
tia que me auxiliou que conversou comigo e me
explicou. Senti aliviada ao saber tudo, foi melhor
saber a verdade do que pensar que estava louca.
-- Celina, voc no teve vontade de se vingar? -
perguntou Noel, comovido com a histria que
ouviu.
-- Eu no! Quem quer se vingar tem que se ligar
aos desafetos. Eu nem conheo aqueles assassinos
e no quero ficar perto deles. No tenho raiva de
ningum e no quero vingana.
-- Voc ama estes assassinos? - quis Noel saber.
-- No! Nem os amo e nem os odeio, eles me so
indiferentes.
-- Sabe por que eles a mataram?
-- Minha tia me contou. Lair  um ladro de carros.
Brigou com bandidos rivais. Sua primeira esposa
tinha vinte e dois anos quando tambm, por esse
motivo, foi assassinada com o filhinho de um ano.
Lair j assassinou vrias pessoas, bandidos como
ele. Temia por mim, por isto queria que ficasse
com meus pais. Como voltei, ele deixou dois
seguranas para me proteger. Quanto ao aborto, 
enfermeira no se enganou, ele colocou no vinho
uma droga que me adormeceu e depois fez com
que eu tomasse o remdio abortivo e me levou
para o hospital quando comecei a ter hemorragia.
A briga com a quadrilha rival no parou com a
minha morte fsica, continuou resultando na
desencarnao de muitos. Lair est encarnado, s
que com meu assassinato teve que fugir para no
dar explicaes para a polcia. Foi para longe, tem
outro nome e outra mulher, no sentiu minha
morte, pensou que antes eu do que ele. No tenho
raiva dele e desejo de corao que mude e seja
honesto. Se ele no sentiu, minha famlia sofreu
muito com minha desencarnao.
-- Agiu bem, Celina, se voc tivesse pensado em
vingar, no estaria aqui neste lugar bonito e de
paz. Estaria talvez no Umbral, sofrendo por fazer
outros sofrerem - disse Noel.
-- Acho Noel, que no precisamos fazer ningum
sofrer. Temos o retorno de nossas aes. A minha
desencarnao violenta deve ser uma reao, no
sei qual a ao que fiz, talvez venha saber um dia.
Mas sei que provei a mim mesma que sou capaz
de perdoar e de no querer vingana.
Conversaram mais um pouco, Celina despediu-se e
voltou para seu quarto. Noel ficou pensando e
entendeu que a maioria dos desencarnados tem
uma histria. Achou Celina prudente no querendo
se vingar e que realmente passara por uma prova.
Muitos falam em perdo, mas s podemos dizer
que somos capazes de perdoar, quando temos
motivos e o fazemos.
Voltou para seu aposento. No outro dia, acabara
de acordar quando Gabriel entrou no quarto e
falou alegre:
-- Papai, vamos ao jardim, temos uma surpresa
para voc!
-- Papai! Mame! So eles que vieram me ver?
-- No estrague a surpresa. Vamos logo! - Gabriel
disse rindo.
Quando Noel viu os dois no jardim, de p em
frente a um banco, correu para eles, abraando-os.
Choraram emocionados, a me o beijou.
-- Por favor, mame, me d mais beijos! Como 
gostoso o abrao do papai, os beijos de me! -
exclamou Noel.
Gabriel se afastou, os trs sentaram juntinhos no
banco e ficaram minutos sem falar nada, felizes
pelo encontro.
-- Como voc est meu filho? No viemos antes
v-lo porque temamos emocion-lo demais.
Gabriel   nos    dava    notcias   -   falou  Ari
carinhosamente.
-- Eu estou bem, papai.
-- Moramos numa casinha muito linda com mais
trs amigos e j arrumamos seu quarto, ficar
conosco - expressou Mara.
-- Que bom! Estaremos novamente juntos! -
exclamou Noel alegre.
-- Meu filho, voc est com vontade de voltar a
Terra? Por favor, no volte! Prometa que no o
far. Mesmo se estiver com vontade, no o faa.
Me d sua palavra que no sair daqui sem
permisso - rogou Ari, em tom suplicante.
-- No se preocupe papai, nem me passou pela
cabea voltar a Terra.
-- Ari, no amole o menino - pediu Mara. -- Ele
no era apegado  matria, no deixou afetos l,
ns, que o amamos estamos aqui. Ele no ir
querer voltar. Meu Noelzinho vou falar a voc
como  a vida aqui, nosso lar  muito bonito, tem
um jardim com muitas plantas como voc gosta.
-- Que fazem aqui, mame? - perguntou Noel.
-- Eu trabalho no Educandrio, ajudo a cuidar das
crianas - respondeu Mara.
-- Trabalha junto de Gabriel? - quis Noel saber.
-- Gabriel trabalha l, mas em outro setor.  de
muita importncia o trabalho dele.  um mdico
estudioso! Meu neto  importante! - exclamou
Mara.
-- E o senhor, papai, que faz?
-- Trabalho no setor de tecidos. Aqui, Noel, no
aparece nada do nada, tudo  fruto de atividades,
do trabalho. Gosto muito do que fao. Estamos,
Mara e eu, fazendo cursos de aprendizes do
Evangelho      e     estudamos      para    adquirir
conhecimentos. Tambm fao parte de um grupo
que leva crianas para passear - respondeu Ari.
Conversaram animados. Noel ficou muito alegre
com a visita dos pais e por saber que moraria com
eles. Dias depois, estando bem, teve permisso
para sair do hospital e o fez acompanhado dos
trs, dos pais e de Gabriel. Foram andando
devagar pelas ruas arborizadas e muito limpas e
Noel admirava tudo.
-- Aqui, meu filho, est o prdio da administrao,
ali, o Departamento da Reencarnao, do outro
lado est o teatro, onde vamos ouvir muitas
interessantes palestras, ver peas teatrais e
musicais - explicou Mara.
-- Do outro lado esto s escolas, e indo em frente
por esta outra avenida defrontaremos com o meu
local de trabalho -falou Ari.
Noel queria gravar todas as informaes, desejou
ver tudo com mais detalhes, compreendeu que
teria muito tempo para isto. Os pais estavam
alegres e ele se deixou contagiar pelo entusiasmo
deles. Gostou muito do que via uma cidade
projetada, bonita e simples. Os prdios sem luxo,
grandes, abertos, eram os locais de trabalho de
muitos moradores e estes transitavam pelas
avenidas, pareciam todos bem, sem pressa e
cumprimentando uns aos outros.
-- Que bom se na Terra fosse assim! - expressou
Noel.
-- Lembro a voc, papai, que aqui  tambm a
Terra! Estamos no espao espiritual do planeta e
somos seus habitantes - esclareceu Gabriel.
-- E para ir ao Educandrio  s seguir esta
avenida  esquerda. Vamos continuar indo em
frente e logo chegaremos ao nosso lar - falou
Mara, mostrando com a mo.
E chegaram logo. Noel achou a casa uma graa,
era pintada de azul e branco, cercada por um
jardim com muitas flores. Entraram, e na rea da
frente estavam trs pessoas que Mara apresentou:
-- Aqui est o nosso Noel! Meu filho, esta  Maria
das Dores, que ns chamamos de Tininha; este 
Emlio e este  Geraldo, amigos que moram
conosco.
Abraaram Noel, dando-lhe as boas-vindas. Logo
Emlio e Geraldo tiveram que sair, iam trabalhar, e
Noel pediu licena para ver a casa. Tinha seis
quartos, um para cada morador. Mara e Ari tinham
quartos separados, para ter privacidade. Sua me
lhe mostrou tudo.
-- Essa sala  de visita, aqui na Colnia nos
visitamos sempre, esta  para as refeies e a
cozinha, no temos muitos alimentos, abasteci
para servir voc, raramente nos alimentamos e,
quando fazemos,  no local de trabalho. Aqui  o
seu quarto!
Noel entrou e se emocionou. A decorao era
simples, tinha tudo de que necessitava, em cima
de uma mesinha estavam os seus livros, os de
estudos da Doutrina Esprita.
-- Gabriel os plasmou para voc, achamos que
gostaria de rel-los. E, se quiser ler outros,  s ir
 biblioteca. Levarei voc l! Agora vou deix-lo,
fique  vontade.
Mara o deixou sozinho, Noel examinou tudo, pegou
os objetos, estudou-os detalhadamente.
"A impresso que tenho  que estou no fsico. No
devo estranhar. Vivo agora com o corpo
perispiritual e usarei objetos da matria deste
corpo. Isto para que continue a viver sem muitas
modificaes", pensou.
Saiu do quarto, andou pela casa e continuou a
observar. Tudo era acolhedor, til, e ele achou
muito bonito. Depois foi ao jardim, encantou-se
com     as    flores,  olhou-as     demoradamente.
Maravilhado com as novidades, nem viu o tempo
passar. J estava escurecendo quando sua me o
chamou para tomar um caldo. E Gabriel foi v-lo.
-- Papai, amanh a vov ir lev-lo  biblioteca e
matricul-lo no curso de Evangelizao, onde
estudar com outras pessoas os ensinamentos de
Jesus. Tambm far um curso para aprender a
volitar e outro em que ter conhecimentos de
como se alimentar aqui. E logo poder fazer um
estudo para conhecer o Plano Espiritual.
-- Gabriel, quero fazer alguma coisa. Ser que no
posso cuidar do jardim?
-- Claro, vou lhe trazer um manual de como cuidar
das plantas aqui. Vou pedir tambm para que
possa ir junto com o vov no seu trabalho e servir
l, por algumas horas - falou Gabriel.
No outro dia cedinho, Gabriel lhe trouxe o manual
e Noel leu e releu as informaes de como cultivar
as plantas e depois foi para o jardim trabalhar.
Com os cursos e duas horas de trabalho com o pai,
Noel tinha muito que fazer e isto lhe fez muito
bem. Estava sempre conversando com os outros
moradores da casa, falavam do trabalho, dos
acontecimentos do dia-a-dia, eles estavam sempre
alegres e eram prestativos com ele. Noel os achou
simpticos e gostou deles.
Achou a biblioteca muito interessante, espao
confortvel, com muitas estantes com diversos
ttulos e s tendo bons livros, os que ensinam,
esclarecem leituras que do consolo. O prdio era
grande, dividido em vrios sales para vrios
assuntos. Noel interessou-se pelos religiosos e os
de     cincias    biolgicas.   Muitas     pessoas
trabalhavam ali e informavam com preciso o que
o leitor queria saber. Noel pegou muitos livros e os
lia com interesse; quando queria saber algo mais e
explicao de determinado assunto, o pessoal da
biblioteca o esclarecia com prazer.
 noite. Noel e os pais ficavam sempre na sala
conversando, relembrando os acontecimentos que
viveram encarnados, fatos de sua infncia e
juventude. Gabriel, sempre que podia, reunia-se a
eles. Num destes encontros, ele chegou e indagou
como o pai estava.
-- Estou bem - respondeu Noel --, encantado com
a beleza e simplicidade daqui. Sou tratado com
mimos e nada me falta.
-- Voc j se acostumou aqui, no ? No quer
voltar, no , filho? - perguntou Ari.
-- Claro que no! Papai sinto-o preocupado com
isto. Por qu? - indagou Noel.
--  porque voltei, sofri e fiz sofrer - respondeu Ari.
-- No tive uma desencarnao tranqila como a
sua. Fiquei doente, padeci muito e estava
preocupado em deixar Mara tambm doente e
voc jovem demais com tantas responsabilidades.
Senti deixar tudo o que tanto gostava. Ao ter meu
corpo fsico morto, fui desligado por amigos, ex-
empregados, e levado a um Posto de Socorro,
onde continuei doente, o reflexo do corpo carnal
era forte em mim. Quando fiquei sabendo que
desencarnei, chorei muito. Quis ficar livre das
dores e isto foi acontecendo aos poucos. Mara
desencarnou e ficou no posto comigo. Sentindo-me
melhor, foi me dando vontade de estar perto de
voc, da fbrica. Escutei muitos conselhos e
esforcei-me para resistir ao desejo de voltar.
Quando senti voc com problemas, no resisti e
voltei sem permisso.
-- Papai - falou Gabriel --, temos o nosso livre-
arbtrio respeitado pelos bons espritos. Aqui nas
Colnias, nos Postos de Socorro, locais de auxlio,
os abrigados so ajudados e  ensinado como se
deve proceder, mas no so presos, ficam se
quiserem.
-- Como no querer ficar aqui? - perguntou Noel
espantando.
-- Pelo apego  matria - respondeu Ari.
-- No s a objetos, a afetos tambm - disse Mara.
-- Aqui respeitamos o livre-arbtrio - voltou Gabriel
a esclarecer. -- Isto no acontece no Umbral, l,
vemos muitos ficar sem querer. Os moradores,
espritos maus, fazem muitos imprudentes de
escravos, prendem-nos e eles no conseguem sair.
Isto acontece, papai, porque, ao desrespeitar o
prximo, somos desrespeitados, ao maltratar,
podemos ser maltratados.
-- Conta-me, papai, que aconteceu? - pediu Noel.
-- O senhor voltou? Foi para a fbrica?
-- Fui para perto de vocs - respondeu Ari
suspirando.
-- E eu - falou Mara -- vendo que voc, meu filho,
estava passando por muitas dificuldades e que Ari
me escondera um fato importante e, a meu ver,
ele no estava agindo correto com voc, tambm
voltei. Sa do Posto de Socorro sem permisso e fui
vigiar Ari e confundimos tudo.
-- Explique-me o que ocorreu, por favor - pediu
Noel.
-- Acho que est na hora de voc saber - disse Ari
--, vou contar. Mara e eu casamos apaixonados e
eu era obcecado por ter filhos. Mara no
engravidava. Ela tambm queria t-los e por trs
vezes teve gravidez psicolgica, no contamos isto
a ningum, para todos ela perdera a criana.
-- Eu sofri muito por isto - interrompeu Mara. --
Queria um filho para agradar Ari, fizemos
tratamento com um mdico na capital e, quando
ele me disse que tinha tido gravidez psicolgica,
angustiei-me. Na terceira vez, at meu ventre
cresceu, para todos estava grvida de seis meses.
Fiquei to desesperada no consultrio do mdico,
que ele me recomendou que ficasse algumas
semanas numa clnica de repouso. Ari me levou,
estava muito deprimida e ele ia me ver todos os
finais de semana. E, a, ele teve uma idia.
"Mara" - disse ele -- "vamos adotar um nen. No
contei a ningum que perdeu este."
"No perdemos, no estive grvida" - corrigi.
"No importa o que aconteceu, mas sim o que
podemos fazer. Disse a todos que voc est
internada para que o nen no nasa antes do
tempo. Entrei em contanto com um mdico que
trabalha com adoo, ele me disse que nos arruma
uma criana recm-nascida. Ele est tratando de
uma moa branca, loura, solteira, que nem quer
ver o filho que espera, quer do-lo. Esta mulher
nem ficar sabendo o sexo do nen e nem quem
ir adot-lo. Ser nosso! Para todos, voc teve a
criana e voltaremos para casa com o nosso filho."
"Ns queremos tanto um filho e algum o tem e
abandona!" - suspirei, animei-me com a idia e
exclamei: "Quero Ari! Quero o nosso filho!"
-- Sarei, acabou a depresso com nosso problema
resolvido. Sa da clnica e fiquei num hotel na
cidade montanhosa e tranqila, longe da que
morvamos. Esperei ansiosa a chegada do nen,
comprei o enxoval e, dois meses depois, Ari me
trouxe voc. Foi um presente de Natal, do Papai
Noel!
Mara parou de falar, enxugou umas lgrimas. Noel
balbuciou:
-- Sou adotivo!
-- S de me. Voc  filho de Ari! - exclamou Mara.
Silncio calaram por segundos at que Ari falou:
-- No tenho justificativa, errei, assumo e me
arrependo ainda bem que Mara me perdoou. No
tinha motivos para trair minha esposa, mas fiz.
Conheci Rosa Maria em uma das minhas viagens,
ela residia perto da cidade em que morvamos e
tivemos um romance. Era casada e o marido
viajava muito. E minha amante ficou grvida.
Tnhamos problemas parecidos. O mdico me
confirmou que Mara tinha um problema srio e
que nunca ia engravidar. O marido de Rosa Maria
era estril. Como eu no falara a Mara de seu
problema, ela tambm no falou ao marido. O filho
que ela esperava era meu, no tinha dvida, e
ficamos sem saber o que fazer. O marido dela
ficou feliz com a notcia e eu queria meu filho, e,
a,   soubemos     que    seriam     dois  gmeos.
Resolvemos que um ficaria comigo e outro com
eles. E foi isto que aconteceu, nasceram dois
meninos, peguei voc, levei-o para Mara e
voltamos felizes para casa. No descuidei do
outro. Rosa Maria no era rica, o marido tinha um
caminho e fazia fretes. Comprei um bilhete de
loteria premiado e lhe dei. Quis que meu outro
filho ficasse perto de mim, pedi isto a ela, que
influenciou o marido e mudaram para nossa
cidade. Sempre lhe dei dinheiro e, para que o
marido no desconfiasse, ela lhe dizia que sabia
lidar com as finanas. Ajudei-a na compra de um
caminho novo, uma boa casa, dois apartamentos,
paguei os estudos dele. Ningum ficou sabendo.
-- Quem  meu irmo? - perguntou Noel baixinho.
--  uma grande revelao saber agora que tenho
um. Por favor, me diga quem  ele? Ser Drcio?
No, a me do meu amigo no se chama Rosa
Maria. Eu o conheo?
Novamente se fez silncio. At que Ari respondeu:
-- Carlos!
Noel quis dizer algo, no conseguiu. Recordou dos
muitos comentrios de que eram parecidos.
Tentou lembrar-se da fisionomia de Rosa Maria,
sua me, no conseguiu. No a sentia como me,
vira-a poucas vezes e no prestara ateno nela.
Nunca notou que ela o observava que o olhava
diferente.
-- A senhora ser sempre minha me - disse Noel
abraando Mara. -- No ? Minha me  a
senhora!
-- Meu filho! Sim, voc  meu filho!
Lgrimas correram abundantes pelo rosto de
todos, depois de uma pausa, Ari continuou a
narrar:
--    Quando     desencarnei,     fiquei  bastante
perturbado, dois ex-empregados me socorreram.
Achei o Plano Espiritual muito diferente do que
imaginara e no gostei de estar desencarnado.
Meu estado no era bom, quando Mara veio estar
comigo, mas mesmo com ela perto no me
adaptei, queria estar encarnado e por isto no
conseguia me livrar dos reflexos do corpo fsico e,
conseqentemente, das dores que tive com a
minha doena. No gostamos de Ndia e nem de
voc ter se casado com ela, e quando vi que sua
esposa o traa, e com Carlos, quis sair do Posto de
Socorro. Embora tenha recebido muitos conselhos,
no adiantou, sa e fui para perto de vocs. Foi
uma grande imprudncia, piorei meu estado,
perturbei-me, s vezes at me iludia, achando-me
encarnado. E, comigo por perto, s piorou a
situao de vocs. Por isto. Noel, que pedi a voc,
e lhe rogo, que no volte a Terra sem permisso.
Mara havia ficado no Posto, veio at mim para me
convencer a voltar, a lhe contei este segredo, ela
ficou to furiosa que at me deu uns tapas. Como
ns dois estvamos muito ligados  matria,
sentamos seus reflexos e estas agresses podiam
ser sentidas. Fiquei vagando entre os encarnados,
principalmente perto de voc e de Carlos. No
queria que brigassem e tentava fazer Carlos
afastar-se de Ndia. E Mara resolveu ficar, sem
autorizao, perto de mim, para me vigiar, ela
temia que voc pudesse ser prejudicado. No
fomos  causa do que aconteceu, mas pioramos a
situao causando raiva, impacincia, cansao. Foi
muito triste!
-- Estou lembrando agora do dia em que Gabriel
desencarnou, escutei-os brigar, pensei que era
impresso - falou Noel.
-- Pois no foi - disse Ari --, estvamos com voc
no apartamento, vimo-lo chorar e sofremos juntos.
Mara me acusou, para ela, naquele momento, era
eu o culpado. Quando voc gritou conosco, foi
assim que nos sentimos; ento percebemos que o
estvamos prejudicando. Samos do apartamento,
ficamos num canto da fbrica, sentamos no cho e
choramos. Rezamos e pedimos ajuda  noite toda;
de manh um socorrista veio nos buscar. Desta
vez, o socorro foi diferente, entendemos a
necessidade de aceitar a mudana de plano,
adaptar, melhorar, ser til, e, o principal, ser grato.
E, ento, melhoramos. Mara me perdoou e quero.
Noel, lhe pedir perdo.
-- Papai, o senhor no precisa me pedir nada,
sempre foi um bom pai. No me sinto prejudicado
por ter voltado, ficado naquela poca perto de
mim, se fez isto foi porque no tinha compreenso
e no foi por mal - falou Noel.
--    Somos       responsveis      quando       temos
oportunidades de aprender e no o fazemos.
Quando encarnado, poderia ter entendido todo
este processo, o da desencarnao. Ter vivido
melhor; entretanto, vivi como se nunca fosse
morrer, ou seja, fazer esta mudana de plano.
Obrigado, Noel, por me compreender. Sempre
senti orgulho de t-lo como filho! -expressou Ari
emocionado. Abraaram-se.
-- Queria ficar sozinho - pediu Noel.
Seus pais levantaram-se e saram. Gabriel colocou
as mos em seu ombro e disse:
-- Como v papai, sempre temos motivos para
amar os inimigos!
Noel ficou sozinho, foi ao jardim, tentou distrair-se
olhando as flores, mas no conseguiu. Pensou em
Carlos.
"Se o tivesse prejudicado mais, vingando-me como
planejei no comeo, como estaria agora? Sentindo
remorso por ter magoado meu irmo!"
Sentiu vontade de chorar. Foi para o quarto,
deitou-se no leito.
"Agora vou chorar! Aqui ningum me v!" -
pensou. Mas em vez de chorar, lembrou do rosto
do irmo e sorriu:
-- Carlos, amo voc! - exclamou. E adormeceu
tranqilo.




                 A PALESTRA

Noel acordou disposto, escutou barulho na sala, foi
para l e encontrou Emlio e Geraldo conversando.
Cumprimentou-os sorrindo.
-- Espero no t-lo acordado - falou Emlio.
-- No, s ouvi barulho depois que levantei - disse
Noel.
-- Vamos demorar um pouco para ir ao trabalho,
sente-se aqui e participe de nossa conversa -
convidou Geraldo.
--    Onde   vocs     trabalham?    Que     fazem?
Desencarnaram h muito tempo? - perguntou
Noel, e, percebendo que fizera muitas perguntas,
sorriu.
-- Eu trabalho no hospital - respondeu Geraldo. --
Emlio fez um estudo especial na escola e dedica
oito horas por dia a cuidar de desencarnados que
fizeram a mudana de planos com muita idade.
-- Desencarnei h sete anos - disse Emlio -- e
Geraldo h vinte e dois anos. Ele morava aqui com
a esposa, digo, com Eliane, com quem foi casado,
encarnado. Ela reencarnou h trs anos.
-- Geraldo, voc amava sua esposa? No est
sentindo falta dela? - indagou Noel.
-- Somos espritos afins, isto , temos gostos
comuns, combinamos muito e nos tornamos
grandes amigos. Ela quis reencarnar para
continuar um trabalho que deixou inacabado, eu
poderei ajud-la daqui - respondeu Geraldo.
-- E se ela casar com outro l? - perguntou Noel.
Os dois riram e Geraldo respondeu:
-- Noel, isto poder acontecer e acho certo. Eliane,
que agora tem outro nome, merece encontrar uma
pessoa boa que lhe d apoio no estgio
encarnado. Quero, vibro, para que ela tenha este
perodo no fsico com muitas alegrias - respondeu
Geraldo tranqilo.
-- Vocs no vo se encontrar mais? - Noel quis
saber.
-- Afetos no se separam uma vez amigos, sempre
amigos - respondeu Geraldo sorrindo.
--    Emlio,   por   que    voc    trabalha   com
desencarnados que fizeram a passagem para c
idosos? - Noel perguntou curioso.
-- Desencarnei com muita idade, noventa e sete
anos e fiquei muito tempo sozinho. Casei muito
novo, aos dezoito anos, tive cinco filhos, trs
desencarnaram jovens, uma menina, com nove
anos, com tifo; um garoto, com dezesseis, de
picada de cobra; e outro, com vinte e dois anos,
que j era casado e pai de dois filhos, este ficou
doente por meses. Os outros dois filhos mudaram
de plano com mais idade, mas antes de mim.
Fiquei vivo com sessenta e seis anos. Vivi
sozinho, os netos j estavam tambm velhos e
foram se afastando. Com a idade de setenta e
nove fui para um asilo. Foi um perodo triste, fui
tratado como um invlido l. s vezes me
deixavam fazer alguma atividade, outras achavam
que era velho incapaz de trabalhar. Senti muita
solido, mesmo tendo feito muitas amizades, as
quais tambm fui perdendo. Quase sempre os
internos saam de l para ir ao cemitrio, ao ter o
corpo fsico morto. A vida no asilo era uma rotina
tristonha, levantava, tomava o caf, esperava pelo
almoo, depois o lanche da tarde, o jantar, a hora
de dormir. Como era bom receber visitas, mas eu
as recebia muito poucas, alguns netos ou bisnetos.
Era uma alegria quando pessoas voluntrias iam
nos visitar conversar conosco, nos ouvir. Fiquei
doente, dois anos no leito, no andava, falava
pouco. Fiz minha passagem quietinho, dormi l e
acordei num Posto de Socorro. Aqui no encontrei
parentes, a esposa e os filhos haviam
reencarnado. A equipe de trabalhadores desta
casa de auxlio modificou meu perisprito,
remoou-me para me ajudar, para no sentir tanto
o reflexo da velhice e me achar incapaz.
Permaneci no posto alguns meses, depois vim
para c. Aqui na Colnia estudei e estou me
preparando para ir trabalhar com os encarnados,
vou fazer parte de uma equipe que auxilia os
idosos em instituies.
Noel prestou muita ateno no relato de Emlio,
achando muito interessante. Virou-se para Geraldo
e indagou:
-- E voc, desencarnou de qu? Qual foi o motivo
do seu corpo fsico ter morrido?
-- Por uma doena do corao - respondeu
Geraldo. -- Fumava muito e sabia que o fumo fazia
mal, como tambm trabalhava demais, e com
quarenta e seis anos tive um infarto fulminante
que me fez mudar de plano. Fiquei muito confuso,
no entendi o que me acontecera. Senti uma dor
forte e achei que desmaiei. Um orientador me
disse, aqui, tempos depois, que fui desligado do
corpo no hospital dos encarnados para onde fui
levado ao passar mal. Fiquei no abrigo da parte
espiritual deste sanatrio. Dias depois, sa
desorientado e fui para minha casa. Vibrando de
forma to confusa, perturbada, comecei a
prejudicar, sem querer, minha famlia, que
passava por momentos difceis com meu
falecimento. Uma irm de minha esposa a
convidou para ir num Centro Esprita, ela foi e l
pediu por mim. Socorreram-me, recebi uma
orientao por uma incorporao, numa sesso de
desobsesses, aproximei-me de um mdium,
disse-lhe o que pensava e ele falava; um
orientador encarnado me doutrinou. Levei um
susto ao saber o que ocorrera comigo. Trouxeram-
me para c, esforcei-me para me adaptar e quis
ser til. Faz tempo que moro aqui e gosto muito de
viver sem o corpo fsico. Pena que, para entender
isto, tive que sofrer um bocado. Agora, Noel,
temos que ir trabalhar, j falamos muito, espero
que no o tenhamos cansado.
-- Foi um prazer ouvi-los, tive duas boas lies
com os seus relatos. Bom trabalho!
Saram e Noel pensou: "Todos aqui trabalham
muito e eu quero tambm servir."
Pegou o folheto com os cursos que havia na
Colnia e examinou-os. A tarde se inscreveu em
todos que conseguiu. Organizou bem seu horrio.
De manhzinha aprendeu a lidar com as plantas.
Fez o curso para aprender a volitar, de como se
alimentar, e at outro,  noite, no teatro, de como
representar.
Conheceu toda a Colnia e fez muitos amigos. Em
atividade, nem sentia o tempo passar. E continuou
cuidando do jardim da moradia deles e os dos
vizinhos. s vezes ia com a me no trabalho dela e
por duas horas ficava com o pai na grande fbrica
da Colnia, onde confeccionavam as vestimentas
usadas no Plano Espiritual. Ari explicou-lhe que as
roupas podem ser plasmadas pelos desencarnados
que sabem, e as fbricas existem para dar
atividades aos muitos desencarnados que ainda
no esto preparados para outras tarefas.
Ari e Mara se entendiam bem e Noel gostou de ser
mimado pelos dois e por todos os moradores que,
nas suas folgas, saam com ele para passear.
Numa tarde, Tininha o convidou:
-- Noel, voc no quer ir comigo ao bosque?  um
lugar encantador.
-- Quero! Obrigado por me convidar.
Foram no outro dia, pegaram um aerobs, pois
este recanto fica numa das extremidades da
Colnia. Passear neste veculo  muito agradvel,
os que circulam pela cidade espiritual tm janelas
amplas e vo devagar. Noel aproveitou para olhar
tudo e concluiu que esta moradia dos
desencarnados           realmente     maravilhosa.
Desceram na entrada. O bosque  um lugar com
muitas rvores e um lago muito lindo de guas
cristalinas. Noel e Tininha andaram por todo
recanto. Ele observou tudo, curioso, e perguntou:
-- Que rvore  esta? Tem muitos anos? D frutos?
Tininha sorria, respondeu algumas, outras foram
indagar aos encarregados de cuidar do local. Noel
ento soube que as rvores tinham vida longa,
que muitas eram de espcies conhecidas no plano
fsico. Depois que conheceu tudo, sentaram num
banco. Noel lembrou-se da ilha, falou dela a
Tininha, depois pediu:
-- Fale-me de voc. Quanto tempo desencarnou e
de qu?
-- Para que voc entenda minha histria, vou
comear contando a voc, Noel, a encarnao que
tive anterior a esta ltima, porque tudo comeou
nessa minha reencarnao passada, no sculo
XVIII, antes de ter recebido o nome de Tininha.
Morava numa cidade pequena, fui muito bonita e
meus pais me casaram, isto , arrumaram um
casamento para mim, quando eu fiz quinze anos.
No amava meu esposo, quis am-lo, esforcei-me
para isto, s que no consegui, era sonhadora,
muito ingnua e sonhava com um amor romntico.
Antes de fazer vinte anos, j tinha trs filhos e um
marido que era doze anos mais velho, ciumento e
grosseiro. Sofria por isto e tinha at medo dele.
Queixava-me muito que era infeliz aos meus pais e
os culpava por me terem feito casar jovem e por
no terem escolhido um bom marido para mim.
Um primo do meu esposo foi passar uns tempos na
cidade e nos visitava sempre. Esse moo era
gentil, calmo, muito inteligente e apaixonou-se por
mim e eu por ele. Um dia ele deixou algo numa
gaveta da sala de minha casa, me fez um sinal
indicando, compreendi que era alguma coisa para
mim e, quando fiquei sozinha, fui rpida abrir a
gaveta; era uma carta, uma missiva apaixonada
que me deixou feliz. Passamos ento a nos
corresponder. Ficou ento mais difcil suportar o
marido e decidi mat-lo, livrar-me dele. No contei
a ningum, nem a este moo, que certamente no
concordaria.    E   surgiu,   logo   depois,    uma
oportunidade. Um irmo do meu esposo, que
morava perto, foi uma noite nos visitar e eles
tomaram muito vinho, meu esposo deitou-se
completamente       embriagado.      Ele     dormiu
imediatamente e eu o sufoquei. Friamente,
coloquei o travesseiro no seu rosto, ajoelhei em
cima, segurei com toda fora. Ele se debateu, mas
no conseguiu me vencer, s soltei minutos
depois, quando no se mexia mais. Constatei que
estava morto, arrumei tudo como de costume,
tentei dormir, no consegui, estava aliviada, livre
para amar e ser amada. Tentei me tranqilizar
fazendo planos e pensando em como seria feliz. S
quando ouvi o barulho da empregada na cozinha
foi que me levantei, troquei de roupa e gritei. Logo
a casa se encheu de gente, o mdico veio e
constatou que ele estava morto. Falei que meu
esposo deitara tarde, estava bbado e que nada
ouvi. Naquele tempo no tinha como investigar,
acharam que seu falecimento se dera por alguma
doena do corao ou que ele se engasgara com
vmito por estar embriagado demais. Fiquei feliz
por estar viva, poderia me casar com o moo que
amava, passamos a nos corresponder mais ainda.
Achei que meu sogro estava desconfiado; ele me
fez muitas perguntas e estava me vigiando.
Escrevi ao meu amado e pedi que fosse me
buscar. Fugi largando meus trs filhos com a
empregada, com a ordem de deix-los com meu
sogro.
No local marcado, ns nos encontramos, partimos
de carruagem puxada por dois cavalos. Levei
poucas coisas, algumas roupas. Ele sentou-se ao
meu lado feliz por estar comigo, pela primeira vez
ficamos a ss, ele segurou minha mo, amos para
uma cidade longe daquela onde morava. No
caminho, ficamos sabendo que havia pela estrada
alguns escravos fujes que estavam atacando as
pessoas e que um grupo comandado por um
capito-do-mato os perseguia e que deveramos
ter cuidado. Ele quis parar ou voltar, eu no, fiquei
com medo de que meu sogro desconfiasse que eu
assassinasse meu esposo.
Continuamos a viagem, apreensivos, chegamos
num trecho em que a estrada estava muito
perigosa, porque havia tido um deslizamento.
Ouvimos tiros e resolvemos ir em frente fazendo
os cavalos irem mais rpido. Com os tiros mais
perto, os animais se assustaram e, ao passar por
um pedao estreito, a terra deslizou e camos num
precipcio. Desencarnamos no acidente. Foi um
perodo confuso e de muito sofrimento. Ficamos
perturbados, os trs, e meu esposo nos acusava.
Esse moo foi socorrido primeiro, ns dois ficamos
por um tempo no Umbral, ele sofria e me fazia
sofrer muito. Fui socorrida em lastimvel estado,
muito perturbada. Ele no quis o socorro, no quis
perdoar e ainda queria se vingar. Mesmo
socorrida, padeci muito com o remorso, quis
esquecer e recomear e me foi dada a bno da
reencarnao. Voltei ao Plano Fsico tendo os
mesmos pais, eles quiseram me receber porque
sentiam que erraram me obrigando a casar e por
no terem ouvido minhas queixas.
Tininha fez uma pausa, suspirou, Noel ficou quieto,
olhou-a com carinho, ela sorriu triste com as
lembranas e continuou a falar:
-- Noel, gosto muito do livro O Evangelho Segundo
o Espiritismo, leio sempre o texto: "Honrai vosso
pai e a vossa me." Esta leitura fala
profundamente aos meus sentimentos.
So muitos os pedaos que sei de cor: "O
Espiritismo vem lanar Luz sobre os problemas do
corao humano. No h caridade sem o
esquecimento das ofensas e das injrias, no h
caridade com dio no corao e sem perdo."
Ela fez novamente uma pausa, passou as mos
pelos cabelos castanhos cacheados, olhou para ele
e voltou  narrativa.
-- Com trs anos, desencarnei com difteria,
sofrendo muito com asfixia. Fui socorrida e, pouco
tempo depois, reencarnei novamente no mesmo
lar. Tive s uma irm, muito mais velha. Meus
pais, quando nasci, j no eram to jovens, eles
me amavam muito e cuidaram sempre de mim. E
meu ex-esposo no me perdoou, cursou uma
escola de vingadores no Umbral, preparou-se,
achou-me encarnada e me perseguiu com dio e
paixo. A presena dele junto a mim me
perturbava, era obsediada, ele me dizia sempre
meus erros do passado. Fiquei confusa e adoeci a
culpa fez adoecer meu crebro, s vezes ficava
muito deprimida, outras perturbava. Fui muitas
vezes internada em casas de repouso. Nada para
mim dava certo, namorados se afastavam logo,
no conseguia fazer bem nenhum trabalho, por
isso no parava em empregos. Meu pai
desencarnou e dois meses depois foi mame que
mudou de plano. Fiquei sozinha na casa que recebi
de herana. Minha irm, j idosa e sempre doente,
pouco me dava ateno e me internou numa
clnica; desta vez para no sair mais. Fiz amigos l,
senti, porm, muita solido. Este esprito que me
odiou se vingou mesmo. Fiquei doente, cncer nos
pulmes, no padeci muito com a doena, ela
espalhou pelo meu corpo rpido e a medicao
agravou uma enfermidade no corao. Faz trs
anos que desencarnei. Foi numa tarde chuvosa de
outono, com cinqenta e seis anos. Fui socorrida,
mereci ser, nesta encarnao no cometi erros,
sofri muito, apreendi a ser resignada e sempre que
pude ajudei as pessoas. No estranhei nada por
aqui. Havia lido muitos livros espritas, quando
estava na clnica. Fui, sou grata por ter sido trazida
para esta Colnia e me recuperei logo. Estou
morando com vocs, porque meus pais esto
estudando em outra Colnia, logo que voltarem
estaremos juntos de novo.
-- Que aconteceu com ele, o obsessor, seu ex-
marido? - perguntou Noel.
-- Vingou-se, e esta vingana no lhe deu
felicidade, como no d para ningum. Ficou me
vigiando o tempo todo que estive encarnada, me
fez sofrer. S que estas dificuldades foram para
mim um aprendizado que me ajudou a melhorar
minha maneira de ser, tanto que ao desencarnar
mereci ser socorrida e vir para uma Colnia. Agora
ele no me v mais, est no Umbral.
-- Voc no pensa em ajud-lo? - indagou Noel.
-- Agora no conseguiria - respondeu Tininha. --
No sei qual seria minha reao ao v-lo, como
tambm no sei qual ser a dele. Quando puder,
estiver preparada, posso tentar ajud-lo, pedir
perdo e perdo-lo, s que no quero ir sozinha e
nem ficar perto dele. Sei que voc vai dizer que
no o perdoei de fato.  que tenho medo dele,
pavor; quando penso nele, tenho vontade de
chorar e de me esconder. Como v Noel, no me
sinto preparada para v-lo.
-- Como ele perdeu tempo! - exclamou Noel. --
Voc foi socorrida, teve duas encarnaes,
modificou-se para melhor e ele continua na
mesma. Em vez de fazer algo de bom a si mesmo,
ficou com idia fixa na vingana. Voc viveu,
sofreu, aprendeu e ele no, o tempo precioso
passou e ele estacionou.
-- Quem se vinga, primeiro se prejudica - falou
Tininha. -- Desta vez, vou demorar em reencarnar,
e, quando o fizer, vou pedir para que seja longe
dele e espero no encontr-lo. Acho que s daqui
a trs reencarnaes  que talvez esteja
preparada para estar perto dele.
-- Tininha, eu tambm acho que voc agora no
est preparada para se confrontar com este
esprito. Deve dedicar-se ao estudo e trabalhar,
pois  assim que nos preparamos e aprendemos a
lidar com as dificuldades. Desculpa-me se a fiz
recordar algo to doloroso. Vamos ver de novo o
lago?
O passeio foi muito agradvel. Quando voltaram,
Noel foi para seu quarto e sentiu-se aliviado por
no ter se vingado como havia planejado e era
agradecido por ter lido os livros espritas que o
fizeram mudar de planos. "Se tivesse me vingado"
- concluiu ele -- "teria perdido um tempo precioso
e no estaria aqui, neste local maravilhoso junto
de afetos."
Muitos em vez de cuidarem de si e tentarem estar
bem querem infelicitar o desafeto, podem at
prejudicar, mas se infelicitam.
Noel sentiu pena do ex-esposo de Tininha; a
vingana no lhe dera a satisfao esperada e
abrira um abismo entre os dois: este esprito sofria
com a falta dela, pois ainda a amava. Ele tambm
amou Ndia, e, como tudo passa, este amor
transformou-se em carinho, e agora a sentia como
uma amiga.
Gabriel veio logo depois v-lo e convidou-o:
-- Papai, hoje  noite ir ter uma palestra muito
interessante. No quer ir comigo?
Noel gostava muito de sair com o filho, achava-o
inteligente, estudioso, calmo, e explicava com
detalhes tudo que ele perguntava. No horrio
marcado, foram os dois para o teatro e Gabriel
esclareceu:
-- A palestra que iremos ouvir  sobre um tema
muito importante: "Amai os Inimigos". Teremos o
prazer de escutar um palestrante de outra
localidade que est nos visitando e tem estado em
vrias Colnias ensinando o Evangelho. Fez isto
com sabedoria, quando encarnado, e aqui no Plano
Espiritual continua sua tarefa de educador.
Noel se encantou com a beleza do teatro; havia
trs grandes na Colnia, este a que foram era em
crculo com o palco na frente da entrada. As
poltronas eram confortveis e enfeitava-o algumas
plantas em vasos. Com todos os Lugares
ocupados, uma senhora fez uma orao de
abertura e aps convidou todos a cantarem duas
msicas muito bonitas, hinos de amor  vida, de
incentivo ao trabalho e ao bem. Depois apresentou
o convidado, que encantou a todos com sua
simplicidade e pelo seu modo agradvel de falar.
Noel prestou muita ateno, memorizou o que
achou mais importante.
"Amai os vossos inimigos, texto do Sermo da
Montanha, contido no Evangelho de Marcos.
Palavras de Jesus ditas a uma multido, depois das
preciosidades das bem-aventuranas. O Mestre
ensinou e recomendou: Amai os vossos inimigos. 
este um dos dizeres mais repetidos nas igrejas
crists e talvez o menos praticado.
Mais que ningum, voc ser o beneficiado ao
perdoar, pois, ao faz-lo, livrar seu corao da
mgoa, do dio que maltrata e corrompe, da
agonia que o faz sofrer.
E como justificamos dizendo que sempre h
motivos para haver desavenas e por elas ter
desafetos.  pelo orgulho que ofendemos  toa,
nos melindramos por qualquer olhar ou palavra de
desprezo, exigncias que nos diminuem etc. E,
imprudentemente, achamo-nos muitas vezes no
direito de revidar as ofensas, vingar as injrias e,
se for algo mais grave, passa-se a odiar e torna-se,
infelizmente, inimigo. dio com dio cria uma
fora negativa, uma bola de neve em que um se
vinga do outro, levando ambos a sofrer. Se odiar a
quem me odeia, cria-se uma energia nociva, e, ao
continuar a ser alimentada, s multiplica. No s
aumenta as trevas daqueles que o sente, mas
tambm as minhas, e estas se espalham
ajustando-se s outras iguais. Inimigos esto nas
trevas, longe da Luz da compreenso e do perdo.
Para mim, deve ser indiferente se a pessoa
merece ser odiada; se a odeio, contribuo para
tornar o mundo pior, com mais energias nocivas.
Porque semelhantes se atraem, foras negativas
procuram outras, como as positivas, aumentando-
as. E, se quero a Terra melhor, devo contribuir
para que seja de boas vibraes. E, se odeio,
tornei-me pior, sou autor destes sentimentos ruins
e terei os efeitos deles em mim. Ningum pode
atingir algum sem atingir primeiro a si mesmo.
O que entra no homem no o torna impuro, mas
sim o que sai dele, isto, sim, o faz impuro. E o
dio, rancor, sai de dentro do indivduo. O mal que
recebo de algum, no me fez mal. E, antes de me
atingir, prejudicar, faz mal a ele mesmo, pois fez
dele malfeitor. E infeliz  o malfeitor, porque faz
para si prprio.
Agora, se algum  meu inimigo, mas eu no o sou
dele,  ele que est nas trevas, no erro. Ele me
odeia, no eu a ele. No estarei aumentando a m
energia, mas tambm se no destruo as deles, no
estarei fazendo nada por este indivduo.
E s o amor pode anular o dio. Com a Luz do
amor atuo positivamente, construindo, iluminando
as trevas e eliminando as energias destruidoras.
Anulando este sentimento inferior no outro, estarei
substituindo as trevas pela Luz e assim tornando
melhor o mundo, a casa que o Pai Criador nos deu
por moradia.
Para fazer do inimigo, amigo, em nossa gramtica,
 to fcil,  s cortar o prefixo negativo 'in'.  s
cortar o negativo em ns e no ficar neutro,
adquirir o positivo, o sentimento da amizade e
fazer do desafeto, amigo.
Amar seus inimigos  um ensinamento de muita
sabedoria para todos que querem cristificar,
caminhar rumo ao progresso. "Ama a si mesmo e
a todos como irmos que somos."
Terminando a palestra, o palestrante fez uma
orao muito comovente, que levou muitos a se
emocionarem, depois, ele ficou respondendo
algumas perguntas. Os convidados, no auditrio,
ficaram conversando fraternalmente sobre o
assunto. Noel quis ir embora, o que ouvira o
emocionou muito. Gabriel e o pai saram do teatro,
em frente havia uma praa encantadora com
canteiros floridos. Noel olhou para o cu e
comentou:
-- Como so lindas as estrelas, aqui vemos o
firmamento mais ntido.
--  verdade, papai, a natureza  to bonita,
deveramos ter sempre alguns minutos para
observ-la.  to prazeroso ver uma rvore, uma
flor, o cu azul, as nuvens, as estrelas.  uma
terapia para quem est nervoso cansado e triste.
-- Gabriel, arrependo-me por ter prejudicado
Ndia e Carlos. Se, na separao, tivesse tido mais
calma, compreenso, teria me entendido com sua
me. Se pudesse voltar atrs, no faria o que fiz.
Mas nada volta, o rio corre sempre no mesmo
lugar e as guas no so as mesmas.
-- Papai, esquea isso, se voc lembrar, que seja
s para tirar lies, para agir acertadamente no
futuro.  difcil encontrar algum que no tenha
errado, feito algo que no deveria ter feito. O
importante  reconhecermos nossos erros,
resolver    com     sinceridade,    construir  onde
destrumos e aprender a amar.
Foram andando devagar. Noel gostava de passear
pelas avenidas largas e mais ainda na companhia
do filho.
-- Gabriel, voc j teve inimigos? - perguntou Noel.
-- Devo ter tido. No me lembro. Nas
reencarnaes recentes no os tive e no quero
t-los - respondeu Gabriel falando rpido. -- No
quero ofender e nem me sentir ofendido. Posso ser
at prejudicado, receber uma maldade, acredito
que no farei nada, porque tenho inteno de no
revidar, de perdoar e tentar amar os autores das
desavenas.
--  por isto que  tranqilo, voc est
harmonizado! - exclamou Noel.
-- Quero estar sempre assim,  meu propsito de
vida!
Gabriel acompanhou o pai at em casa, depois foi
para o Educandrio, tinha trabalho a fazer. Noel foi
para o quarto e ficou pensando, estava se sentindo
muito bem, queria trabalhar, for til  comunidade
que o abrigara. Tentar ser um plo positivo para
anular o negativo e, para isto, teria que aprender a
amar de forma pura e verdadeira.
-- Como  bom escutar palestras edificantes! -
exclamou sorrindo. -- Ainda no perdi o hbito de
falar sozinho!
Pegou um livro para ler. Estava dormindo muito
pouco e alegrava-se por isto, tinha assim mais
tempo para estudar, instruir-se e ler. Ficou horas
lendo, deliciando-se com as informaes obtidas.
"Bendito seja o bom livro!" - pensou alegre.
                    VISITAS

Chegou o to esperado dia de Noel comear a
fazer um curso, o estudo para conhecer o Plano
Espiritual. Esses cursos so muito interessantes,
existentes    em   quase    todas  as   Colnias.
Desencarnados que esto aptos a ter esses
conhecimentos matriculam-se. Este estudo tem
data certa para comear e para terminar. No so
todos os desencarnados socorridos que os fazem,
para curs-los, precisam estar preparados, isto ,
ter plena conscincia de sua mudana de planos,
querer melhorar, ser til e aprender Mas no
existe s esta maneira de conhecer a
espiritualidade. Muitos que no querem estudar
vo trabalhar e aprendem no decorrer dos anos.
Esse estudo  muito importante, os estudantes
assistem s aulas tericas sobre um assunto ou
Lugar, depois vo conhec-los em excurses,
ajudando os trabalhadores do local em auxlio ao
prximo.
Noel ficou temporariamente hospedado na escola.
O primeiro encontro foi uma confraternizao em
que se conheceram, ele gostou de todos do grupo.
Ficou no quarto com Jlio, um senhor agradvel e
muito educado. Enquanto esperavam o incio da
primeira aula, ficaram conversando.
-- Acabei outro curso na semana passada. Fiz um
estudo de conhecimentos gerais. Encarnado, fui
um semi-analfabeto - falou Jlio.
-- Aqui se aprende a ler? A escrever?- Noel
indagou espantado.
-- Claro! Encarnado, quis muito estudar, no tive
oportunidade. Aqui, foi  primeira coisa que pedi
para fazer. Fiquei muito feliz por aprender. Por que
se espanta, amigo? Conhecimentos so adquiridos
com o esforo do trabalho e estudo. Muitos
pensam erroneamente que, ao ter o corpo fsico
morto, h uma transformao sem esforo, que o
desencarnado sabe e pode tudo. Nada disso:
necessita-se de aprender e o estudo  a melhor
forma. O indivduo no sabendo ler e nem escrever
ter dificuldades para fazer muitas coisas por aqui.
-- Se no souber ler no faz este curso? -
perguntou Noel.
-- Os analfabetos so convidados, incentivados a
fazer primeiro o que eu fiz freqentar a escola. Se
eles no quiserem aprender a ler, tero que
esperar um curso especial em que a parte terica
 mais simples e os instrutores explicam mais -
respondeu Jlio.
Noel achou interessantssimo o curso e estudava
animado, indagava muito e achou fantstico a
organizao do Plano Espiritual. Comentou isto
com seu instrutor e este lhe esclareceu:
-- Para que se tenha ordem e disciplina, tem que
haver harmonia entre os dirigentes. Aqui, para ser
administrador, tem que ter muitos anos de
desencarnado,        dedicao      ao      trabalho,
conhecimentos, carinho a comunidade. Tudo que 
feito aqui, em todo o Plano Espiritual,  para o bem
geral. Por isto. Noel  organizado porque  dirigido
com amor e sabedoria.
Gabriel foi visit-lo na escola e escutou por
minutos o pai narrar com eloqncia o que
aprendia no curso.
-- Estou falando como se voc no soubesse disso
- disse Noel rindo.
-- Alegro-me por v-lo to entusiasmado! -
exclamou Gabriel, sorriu e voltou a falar mudando
de assunto. - Papai, sei que tem livre as tardes de
quarta-feira e queria convid-lo a fazer umas
visitas comigo.
-- Vamos visitar quem? Amigos desencarnados?
Outras Colnias? - perguntou Noel.
-- Voc ir conhecer outras Colnias no decorrer
do curso. Vou lev-lo a Terra, at os amigos
encarnados - respondeu Gabriel.
-- No tenho pensado nos encarnados, no sinto
falta e nem tenho me lembrado deles. Estou
adaptado, o Plano Fsico ficou no passado e estou
aqui com muitos projetos e com propsito de
cumprir meus objetivos. Ser Gabriel, que me
sinto assim por no ter deixado grandes afetos por
l?
-- Gosta do Drcio? - perguntou Gabriel e Noel
afirmou com a cabea. -- Claro que tem afetos l,
amava ou ama muitos e  querido. Aqui teve a
alegria de estar com seus pais e comigo. Foi um
encarnado prudente no se ligando a bens
materiais e, esforado, adaptou-se rpido  nossa
maneira de viver.
-- Agradeo o convite e aceito. Aonde vamos?
-- Faremos trs visitas, na primeira quarta-feira o
levarei  ilha, na segunda,  fbrica e, na terceira,
para ver minha me - respondeu Gabriel.
Noel nem ficou ansioso. Envolvido no estudo, no
deu importncia s visitas programadas. Isto 
raro, normalmente os desencarnados gostam de
visitar afetos, anseiam por v-los e saber como
esto.
Na quarta-feira, Gabriel buscou o pai na escola, no
horrio combinado. Depois de abra-lo, falou:
-- Vamos sair da Colnia pelo porto! E vamos
volitando. Noel havia feito o curso de volitao,
gostava de volitar.
Durante esse aprendizado, saa diversas vezes da
Colnia, foi at o Plano Fsico, sem ir, entretanto, a
nenhum Lugar especfico.
Atravessaram o porto e, quando este fechou,
Noel o observou: era muito lindo, no alto estava
uma placa identificando a cidade espiritual. Esta
era toda cercada por muros altos e, do lado de
fora,  sua volta, havia alguns metros onde se
podia caminhar, depois o vazio, o espao. Estar ali
era como estar numa nvoa. Este pedao em volta
da Colnia no  igual em todas e, por incrvel que
parea, a viso que se tem deste local  diversa
aos desencarnados. Isto , muitos, ao v-la, a
descrevem de modo diferente, uns mais
acostumados no Plano Espiritual, e que sejam
observadores, tm a viso mais ampliada por
treino e sabem como elas so construdas, vem
de um modo, sem esta nvoa; outros, que no tm
tanto interesse, a vem sem detalhes. Esta nvoa
que Noel viu  a que a maioria dos desencarnados
v. Se algum esprito maldoso ou sofredor chegar
perto de uma destas cidades, normalmente s v
a nvoa; se chegar perto para pedir socorro pode
ser atendido ou at socorrido pelos trabalhadores
que cuidam da segurana.
Noel suspirou, sentiu que saa de seu lar. Gabriel
sorriu e falou:
-- Que bom, papai, voc j se sente como
morador! Vamos volitar rpido e de mos dadas.
Noel compreendeu que o filho sabia de sua
inexperincia e lhe deu a mo.
Volitar rpido  como pensar num Lugar e estar l.
Assim, segundos depois, estavam na vila dos
pescadores. O visitante olhou tudo, naquela hora
da tarde os homens estavam no bar conversando.
Ele ficou observando os amigos, viu por ali alguns
desencarnados e assustou-se, quando defrontou
com Man.
-- Gabriel, Man desencarnou e pelo visto no
sabe!
-- Vamos escutar seus amigos - disse o filho.
Noel ficou quieto, aproximou-se e ouviu Severino
falar:
-- Hoje faz dois meses que Man morreu. Ainda
no me conformei, primeiro foi Noel, nosso Papai
Noel que saiu da ilha para falecer na cidade de
forma esquisita, numa tempestade num lago,
depois Man, picado de cobra.
Man estava perto deles, escutou e chorou. Ele
no viu Gabriel e Noel. Desencarnados que no
conseguem entender o que ocorreu com eles
normalmente ficam perturbados, confusos e s
vem os encarnados e outros desencarnados
como eles.
-- Fique aqui, papai, vou levar Man para um
abrigo, um posto de socorro que temos logo ali, na
cidade vizinha.
Gabriel pegou Man, volitou com ele e Noel ficou
ali escutando os amigos, uns dez minutos depois,
Gabriel voltou e explicou ao pai:
-- Pedi abrigo no posto de auxlio para Man,
deixei-o l, ser atendido e espero que fique bem.
Vamos agora  sala de atendimento que voc
mandou construir.
No era o dia de o mdico ir, o local estava vazio.
Entraram, Gabriel explicou:
-- Aqui  a salinha de espera, nesta outra, o
consultrio do mdico, aqui  a pequena farmcia
e, neste cmodo, funciona uma pequena
enfermaria.
Havia nesta sala duas camas hospitalares
confortveis e alguns aparelhos de emergncia.
-- O mdico est treinando a professora e outra
senhora que  parteira para ajudar os enfermos.
Aqui ficam internadas mulheres que vm ter seus
filhos e os doentes das localidades vizinhas. Foi
muito bom para eles voc ter feito este mini-
hospital.
-- Voc est bem informado, meu filho. Por qu?
-- Venho aqui sempre, tenho ajudado nesses
atendimentos - respondeu Gabriel.
-- Voc sempre ajudou, no ? Era voc que me
auxiliava    quando,     encarnado,    atendia      os
moradores daqui? - perguntou Noel.
-- Sim, orientei voc nos auxlios que prestava.
Noel saiu e ficou olhando a escola, teve vontade
de entrar.
Nisso a aula terminou, as crianas saram alegres
e logo em seguida saiu Maria Ins. Rufino, um
pescador agradvel, pessoa boa, a esperava. Noel
aproximou-se dos dois e pelo que ouviu estavam
noivos e pensavam em casar-se.
-- Alegro-me por Maria Ins, Rufino ser um bom
marido - disse Noel para Gabriel.
-- Maria Ins o amava, sofreu quando voc foi
embora e ao saber de sua desencarnao. Rufino
ama a professorinha h muito tempo, foi
persistente e acabaram namorando. Vamos
desejar felicidades a eles. Que tal agora ir  ilha?
-- Posso volitar devagar?  to bom ver o rio, a
mata e os animais - falou Noel.
Volitaram devagarzinho, perto do solo, rente s
guas, e Noel divertiu-se como um garoto com um
brinquedo novo. Virou olhando para o cu e
lembrou-se de quando deitava em sua canoa e
observava as nuvens, o azul do infinito. Viu as
copas das rvores, o rio, os peixes. Gabriel sorria
em ver a alegria do pai. Chegaram  ilha.
-- Vou sentar nesta pedra enquanto voc passeia
por a - disse o filho.
Noel foi  sua ex-cabana, estava abandonada, suja
e com alguns paus podres. Depois foi  sua horta,
o mato havia tomado conta, s dois tomateiros
continuavam a dar frutos. As rvores frutferas
estavam bonitas.
-- Tudo precisa de cuidado! No devo ficar triste,
sabia que isto ia acontecer! - falou baixinho.
Para sua alegria, viu Tortugo e a Ruga, estavam
crescidos, fortes e bonitos.
De repente, comeou a chover, Noel correu para a
cabana; ao ver isto, Gabriel riu e continuou
sentado. Noel arriscou a mo, o brao, colocando-
os na chuva, no molhou, riu tambm. Saiu da
cabana, pulou contente, os pingos d'gua
passavam por ele e no o molhavam. Viu as gotas
brilharem, carem no solo, sentiu o cheiro da terra
molhada.
-- Que lindo! Como a chuva  maravilhosa! Que
bom v-la lavar tudo, molhar o solo! E ela no me
molha! - exclamou Noel entusiasmado.
-- Papai, voc sabe, tem conscincia da sua
mudana de planos, j aprendeu como viver
desencarnado, no tem o reflexo do corpo fsico,
por isso no sente a matria.  maravilhoso
realmente ver a chuva, as gotas d'gua passarem
por ns e no nos molharem. Desencarnados que
esto iludidos, que ainda acham que esto no
corpo carnal, os que so apegados ao fsico,
sentem os reflexos e, achando que a chuva os
molha se sentem molhados por ela. Por isso vemos
desencarnados correrem da chuva, como voc fez
abrigarem-se,     e,   se   ficarem    ao   relento,
encharcarem-se. Vamos para casa?
-- Como  bom dizer casa, ao se referir ao local
que nos abriga por lar. Obrigado, filho, pelo
agradvel passeio!
Volitaram de volta. Noel voltou  escola e, na
quarta-feira    seguinte,   Gabriel   foi  busc-lo
novamente e, como anteriormente, em segundos
volitaram at a cidade do Plano Fsico em que Noel
viveu encarnado.
O visitante prestou muita ateno. Achou
engraado      quando     comparou     seu    corpo
perispiritual com os que vestiam a matria. Viu
alguns desencarnados andando pela cidade, uns
de aspecto no muito agradvel, outros de
aparncia sofredora e uns pareciam estar
trabalhando. Gabriel explicou:
-- Papai, somos livres para fazer o que quisermos
e responsveis pelo que fazemos. O que voc v
no difere muito do que via encarnado; maus
continuam agindo errado at que queiram mudar e
o plano em que esto no interfere nesta
mudana. Sofredores h nos dois planos, como
tambm os que gostam de auxiliar. Vamos ao
cemitrio.
Foram andando. O cemitrio visto por um
desencarnado, tambm difere muito dependendo
do que ele foi fazer ali. Um socorrista v um
campo amplo de trabalho; um desencarnado
perturbado, um local de diverso; para o mau,
lugar propcio em que poder fazer maldades; e
um visitante, para conhecer Noel preferiu no
observar os desencarnados que l estavam. Foi ao
tmulo da famlia. Estava limpo e com flores.
Gabriel comentou:
-- Drcio ordenou que um trabalhador da fbrica,
no horrio de trabalho, venha aqui toda a semana
para limpar e paga uma floricultura para colocar
flores uma vez por semana. Este empregado que
aqui vem o faz com prazer e capricho. Minha me
vem aqui tambm e traz flores.
Noel olhou o tmulo em que seu corpo fsico foi
enterrado, leu os dizeres e no sentiu nada, ia
pedir para Gabriel para irem embora, quando viu
Rosa Maria, sentiu que ela orava por ele.
-- Gabriel, a me de Carlos est orando por mim!
-- Rosa Maria sente remorso pelo que fez, agiu
levianamente traindo o marido e se entristece
quando pensa que deixou voc com Ari. Ela jurou
que nunca iria falar que era sua genitora e
realmente guardou segredo. Carlos escondeu dela
que tinha uma relao com sua esposa; quando
soube, estavam para morar juntos. Ela sofreu e fez
de tudo para Carlos desistir e para que vocs no
brigassem. Por isto, Ndia, minha me, no gosta
dela.
Noel a observou bem e exclamou:
-- Minha me  Mara! Entendo Rosa Maria e no
lhe guardo nenhuma mgoa, ela deve ter motivos
para ter escolhido Carlos para ficar com ela. Amo-a
como um ser humano, mas me para mim 
aquela que me criou, que me amou,  Mara!
-- Vamos ver o terreno loteado?
Gabriel perguntou, pegou na mo do pai, saram
do cemitrio, volitaram baixo, devagar, ele foi
informando ao pai:
-- Os terrenos que os empregados ganharam
esto em construo,  maioria deles faz mutiro,
trabalham com a famlia nos sbados  tarde,
domingos, feriados e as casas vo surgindo. Drcio
cumpriu o que prometeu: ali est  creche quase
pronta e a escola funcionar no prximo ano
letivo. Minha me herdou os terrenos que voc
reservou para si, ela e Carlos doaram este lote
para ser construda uma igreja catlica e, ao lado,
um asilo.
-- Est tudo como planejei e muito bonito! 
exclamou Noel.
-- Papai, agora vamos  fbrica.
A fbrica no mudou. Noel andou por ela, reviu os
funcionrios e foi ao escritrio. Dona Marli estava
atarefada e Marcos era o funcionrio de confiana
de Drcio, que era presidente, e, na sua sala, em
lugar de destaque, estava uma foto grande dele.
Emocionou ao ver o amigo, ele estava trabalhando
demais para dar conta dos dois cargos e estava
sendo um timo prefeito.
-- Papai, Drcio pegou para si alguns objetos que
lhe pertenceram: o relgio, que guarda com
carinho, o porta-retrato com a minha foto e seus
livros espritas. Comeou a ler por curiosidade,
para se sentir perto de voc e interessou-se.
Luciana e ele passaram a freqentar o centro
esprita e esto gostando do que aprendem. Sero
os dois, bons espritas.
-- Que boa notcia! - exclamou Noel alegre.
Abraou Drcio, este no sentiu, mas lembrou-se
do amigo com saudades e desejou a Noel alegrias
com Jesus. Noel voltou feliz para a Colnia.
Na segunda-feira, quando terminou sua aula, Noel
foi para o alojamento. Gabriel estava esperando-o.
-- Papai, preciso conversar com voc. Na quarta-
feira iremos visitar Carlos e minha me; antes
disso, preciso falar deles voc. Os dois no
casaram e no esto bem.
Gabriel fez uma pausa, suspirou, Noel ficou quieto,
segundos depois ele recomeou a falar:
-- No dia do acidente em que desencarnei, fui 
garagem, escutei mame discutir com Carlos, acho
que ele pretendia que ela fizesse algo e mame
no queria, assustei-me e me escondi embaixo do
carro. Carlos no gostava de Bob, no o queria
mais dentro de casa, eu, por duas vezes, defendi o
co dos seus chutes. Ele entrou no carro, sentiu
que ia passar sobre algum, achou que era Bob.
-- Meu Deus! Ele matou voc! - exclamou Noel
suspirando tristemente, lgrimas escorreram
abundantes pelo seu rosto.
Gabriel o abraou, ficaram em silncio uns
momentos. Gabriel falou tranqilamente.
-- O acidente ia acontecer, iria ficar com uma
perna muito machucada e teria deficincia para
andar. E, pela imprudncia de Carlos, vim a
desencarnar. A desencarnao no  castigo.
Todos ns que reencarnamos temos que deixar o
fsico, e, para mim, que nada sofri, foi bom. Dormi
e acordei aqui, na Colnia, no Educandrio.
Adaptei-me logo e voltei  minha aparncia
anterior em que fui mdico, e retornei aos meus
estudos e trabalho. Achei que deveria ajud-lo e,
como soube que no ia demorar muito no Plano
Fsico, tive permisso de esper-lo. Se eu no sofri,
Carlos sentiu muito. Quando ficou sabendo que
no fora o cachorro que atropelara, desesperou-se,
no falou nada porque teve medo. Ndia acreditou
nele, como todos. Mas sua conscincia o acusava e
ele tentou esquecer. Depois de tudo que
aconteceu no lago em que voc os salvou, Carlos
se inquietou, sentiu muito remorso, pensou,
martirizando-se, que fora a causa da morte do seu
nico filho e que voc no hesitou em salvar os
trs. Acabou contando  minha me, que no quer
perdo-lo. Ela j se sentia culpada pelo que
acontecera e agora sente mais; entretanto, prefere
colocar toda a culpa em Carlos do que assumir sua
parte, pois, infelizmente, mame me usou para
chantage-lo. Ela me amava, entendeu isso s
quando desencarnei antes ela no ligava para
mim, resolveram me usar para tirar dinheiro seu.
Sofreu quando ocorreu o acidente, pela primeira
vez Ndia sentiu as adversidades da vida, viu-se
sem amigos, desprezada at pelos familiares e
pelos pais de Carlos, que no queriam esta unio;
ficou sem dinheiro e sentiu a minha falta. Quando
Carlos no agentando mais guardar esse segredo
falou a ela, a unio deles, que j no estava bem,
piorou. Mame sempre esteve dividida entre o
amor de vocs dois. Como voc mesmo lhe disse,
ela amava o que estava longe. Achei que deveria
saber     disto     antes    de  irmos    visit-los.
Compreenderei se no quiser ir agora, poderemos
deixar este encontro para outra data.
Gabriel calou-se. Noel, que o olhava atento,
compreendeu que o filho estava sereno, tranqilo,
concluiu que ele era, sem dvida, um ser especial.
-- Voc os perdoou, no ? - perguntou Noel.
-- Eles no me ofenderam - respondeu Gabriel. --
Papai, quando vim para c, achei tambm que
Carlos no teve culpa. S depois de um tempo 
que vim saber a verdade e no fez diferena para
mim e espero que no o faa para voc. Seu
irmo, meu pai, foi imprudente, agiu num impulso
de lhe magoar matando seu cachorro, pois sabia o
tanto que gostava daquele animal. Teve a
inteno de lhe fazer algo que ia aborrec-lo,
esquecendo que Bob era um ser vivo. No quis me
tirar  vida fsica, mas foi  causa. Tenho que ir
agora, amanh virei aqui para saber sua resposta,
se iremos ou no fazer a visita a eles na quarta-
feira.
Gabriel o beijou e saiu. Noel ficou sentado no
mesmo lugar, sem se mexer, pensou em tudo que
o filho lhe falou e concluiu:
"Antes ser a vtima! Antes receber uma maldade
que fazer uma! Quando recebemos um mal,
podemos sofrer, mas no nos tornamos maus.
Quem faz a m ao  dono dela e a reao 
dolorosa. Carlos sofreu mais que eu, no padeo
mais, ele continua sofrendo. Vou visit-los como
Gabriel planejou."
A tranqilidade voltou. Noel sentiu-se bem
novamente, foi estudar, estava contente com o
curso, queria participar e aproveitar ao mximo os
conhecimentos adquiridos. No dia seguinte deu a
resposta ao filho, que se alegrou; na quarta-feira,
no horrio marcado, foram ao lar de Ndia e
Carlos.
Samuel e Vincius estavam brincando na sala,
Carlos estava deitado e Rosa Maria estava com
ele, e, pela conversa que Noel ouviu, a me s
vinha visit-los quando Ndia no estava em casa.
Logo aps terem chegado, ela foi embora. Gabriel
pediu ao pai para observar Carlos, ele estava com
muitas cicatrizes na perna, tinha emagrecido
muito, sua fisionomia era abatida. Um par de
muletas estava ao lado da cama.
-- Carlos no pode ainda colocar o p no cho e s
se locomove com as muletas. Ele tem ido  loja
pela manh;  tarde faz o servio de escritrio
aqui no quarto, porque tem ainda que repousar.
Ele sente muitas dores.
-- Meu irmo! Soa estranho, mas ele  meu irmo!
- exclamou Noel olhando-o com carinho.
Carlos no notou a presena dos dois, porm
sentiu um fluido diferente, agradvel, lembrou de
Noel e suspirou triste.
Noel sentiu vontade de fazer algo pelo irmo,
aproximou-se dele dando-lhe bons fluidos e tentou
transmitir seus pensamentos:
"Carlos reaja! O importante  o que voc far
agora, no presente. No se martirize! Voc no
quis matar Gabriel. Esquea este fato triste. Voc
 responsvel por Samuel e Vincius. Seja bom
pai!"
Carlos sentiu-se melhor. Nisto, Ndia chegou, ela
trabalhava na loja. Beijou os filhos e nem veio ver
o marido, foi para a cozinha. Noel aproximou-se
dela e compreendeu que a amava como um ser
humano, como uma irm. Sua ex-esposa tambm
sofria, no conseguia perdoar Carlos e estava
indecisa se separava dele ou no. Noel sentiu que
deveria falar com ela, aconselh-la. Falou com
carinho, com calma, Ndia no escutou, porm
recebeu os dizeres do ex-marido como se fossem
seus pensamentos:
-- Ndia, no coloque a culpa s no Carlos. Foi
uma fatalidade. Se voc acha que no foi boa me
para Gabriel, seja agora para esses dois que
brincam na sala! Deixa que eles cresam junto do
pai. No abandone Carlos e perdoa-o!
-- Perdoar Carlos! - exclamou Ndia baixinho. --
Ser que consigo? Noel nos perdoou, morreu para
salvar meus filhos, ele nos deu o exemplo. No
soube o que Carlos fez; agora, no cu, deve saber
e com certeza perdoou. Preciso perdoar tambm,
acertar com Carlos e criar nossos filhos, am-los
mais do que amei Gabriel.
-- Ndia - expressou Noel --, tenta ser boa,
responsvel, como voc necessita de perdo,
perdoa!
Ela deu um sorriso triste, foi  sala e beijou os
filhos novamente, mas o fez de forma diferente,
com amor, as crianas sentiram carinho, riram
contentes. Ndia pensou:
"Tenho que fazer a felicidade deles. Noel morreu
para que eles vivessem para mim. Amo Noel, mas
ele j no me amava e nem vai voltar!"
-- Vamos embora, Gabriel! Espero que eles
tenham paz e que se entendam.
-- Antes de ir, vamos nos despedir de Carlos -
disse Gabriel.
Carlos estava telefonando, conversava com
algum sobre a construo do asilo, estava
empenhado em ver a instituio funcionando e
decidido a trabalhar auxiliando os velhinhos.
-- Carlos est com boa vontade de ajudar,
modificar-se para melhor e ir conseguir. Agora
vamos - falou Gabriel.
-- Obrigado, meu filho - disse Noel abraando
Gabriel. Voc me fez entender muitas coisas,
amadureci, compreendi que quando perdoamos
fazemos um bem enorme a ns mesmos. Que
Deus abenoe este lar e que eles consigam se
harmonizar.
Foi muito bom para Noel ter feito aquelas visitas,
saber de tudo. Tranqilo, dedicou-se ainda mais ao
estudo. O grupo de colegas era como se fosse de
familiares seus e ele compreendeu que a
humanidade era sua famlia e que ningum fica
realmente bem, feliz, enquanto um de seus
membros no estiver. E bem-aventurado aquele
que est em condio de auxiliar. Noel quis com
vontade ser um servidor. O tempo passou rpido e
ele concluiu o curso com grande proveito.

                 O PASSADO
Ao terminar o curso, Noel optou por um trabalho
de estgio, isto : ficaria de trs a seis meses
servindo    em    lugares    diferentes.  Comeou
ajudando no hospital, aps, iria para Postos de
Auxlio no Umbral, depois, a locais de ajuda entre
encarnados,     estagiaria   em     vinte  lugares.
Concluindo o estgio, iria para uma Colnia de
Estudo, estudar por dois anos, isto para realizar
seu sonho: fazer parte de uma equipe de
construtores.
-- Certamente - disse Noel a Gabriel -- serei
aprendiz por muito tempo. Durante o curso, vi o
trabalho dos construtores, encantei-me e almejei
ser um. Vimo-los construir um mini-hospital, um
posto de auxlio maravilhoso que fica em cima de
um recm-inaugurado centro esprita. Quero ser
um construtor aqui no Plano Espiritual e no
pouparei esforo para isto. Esse estgio ser para
que eu conhea bem essas construes e suas
utilidades.
-- O trabalho desses construtores  muito
importante - falou Gabriel -- eles esto sempre
aumentando as colnias, postos, abrigos e fazendo
muitos locais de auxlio no Plano Fsico junto a
lugares que tm como objetivo ajudar as pessoas.
Quase todos os centros espritas possuem como
continuao da construo material outros prdios
que servem de abrigo aos desencarnados. Foi uma
maneira que os dirigentes espirituais encontraram
para auxiliar os necessitados sem sobrecarregar as
Colnias. Nesses      locais, trabalham muitos
encarnados      quando     seus    corpos   carnais
adormecem. E so muitos os trabalhadores do
Plano Fsico que servem nesses abrigos. Alegro-
me, meu pai, por ter optado por este trabalho, 
uma tarefa que requer esforo, treino, fora de
vontade, dedicao e muitos anos de aprendizado.
Noel foi servir aprendendo. Visando seu objetivo,
fazia seu trabalho com abnegao e sempre se
dedicando horas a mais. Enquanto estagiou na
Colnia, ficou morando com os pais, gostava de
estar com eles, amavam-se e eram felizes juntos.
Foi a todas as localidades na Colnia, viu tudo e
indagava muito. Concluiu que tudo no Plano
Espiritual tinha serventia, estava harmonizado e
que todos os lugares foram planejados.
As Colnias aumentam de tamanho sempre que
precisam e, quando isso  feito, os construtores
responsveis se renem e trabalham visando ao
bem do local. Planejam e executam juntos, alegres
por servir.
Servindo no hospital, nas enfermarias. Noel viu
que l havia muito a fazer, os imprudentes so
muitos e tambm os que querem ser servidos;
faltam servidores e o trabalho  bastante. Ele
entristeceu muitas vezes ao ver os sofrimentos
dos abrigados, dos que amaram mais a matria
perecvel do que as verdades espirituais. So
muitos os indivduos que vivem s para as iluses
da matria, ao serem expulsos desse mundo que
idolatram, sofrem sua falta e levam tempo para
adaptar-se a outra forma de viver, a de
desencarnados. Noel gostou de sua tarefa, achou
que poderia ficar muito tempo servindo ali no
hospital, mas a vontade de realizar seu sonho era
mais forte, sentiu em deixar esse trabalho. E
encantou-se logo com a outra tarefa: foi designado
a estagiar no bosque, amou plantar rvores, cuidar
dos animais. Gostou tanto de fazer isto que, por
vezes, esquecia de ir para casa e ficava dias
envolvido no trabalho.
-- Voc, amando cada trabalho que faz, ficar
indeciso sobre a tarefa a se dedicar - Mara falou
rindo.
-- Mame, estou feliz, amo a vida, e viver para
mim  trabalhar, servir. J escolhi o que quero
fazer aqui no Plano Espiritual. Quero ser
construtor! - exclamou Noel alegre, abraando a
me.
Foi enquanto estudava nos seus estgios que Noel
teve algumas lembranas de outras existncias
que vivera no fsico, eram recordaes vagas.
Comentou este fato com Gabriel, que lhe explicou:
-- Papai, nossa vida  nica, viver encarnado e
desencarnado so fases de aprendizado. Tudo que
vivemos fica registrado em nossa memria
espiritual. O esquecimento com a reencarnao 
bondade do Pai Criador para que recomecemos
realmente. Seria complicado para a maioria de ns
viver encarnado com as lembranas de atos, fatos
que muitas vezes repelimos no momento. O
objetivo de voltarmos ao fsico  para progredir,
querer bem ao maior nmero de pessoas, para
que, um dia, a humanidade seja uma s famlia,
amando uns aos outros como irmos. Conheo
muitas pessoas que, encarnadas, recordam, sejam
sozinhas ou com auxlio. J vi casos de obsessores
que fazem suas vtimas lembrarem para perturb-
las. Aqui, no Plano Espiritual, no h diferena do
Plano Fsico; no Umbral, espritos maus, para se
vingarem, fazem as vtimas recordarem. Aqui, nas
Colnias, os que querem lembrar-se do passado
podem faz-lo sozinhos, se esto preparados para
isto, ou pedem auxlio. H nas Colnias
departamentos que ajudam com segurana os que
querem saber o que foram o que fizeram em suas
vivncias na matria.
-- Voc j se lembrou do que fez nas suas
encarnaes? - perguntou Noel.
-- J. Desencarnado  mais fcil recordar. Estando
preparado  bom saber, isto incentiva a ter
objetivos para realizar determinados trabalhos,
sejam estes reparativos ou construtivos. No
pense voc que, pelo fato de estar desencarnado,
recordamos de tudo - respondeu Gabriel.
-- A desencarnao  um processo de mudana
complicado a muitos. Ao chegar aqui, vemos
tantas coisas, novidades, e temos muito que
aprender. No nos esquecemos da nossa ltima
passagem pelo fsico e, s vezes, j bastam estas
lembranas para nos incomodar. Se, de imediato,
recordarmos de todas nossas reencarnaes, seria
excesso de informaes - falou Noel.
-- Papai, as pessoas diferem bastante, muitas
retornam  Ptria Espiritual sem conhecimentos,
outros tm muitos. Estas, que tm conhecimentos,
quase sempre recordam o passado, as que no
tm e no se interessam em receber normalmente
reencarnam sem recordar.
-- Acho que vou me inscrever no departamento e
pedir auxlio para lembrar - falou Noel.
-- Se sente preparado para isso, deve fazer. E no
se esquea que todos ns temos bons e maus
momentos, j fizemos boas e ms aes -
aconselhou Gabriel.
E Noel continuou a ter determinadas lembranas,
estas vinham independentemente de sua vontade,
sem sequer estar pensando nelas. Numa noite
estava deitado no sof com a cabea no colo de
sua me e esta passava carinhosamente as mos
pelos seus cabelos, sentiu, com certeza, ter sido
bom filho e pai nas suas ltimas encarnaes.
Como uma tarde, ao dar explicaes a um
visitante sobre uma rvore, lembrou-se que j
trabalhara encarnado, com plantas, recordou o
local em que morou, as plantaes que fez da
fisionomia que teve. Outras vezes, conversando,
vinham  memria conhecimentos sobre aquele
assunto. E teve a certeza de que j convivera com
Ndia e Carlos.
Inscrevera-se no departamento pedindo ajuda
para recordar. Antes de serem atendidos em
particular, a maioria dos candidatos ouvem
diversas palestras levando-os a compreender que
o passado passou e que no conseguiremos
modific-lo. Para ns, o importante  o presente, o
nosso agora, o momento. E no devemos deixar
de realizar o bem que nos cabe para o futuro. So
vrios orientadores que do palestras e, aps,
permanecem no local para responder a vrias
perguntas.
Noel gostava muito de ir a palestras, aprendia ao
ouvir pessoas com conhecimentos falarem sobre
determinados assuntos. Emocionou-se com alguns
relatos   que    ouvira   nesses    encontros    no
Departamento da Reencarnao e compreendeu
que muitos ali estavam para recordarem o
passado por terem problemas. Um senhor disse
que amara a me como mulher e isto o martirizou
durante o perodo que estivera encarnado. Sofreu
muito com a culpa, envergonhava-se do seu
sentimento, acreditava que este fato triste poderia
ser explicado recordando existncias anteriores.
Esse senhor foi orientado a recordar Noel, tempos
depois, encontrou-o e ele lhe disse que de fato j
vivera junto deste esprito que fora sua me,
muitas vezes se amaram com paixo e por este
sentimento erraram muito. Reencarnaram como
me e filho na tentativa de transformarem essa
paixo em amor sincero. E sentiu-se bem melhor
ao saber de tudo, estava agora tranqilo, disposto
a trabalhar e a se melhorar.
Teve oportunidade de conversar com muitas
pessoas aps estas palestras e todos ali achavam
a reencarnao algo justo, que leva a
compreender a bondade e a justia de Deus.
Muitos, ao ouvir estas palestras, desistem de saber
do passado, entendem que no devemos faz-lo
s por curiosidade, como tambm no devemos
lembrar sem preparo. Saber que fomos heris, que
fizemos atos bondosos,  reconfortante, mas ao
ter conhecimento de fatos desagradveis em que
fizemos aes ruins pode nos deixar tristes e, se
no estivermos preparados, correremos o risco de
nos perturbar. Noel pensou por dias e optou por
recordar, porque j estava fazendo sozinho. Dia e
hora marcada chegou ao departamento tranqilo e
foi atendido por Selma, que o ajudou.
Atualmente, em todas as Colnias, h locais
especializados      para      atender     indivduos
interessados em saber sobre reencarnao, este
processo importante a todos ns. So muitos os
desencarnados que se dedicam a esse trabalho. A
maioria desses trabalhadores est se preparando
para voltar ao Plano Fsico e dedicar-se  cincia e
provar por ela esse fato que nos leva a
compreender a vida como um todo, como nica.
Noel achou maravilhoso, este departamento
funcionava num prdio simples, confortvel, com
vrias salas e um salo para palestras.
Selma levou-o para uma saleta onde ficaram s os
dois, pediu para que deitasse e explicou-lhe:
-- Noel, esta recordao se faz de diversas
maneiras. Temos um aparelho que projeta a
imagem que tem gravada na sua memria. Isto ,
voc vai recordando e, com nossa ajuda, as
imagens vo aparecendo nesta tela. Outra forma 
um dos trabalhadores daqui ajudar induzindo
quem quer recordar a organizar essas lembranas.
Foi o que optamos para voc. Fique relaxado e
deixe as lembranas virem naturalmente. Estarei
ao seu lado.
A orientadora experiente foi induzindo Noel a
lembrar e este o fez. Recordou de muitas
vivncias, fatos importantes de cada vinda sua ao
Plano Fsico.
s vezes Noel sorria, em outras, chorava; porm,
seguindo as orientaes de Selma, esforou-se
para ficar tranqilo. Sentiu uma sensao estranha
todas as vezes que recordou as desencarnaes
que teve, foram muitas, em algumas sentiu medo
e dores.
Noel recordou que vivera em muitos pases, tivera
muitos pais, filhos e que, de fato, nas suas ltimas
encarnaes tanto fora bom pai como bom filho.
Trabalhou em muitos setores, fez muitas coisas,
teve muitas aparncias.
Foi na Idade Mdia, na Europa, que ele viu Ndia e
por ela se apaixonou. Carlos j havia reencarnado
junto dela e em todos esses encontros a amara
com paixo. Quando Noel a conheceu, era casado
com a irm de Carlos e este tambm tinha esposa.
Ndia era empregada em sua casa e tornou-se
amante dos dois. Carlos contou o fato  irm e
Noel,  esposa dele. A mulher de Noel a mandou
embora e a fez for para longe. Carlos e Noel
discutiram, ficaram um tempo sem se falar, depois
voltaram a conviver, embora no gostassem um
do outro.
Tempo depois, reencarnaram. Carlos era filho de
Rosa Maria e casou-se com Ndia. Noel era casado
com Luciana e por motivo de trabalho, mudaram-
se para a cidade em que Carlos morava. Luciana
era tima esposa e amava muito Noel, os dois
eram at ento felizes. Noel, ao conhecer Ndia,
apaixonou-se e tornaram-se amantes
Noel,    ao     lembrar    esse     fato,   suspirou
profundamente e sentou-se no div. Selma pegou
na sua mo e indagou:
-- Voc quer parar? Como est se sentindo?
-- Quero continuar, Selma - respondeu ele. --
Senti a paixo que me corroia naquele tempo. A
paixo  como um fogo avassalador que perturba,
desarmoniza e di. Ainda bem que no sinto mais
este sentimento. Vamos continuar!
E as lembranas continuaram...
Carlos soube da relao dos dois e intimou-o para
um duelo. Duelaram e Carlos morreu. Rosa Maria,
a me de Carlos, sofreu muito com a morte do
filho e odiou Noel. Luciana tambm sofreu, porm
continuou junto do esposo, e ele, embora amasse
a famlia, no largou de Ndia. Gabriel era filho de
Noel, estudou, era mdico, estava sempre
preocupado com o pai. Uma vez, quando Noel quis
abandon-los para morar com Ndia, Gabriel lhe
quebrou as pernas. Ele ento teve que ficar em
casa e no se recuperou mais, tornou-se invlido,
andava com dificuldades. Ele s se separou de
Ndia quando estava velho e doente.
Carlos e Noel tornaram-se inimigos, passaram a se
odiar e a perseguir um ao outro.
Sentir dio  estar inquieto, sobressaltado,
nervoso e infeliz. Odiando, esquecemos tudo de
bom que nos aconteceu e o que poder vir a
acontecer, para estar ligado ao ser que odiamos.
Noel se contorcia no div, suou, sentiu a garganta
seca. Sentiu a agonia da espera com medo do
revidar do outro e a aflio de planejar uma
maldade. Selma o acalmou. Sentindo-se tranqilo,
voltou a recordar.
Sofreram ambos por um tempo no Umbral, foram
socorridos, prometeram esquecer o rancor.
Reencarnaram como irmos e Ndia ficou no Plano
Espiritual; sem ela por perto, embora no se
gostassem, no tiveram desavenas.
Desencarnaram e no Plano Espiritual encontraram-
se com Ndia. Os trs prometeram no brigar mais
e reencarnaram numa mesma cidade.
Como Ndia reencarnou primeiro, casou-se muito
nova com Ari, um senhor de terras muito rico. Ari
era filho de Mara e esta morava com eles. Noel e
Carlos eram dois jovens bonitos que se conheciam
sem ser amigos e os dois novamente se
apaixonaram por Ndia, que brincava com os
sentimentos deles e tomou-se amante dos dois.
Mara sabia, contou para Ari, que nem ligou, ele
tinha tambm vrias amantes. Ndia ficou grvida
e Mara no quis que este filho nascesse. Como
poderia saber se era seu neto? Ento deu a Ndia,
sem que ela soubesse, chs abortivos, e ela
abortou. Isto aconteceu por diversas vezes. Ari
apaixonou-se por outra mulher e, aproveitando-se
do mau procedimento da esposa, expulsou-a de
casa. Noel e Carlos brigaram por ela, voltaram a se
odiar, ambos a queriam para esposa. Como os dois
eram pobres, Ndia foi embora para longe com
outro que era rico. Ficaram desapontados,
sofreram, no brigaram mais e continuaram se
odiando.
Foram separados por duas encarnaes, onde
tentaram se harmonizar. Reencontraram-se no
Plano Espiritual, planejaram se encontrar no Plano
Fsico e provar, cada um a si mesmo, que agiriam
certo desta vez. Noel combinou com Luciana que
ficariam juntos. Carlos casaria com Ndia,
ajudando-a a ter responsabilidades no matrimnio.
S que Ndia preferiu Noel por este ser rico e ele
deixou Luciana.
Gabriel, que havia planejado ser filho de Noel e
Luciana, reencarnou como filho dele. Noel
prometeu ser bom esposo para Luciana e Ndia se
empenharia em ser fiel a Carlos. Luciana, como
merecia, teve um timo marido casando-se com
Drcio. Ndia no soube ser fiel ao esposo. Se, no
passado. Noel matou em duelo Carlos, nesta
ltima teve o corpo fsico morto para salv-lo.
Carlos e Ndia ficaram juntos tendo oportunidade
de se acertarem e Noel sarou da paixo que nutria
por ela; se a reencontrar num outra encarnao,
sero certamente s amigos.
Noel sentiu-se emocionado e aliviado quando
acabou. Agradeceu Selma, foi para casa, entrou no
seu quarto e ficou pensando em tudo que
recordou. Alegrou-se por no ter mais carma
negativo e suas prximas encarnaes seriam
para ele de provas. Provar a si mesmo que
aprendeu, e seu objetivo seria progredir sempre.
Compreendeu que o passado no importava, no
queria pensar mais nele. Tinha reparado seus
erros, fez dos inimigos, amigos. Essas recordaes
tinham-no feito compreender muitos fatos, que
tudo tem razo de ser. O passado ficou para trs,
nada volta, os lugares que tinha recordado no so
agora como antes. Noel fez uma comparao:
quando estava com onze anos, foi em outra cidade
com os pais, visitar uma parente de sua me. Essa
senhora agradvel morava numa rua tranqila,
numa casa em cuja frente havia uma grade baixa
e branca. A anfitri os levou para conhecer a
cidade, ele gostou muito de ver um rio que
passava pela metrpole, foram numa pequena
queda d'gua que tinha ao lado um mirante,
subiram numa escada enorme de ladrilhos
pequenos formando pitorescos desenhos. Anos
depois, ele voltou quela cidade. Aps ter feito o
que o levou ali, foi  rua em que residiu sua
parente, esta j no era tranqila, a casa era
habitada por outras pessoas, porque esta senhora
tinha mudado a grade agora era alta e escura.
Voltou ao mirante, ainda continuava um lugar
bonito, porm modificara muito, porque passara
por uma grande reforma e j no existiam os
pequenos     ladrilhos. E    no    estava   mais
acompanhado pelos pais, que tinham falecido. No
se deve prender-se ao passado, tudo muda,
transforma-se, e nada volta a ser como era. Quem
se prende aos acontecimentos que se foram,
perde quase sempre a oportunidade de desfrutar
do presente e  este, o momento atual, que deve
nos interessar.
No outro dia, Noel encontrou-se com Gabriel,
contou-lhe tudo que recordou, e finalizou:
-- Meu filho, bendito seja Deus que nos d a
oportunidade da reencarnao! Voc sabe que eu
sou amigo de Drcio, quero-o muito bem. E no
me recordei dele no meu passado.
-- Papai, temos que ampliar nossos afetos, fazer
novos amigos e nunca mais ter inimigos. Muitas
vezes reencarnamos junto de pessoas com os
mesmos gostos, modo de ser, afinamos com eles,
amamo-los e pode ser a primeira vez que vivemos
juntos. Drcio e voc foi assim. Este seu amigo
reencarnou para provar que era capaz de ser
honesto, mesmo tendo oportunidades e facilidades
para ficar com bens alheios. Drcio  um exemplo
de honestidade, est tirando nota mxima na sua
prova.
-- Sabe que concluso tirei disto tudo? - perguntou
Noel e ele mesmo respondeu: -- Saber do passado
no fez diferena para mim. A gente sempre  que
complica nossa existncia, damos ns de erros e,
para desat-los, exige-se pacincia, perseverana,
fora de vontade, e uma vez desatados, sentimo-
nos livres para, com o fio da vida, alar vos rumo
ao progresso. S se sente preso ao passado quem
no desfez esses ns, quem tem algo a reparar, a
construir onde destruiu. Como  bom sentir-se
livre para planejar o futuro, fazer oferta de
agradecimento a Deus, tendo reconciliado com
nossos irmos. Sinto-me preparado para ser til,
adquirir conhecimentos, e quero progredir sempre,
pois aprendo a amar.
Gabriel o abraou emocionado.
-- Uma vez amigo, meu pai, sempre amigo! Nossa
amizade foi fortalecida. Amo-o!
-- Obrigado, Gabriel! - Noel falou sorrindo
comovido. -- Realmente tenho muito que lhe
agradecer, no s a voc, tambm a todos que
ajudam a melhorar a Terra, a nossa morada
abenoada.

              A VIDA CONTINUA

O sexto estgio de Noel foi ao Educandrio e
Gabriel fez questo de lhe mostrar tudo e
esclarecer suas dvidas.
-- A maioria das pessoas, ao desencarnar, volta 
espiritualidade sentindo os reflexos do corpo fsico.
Por isto, muitos sentem fome, sede, dores e
necessitam aprender como viver aqui no Plano
Espiritual. Uns demoram mais para se adaptar,
outros o fazem rapidamente, dependendo do
desapego, de querer acostumar. Esta vivncia
difere dependendo do lugar para o qual, por
merecimento, so os desencarnados atrados para
ficar ou morar. Os bons, os que aqui chegam com
muitos "Deus-lhe-pague e obrigados", isto , com
boas aes, ficam bem logo. Os que esto
acompanhados de ms aes so atrados para o
Umbral e os reflexos da matria demoram muito
para ser superados. Normalmente, crianas, ao
desencarnarem, continuam infantis e necessitam
de muitos cuidados e carinho; por isto, sem ser
regra geral, vm para os Educandrios nas
Colnias, que so lugares lindos, agradveis, onde
trabalhadores experientes e que gostam de
crianas cuidam delas. Na nossa Colnia, o
"Educandrio Infantil Jesus Menino"  espaoso e
maravilhoso. Infelizmente, algumas crianas que
foram doentes encarnadas tm o reflexo e este 
quase sempre alimentado pelos entes queridos
que ficassem no fsico, e que pensam nelas
adoentadas. Elas gostam de ficar aqui no hospital.
-- As crianas ficam aqui temporariamente? - Noel
quis saber.
-- Sim - respondeu Gabriel -- tudo  temporrio,
tem tempo para acabar. Estagiamos, meu pai,
todos ns passamos perodos encarnados e
desencarnados. Ao desencarnar tendo o corpo
infantil, podem aqui conosco desenvolver, isto ,
crescer como no fsico, ou voltar  aparncia
anterior como eu fiz, ou ainda permanecer como
criana, do modo como fez sua mudana de plano,
outras podem reencarnar logo em seguida. Como
v, no existe regra geral, cada ser  importante e
o Plano Espiritual preocupa-se e empenha-se para
que acontea o melhor a cada um.
Pararam na frente do hospital, Noel soube que era
um porque Gabriel o disse. No parecia um
nosocmio. Era um casaro, com grandes janelas,
com muitas plantas, flores e animais. L havia
tudo que a criana aprecia brinquedos, pequenos
labirintos, as paredes com desenhos feitos por
elas, mveis pequenos, e para os que trabalham
ali e visitantes a ordem : alegria e amor.
No jardim da frente, encontraram-se com algumas
crianas e Gabriel perguntou-lhes o que era aquele
Lugar para elas; fez isto para Noel escutar.
-- Que  este local para vocs?
-- Um palcio encantado - respondeu uma
graciosa garota.
-- Uma manso de amor - falou um menino
aparentando ter dez anos.
-- Uma escola do futuro - expressou outra menina.
-- Um local onde sarei um hospital de alegria! -
exclamou uma garotinha risonha.
Entraram no prdio e Gabriel explicou:
-- Observe meu pai, como este local foi planejado
para o bem-estar dos nossos garotos. Para os
pequenos abrigados  tudo que falaram; para ns,
que aqui servimos,  um hospital. As crianas
ficam alojadas por idade e temos  direita uma ala
especial para as que tm reflexos do fsico mais
forte e que necessitam de mais cuidados.
Ao entrar numa enfermaria onde estavam crianas
de trs a seis anos, a garotada, ao ver Gabriel,
veio correndo abra-lo. Ele apresentou Noel.
-- Este  meu amigo! - sorriu e falou baixinho para
Noel: -- A meninada estranharia se lhes dissesse
que  meu pai, aparentamos a mesma idade. E
voc  para mim um verdadeiro amigo.
Noel compreendeu que laos de parentesco s
vezes so frgeis, os da amizade so to fortes,
que perpetuam. Amigos so por escolha,
afinidades, e quando a amizade  sincera  para
sempre.
Seguindo seu cicerone. Noel conheceu todo o
local. E concordou com o filho, os Educandrios
so realmente lugares maravilhosos, onde se
sente o amor reinar. H ordem e disciplina, as
crianas tm aulas de Iniciao do Evangelho, de
moral e de estudos gerais. O lazer faz parte do
estgio deles ali, os abrigados praticam muitos
esportes, h no educandrio bonitas e bem-
cuidadas quadras de esportes. Elas tm aulas de
teatro e so incentivadas a ler bons livros. A
biblioteca  bem central e muito confortvel,
encontramos nela livros que encarnados tambm
tm para ler e outros prprios para eles, que no
momento vivem com o corpo perispiritual. As
aulas de msica so sortidas de muitos
instrumentos e a garotada gosta muito de
aprender; eles tm tambm aulas de canto e em
todos os Educandrios h corais, crianas gostam
muito de cantar. O alojamento, seja o quarto, ou o
cantinho particular deles,  muito agradvel. Cada
um tem o seu, onde guardam seus pertences
particulares, tendo sempre fotos de familiares,
brinquedos, instrumentos musicais, etc. Ali, a
meninada  feliz.
Noel encantou-se com o local e Gabriel explicou:
-- Papai, lugares que abrigam crianas aqui no
Plano Espiritual so parecidos, existem muitos nas
Colnias espalhadas pelo nosso planeta. Os
orientadores espirituais no tm poupado esforos
para que espritos que desencarnaram no perodo
da infncia tenham, aqui, uma morada agradvel,
sem esquecer-se da ordem, disciplina e da
educao com amor. Certamente que estes
Educandrios no so iguais, tm at muitas
denominaes, mas seguem o mesmo objetivo:
instruir com exemplo e carinho.
-- Ah, se eu soubesse disto! - exclamou Noel. -- Se
encarnado, quando voc desencarnou, tivesse
conhecimento do Educandrio, no teria sofrido
tanto.
-- Infelizmente voc no se interessou por se
informar na ocasio. So muitos os desencarnados
que tm permisso e do essas informaes aos
encarnados, e basta acreditar, meditar e sentir no
ntimo que so verdadeiras. Entretanto, 
necessrio confiar na bondade de Deus e entender
este processo natural que  a morte do corpo
fsico. Costumamos complicar, por isto sofremos
com a desencarnao de um ente querido.
Foi trabalhando que Noel conheceu com detalhes o
Educandrio. Ensinou as crianas a plantar e a
respeitar a natureza, deu aulas de esporte, cuidou
dos doentinhos e gostou muito de tudo que fez.
Compreendeu o tanto que o trabalho de seu filho
era importante. Ele era o "tio doutor" dos
pequerruchos doentes e estudava muito.
-- Quero papai, quando encarnado, estudar
Medicina e dedicar-me a curar, a ajudar pessoas
com deficincias na fala - explicou Gabriel.
Noel j estava terminando seu estgio no
Educandrio, quando Gabriel veio conversar com
ele.
-- Papai, vou reencarnar.
-- Agora? No d para ficar mais tempo aqui? 
perguntou Noel.
-- No se tem tempo determinado para ficarmos
no Plano Espiritual - respondeu Gabriel. -- Nossa
permanncia aqui difere muito de um para outro, 
verificada a necessidade de cada um. Preparei-me
muito, meu pai, para fazer um trabalho no Plano
Fsico e  chegado o momento de faz-lo.
Reencarnar, para mim, ser um grande desafio,
em que provarei a mim mesmo que serei capaz de
estudar muito, ser paciente e dedicado ao
trabalho. E quando nos sentimos preparados, no
podemos temer as provas. Um casal amigo me
dar a oportunidade de voltar ao fsico. Minha
futura me logo ficar grvida. Estou passando
minhas tarefas daqui a uma amiga e vou me
preparar para reencarnar.
-- Vou sentir sua falta! - exclamou Noel
suspirando.
-- Meu pai, a vida continua, ora vivemos aqui, ora
acol. A reencarnao ainda  necessria a ns,
espritos que almejamos progredir. Com a
compreenso que tenho, devo tentar esforar-me
para que esta nossa abenoada morada seja
melhor, tudo fazer para cultivar a paz dentro de
mim e irradi-la para o maior nmero de pessoas.
Vou reencarnar contente, anseio por faz-lo.
Entendendo esta bonssima lei, como no dar valor
 reencarnao? Como no voltar ao fsico repleto
de esperanas e boa-vontade? Revisto o corpo
carnal entusiasmado, feliz e com vontade de
continuar a ser til. E voc poder me ver.
-- No ser a mesma coisa, voc ter outro pai,
outro corpo e no se lembrar de mim - lamentou
Noel.
-- Afetos no se separam a ausncia no diminui o
amor. Eu o amo! - exclamou Gabriel sorrindo.
-- Estamos sempre dizendo at logo a afetos e
voc tem razo, o amor une. Tenho certeza de que
voc ser bem-sucedido e irei visit-lo sempre que
me for possvel. Conheo seus futuros pais? -
perguntou Noel.
-- Sim, meus pais sero Drcio e Luciana -
respondeu Gabriel.
-- Isto  bom! Ter os pais que merece! Alegro-me
por voc voltar ao Plano Fsico tendo-os para
orient-lo.
Noel acompanhou o filho na preparao. Os
moradores da Colnia, quando querem reencarnar,
tm      assistncia     do    Departamento     da
Reencarnao. Gabriel no precisou de muito
preparo, ele tinha bastante conhecimentos.
Foi emocionante a despedida dele com os amigos,
Noel, Ari e Mara esforaram-se para no chorar.
Com votos de xito, Gabriel emocionado entrou no
prdio. Os trs voltaram para casa, Mara
exclamou:
-- Como o adeus ainda me comove!
Ari e Noel concordaram com ela.
s vezes, nas suas folgas. Noel vinha ao Plano
Fsico e agora, sozinho. Maria Ins, a professora,
casou-se com Rufino e eram felizes. A fbrica
progredia com a administrao de Drcio. Carlos e
Ndia continuaram juntos, mesmo tendo muitas
desavenas. E agora existia mais um motivo para
visitar Drcio e Luciana: o casal ficou radiante com
a confirmao de que teriam mais um filho.
Noel estava contente com seus estgios,
empenhava-se em fazer o que lhe cabia do melhor
modo possvel e aproveitava para adquirir
conhecimentos. Foi enorme sua alegria quando foi
convidado pelo seu orientador para ajudar os
construtores a fazerem um Posto de Socorro no
Plano Espiritual, acima de um centro esprita que
seria formado. A parte material no era grande,
era um salo. A equipe encarnada, toda
entusiasmada, planejou todos os detalhes e os
orientadores do grupo pediram  equipe de
construtores para construir um pequeno posto de
auxlio aos desencarnados que seriam ali
abrigados.
O trabalho dos construtores  de vinte e quatro
horas por dia, a equipe  animada e alegre.
Receberam Noel e outros convidados com carinho
e explicaram todas as dvidas com pacincia.
Foram conhecer o local, anotaram o que queriam
que fizessem, fizeram a planta, discutiram
detalhes. Voltaram ao local e trabalharam com
amor, deixando no lugar fluidos de carinho e bom
nimo. Comearam fazendo uma parede junto 
construo material, para ficar protegida, isto ,
que na casa s entre quem os orientadores
queiram. Isso impede que desencarnados menos
esclarecidos invadam o local para bagunar.
Muitos chamam esta parede de muralha, cerca de
proteo, etc. Depois partiram para fazer a
construo do posto. Dias depois, o pequeno
abrigo estava pronto, tendo a cor que os
encarnados escolheram para pintar o salo.
A construo espiritual estava acima da material,
ligada por uma escada, tinha trs pisos. No
primeiro estava a recepo, salas reservadas para
desencarnados conversar com os orientadores
espirituais e a biblioteca. No segundo piso
estavam os quartos onde abrigam espritos
adoentados que necessitam de ajuda. Quase todos
os trabalhadores desencarnados desta casa se
alojam ali, isto , tm seu espao reservado, sua
moradia no terceiro piso.
Os construtores deixam o posto prontinho,
colocam mveis, roupas, tudo que se precisa.
Normalmente se renem aps; recebem os
agradecimentos e oram, pedindo a Deus, nosso
Pai, que ali seja um local de paz e alegria.
Com tudo pronto, eles partem para outra tarefa.
Noel ainda ficou no posto olhando tudo com
ateno, com ele tambm permaneceu um deles,
uma moa atenta aos detalhes.
-- Que biblioteca linda! - exclamou Noel.
-- Os trabalhadores do Plano Espiritual gostam de
ler e muitos livros so emprestados ou doados a
desencarnados que aqui vm, seja para visitar ou
para receber um auxilio. Muitos necessitados viro
nessa casa s para receber um alvio, mas no
esto interessados em mudar para melhor e
alguns destes pegam livros emprestados ou os
recebem de presente. Aqui tambm, no Plano
Espiritual, bons livros so bnos, fontes de
informaes e consolo - explicou a moa que fazia
parte da equipe de construtores.
Noel gostou demais de ter participado desse
trabalho, voltou ao seu estgio com mais vontade
de fazer parte dessa fabulosa equipe.
Ele foi visitar o casal amigo, Drcio e Luciana, que
naquela tarde de domingo fariam o Evangelho no
Lar.     Estavam      presentes     dois    espritos
trabalhadores do centro esprita que eles
freqentavam que aproveitaram para higienizar a
casa e os moradores, tirando os fluidos negativos
e saturando-os de energias benficas.
Drcio leu um texto da histria de Jesus para os
filhos, aps orarem, as duas crianas saram e
Luciana leu duas pginas de "O Evangelho
Segundo o Espiritismo" e os dois oraram
novamente.
Quando        terminaram,      os    dois    amigos
desencarnados foram embora. Luciana estava
grvida de sete meses, teria um lindo e saudvel
menino. O casal, que estava sentado no sof da
sala, ficou conversando.
-- Hoje  aniversrio do Noel, estou com muitas
saudades dele! - exclamou Drcio suspirando.
-- Noel foi,  nosso grande amigo. Drcio que tal
chamarmos nosso nen, se for homem, de Noel,
para homenagear este maravilhoso ser humano
que ele  - falou Luciana.
-- Noel no gostava do nome dele. Quando criana
brigou muitas vezes porque o chamavam de Papai
Noel. Se quisermos homenage-lo, devemos
colocar o nome no nosso filho de Gabriel, nome
que ele gostava, do filho dele - expressou Drcio.
-- Gabriel! Gosto! Est decidido, se for menino
ser Gabriel, e, se for menina, Gabriela, em
homenagem a Noel, nosso querido amigo.
Noel emocionado passou a mo na barriga de
Luciana e exclamou:
"Que Deus o abenoe, filho querido! Que o Pai
Celestial proteja sempre este lar!"
-- O nen gostou do nome, Drcio, deu um pulo! -
exclamou Luciana feliz.
Noel, alegre, voltou  Colnia compreendendo
bem o significado da expresso: "A vida continua."
